FES­TA

A fa­mí­lia Roths­child, que com­prou o La­fi­te em 1868, co­me­mo­ra um sé­cu­lo e meio de pos­se des­sa pro­pri­e­da­de e, pe­la pri­mei­ra vez na história, se­rá li­de­ra­da por uma mu­lher

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Fa­mí­lia Roths­child co­me­mo­ra 150 anos da pos­se do mí­ti­co Châ­te­au La­fi­te, que pe­la pri­mei­ra vez em sua história se­rá co­man­da­do por uma mu­lher

O Châ­te­au La­fi­te Roths­child, um dos cin­co pre­mi­er grand cru de Bor­de­aux, es­tá em fes­ta. A co­me­mo­ra­ção é dis­cre­ta, co­mo dita a no­bre­za dos Roths­child, e te­ve seu pon­to al­to em um jan­tar har­mo­ni­za­do com qua­tro sa­fras do châ­te­au – as de 2009, 1989, 1959 e 1918 –, e um vi­nho se­cre­to, o Car­ru­a­des da sa­fra de 1875. Os 372 se­le­tos pre­sen­tes re­ce­be­ram, além do con­vi­te, o pe­di­do pa­ra não ti­rar fo­tos do even­to re­a­li­za­do no pró­prio châ­te­au, em Pauil­lac, mas, sim, apro­vei­tar pa­ra apre­ci­ar o momento, que era mes­mo es­pe­ci­al. Ce­le­bra­va-se os 150 anos da com­pra do La­fi­te pe­la fa­mí­lia Roths­child.

Em agos­to de 1868, Ja­mes de Roths­child, o ca­çu­la de uma fa­mí­lia ale­mã de ban­quei­ros, ad­qui­riu o vi­nhe­do em um lei­lão, ini­ci­an­do, as­sim, um no­vo ra­mo fran­cês dos Roths­child. Quin­ze anos an­tes, seu ir­mão mais ve­lho, Natha­ni­el, ha­via com­pra­do, tam­bém em lei­lão, o Châ­te­au Bra­ne-Mou­ton, re­ba­ti­za­do co­mo Mou­ton-Roths­child. Mas o ca­çu­la ha­via da­do um lan­ce de mes­tre: o La­fi­te, co­nhe­ci­do pe­la sua ele­gân­cia, era en­tão um dos qua­tro pre­mi­er grand cru clas­sé de Bor­de­aux, a pre­mi­a­da de­sig­na­ção con­ce­di­da por Na­po­leão III, em 1855. O Mou­ton só che­gou à ca­te­go­ria má­xi­ma em 1973, de­pois de mui­to em­pe­nho do ba­rão Phi­lip­pe de Roths­child, mas es­sa é ou­tra história.

Não fal­tam mo­ti­vos pa­ra co­me­mo­rar. Nes­se um sé­cu­lo e meio, os her­dei­ros de Ja­mes con­se­gui­ram não ape­nas man­ter a pos­se da pro­pri­e­da­de, co­mo me­lho­rar a sua qua­li­da­de e ex­pan­dir o ne­gó­cio pa­ra além das fron­tei­ras de Bor­de­aux. En­fren­ta­ram pe­río­dos con­tro­ver­sos, é cer­to, co­mo as du­as gran­des guer­ras – na Se­gun­da Guer­ra Mun­di­al, in­clu­si­ve, um ge­ne­ral ale­mão to­mou pos­se do cas­te­lo e, por sor­te, não aca­bou com o es­to­que de vi­nhos an­ti­gos. Atu­al­men­te, a sex­ta ge­ra­ção es­tá as­su­min­do o châ­te­au. O ba­rão Éric de Roths­child pas­sa o bas­tão pa­ra a sua fi­lha Sas­kia, que se tor­na a se­gun­da mu­lher a di­ri­gir um pre­mi­er cru em Bor­de­aux atu­al­men­te. A ou­tra é Co­rin­ne Ment­ze­lo­pou­tos, que es­tá à fren­te do Châ­te­au Mar­gaux des­de 1980. E pen­sar que na épo­ca de Ja­mes ha­via uma re­gra fa­mi­li­ar que ape­nas os ho­mens po­de­ri­am tra­ba­lhar nos ne­gó­ci­os.

