L'Officiel Brasil

PRECIOUS OKOYOMON

- – Fabia Di Drusco

A artista prospera no caos. Ela, que constrói instalaçõe­s de grande escala usando materiais imprevisív­eis e naturais, cria portais para novos ambientes – uma introdução ao seu mundo onírico. Entre os elementos recorrente­s estão a terra, o sol, as bonecas de lã e de cerâmica, os ursos de pelúcia, as árvores com nós suspensos e os experiment­os culinários concebidos para desafiar os limites da nossa zona de conforto. “Cresci numa casa imbuída de uma forte noção religiosa. Quando criança, eu era obcecada pelo misticismo cristão; era devota ao ponto de escrever orações na forma de poesia, que depois eu enterrava na mata”, conta a artista. Nascida em Londres, Precious passou a primeira infância com sua mãe em Lagos, Nigéria, e então mudou-se para os EUA aos 7 anos – primeiro para Houston e depois para Ohio. Precious estudou filosofia em Chicago antes de se mudar para o Brooklin, em 2017. A artista ganhou o prêmio Frieze Artist Award em 2021 e, recentemen­te, expôs no Museu de Arte de Aspen e na Fundação Luma em Arles. Entre as obras mais impactante­s de Precious Okoyomon está Earthseed, apresentad­a em 2020 no Zollamt, do Museu de Arte Moderna de Frankfurt.a artista encheu o espaço da antiga casa alfandegár­ia com solo superficia­l e plantou uma extensão de plantas kudzu, considerad­as invasivas nos EUA. A planta foi originalme­nte trazida da Ásia para o sul dos Estados Unidos no fim do século 19 como solução para a erosão da terra causada pelo cultivo intensivo de algodão. Ela logo se aclimatou ao novo ambiente, crescendo rapidament­e e sufocando outras espécies nativas, ficando conhecida como a “vinha que comeu o Sul”. Apesar de a kudzu ter se tornado um alerta sobre os perigos de se retirar uma espécie de seu ambiente nativo, para Precious – que necessita “ficar na espiral do caos para continuar produzindo mais mágica” –, a planta é também um símbolo positivo da resiliênci­a caótica da natureza. Para a Bienal de Veneza deste ano, Precious usa cana-de-açúcar pela primeira vez, ao lado da kudzu.“trata-se de uma instalação inspirada por um musical; um projeto que teve uma longa fase de gestação, cerca de dois anos, que criei junto com meu querido amigo Gio Escobar – um compositor extraordin­ário – e uma banda de jazz”, explica a artista.“é um projeto muito especial, com figuras negras de proteção feitas de lã, terra e sangue, e com um rio de algas negras que alimenta os campos de canade-açúcar. Meu trabalho é um processo longo. Eu trabalho com a terra, e nada cresce do dia para a noite. A Bienal de Veneza é uma ocasião muito especial, uma espécie de cápsula do tempo. Chamei essa obra de To See the Earth Before the End of the World. Acho que este é de fato um momento muito especial, em que todos nos perguntamo­s:‘onde estamos agora? O que nos liga aos outros? O que vai acontecer?’.” Depois da abertura em Veneza, Precious voltará aos seus vários trabalhos em andamento. Primeiro, no jardim dinâmico no Museu de Arte de Aspen; depois, na criação de uma floresta, que a artista estima levar quatro anos.

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