No jan­tar co­me­mo­ra­ti­vo, só os dois Roths­child, pai e fi­lha, dis­cur­sa­ram. “Fo­ram dis­cur­sos bre­ves, no qu­al agra­de­ce­mos a par­ce­ria de to­dos os ami­gos pre­sen­tes. Nós gos­ta­mos de par­ce­ri­as lon­gas, da­que­las que pas­sam de ge­ra­ção pa­ra ge­ra­ção”, con­ta Phi­lip­pe de Ni­co­lay-Roths­child, pri­mo de Éric e o úni­co Roths­child que re­sol­veu mo­rar no Bra­sil (por aqui, ele é do­no de uma im­por­ta­do­ra de vi­nhos, a PNR). Phi­lip­pe de Ni­co­lay co­nhe­ce bem o cas­te­lo, on­de pas­sa­va fé­ri­as qu­an­do ado­les­cen­te, na épo­ca em que Éric as­su­miu o châ­te­au, e tem or­gu­lho de mos­trá-lo aos vi­si­tan­tes. Co­mo Roths­child, é um dos pou­cos que po­de, por exem­plo, jan­tar na úni­ca sa­la do châ­te­au que foi man­ti­da sem ener­gia elé­tri­ca, mes­mo com as re­for­mas ao lon­go dos anos.

So­bre os vi­nhos, Phi­lip­pe de Ni­co­lay se diz sa­tis­fei­to com o tra­ba­lho de Eric Koh­ler, que as­su­miu a di­re­to­ria téc­ni­ca de to­dos os vi­nhos de Bor­de­aux da Do­mai­nes Ba­rons de Roths­child, co­mo é cha­ma­do o gru­po do La­fi­te, com a apo­sen­ta­do­ria de Char­les Che­val­li­er, dois anos atrás. “Te­mos ob­ti­do pon­tu­a­ções mais al­tas nes­tas du­as úl­ti­mas sa­fras”, des­ta­ca ele. Che­val­li­er, que co­me­çou a tra­ba­lhar com os Roths­child em 1982, foi o men­tor de Koh­ler, que en­trou no gru­po de 1994, e ho­je, mes­mo apo­sen­ta­do, con­ti­nua co­mo con­sul­tor dos vi­nhos da fa­mí­lia.

O san­gue no­vo no gru­po vem tam­bém com Je­an-Guil­lau­me Prats, que as­su­miu a pre­si­dên­cia da Do­mai­nes, em mar­ço des­te ano, com a apo­sen­ta­do­ria de Ch­ris­tophe Sa­lin. Prats co­nhe­ce bem es­ses vi­nhe­dos des­de me­ni­no, qu­an­do sua fa­mí­lia era do­na do châ­te­au Cos d’Es­tour­nel, vi­zi­nho ao La­fi­te. Ho­je, ele res­pon­de pe­los 1.200 hec­ta­res de vi­nhe­dos que a Do­mai­nes Ba­rons de Roths­child tem pe­lo mun­do vi­ní­co­la, com a pro­du­ção de 18 mi­lhões de gar­ra­fas.

Na fren­te de um imen­so ma­pa, na en­tra­da da vi­ní­co­la, Prats ex­pli­ca que La­fi­te es­tá em uma das cin­co áre­as pri­vi­le­gi­a­das do Mé­doc, co­mo é cha­ma­da a re­gião da mar­gem es­quer­da do es­tuá­rio de Gi­ron­de. É um pla­nal­to com so­lo bem dre­na­do, com cas­ca­lho, e com boa ex­po­si­ção so­lar, ide­al pa­ra a ca­ber­net sau­vig­non. Mais per­to do rio, o so­lo mais cal­cá­rio é des­ti­na­do pa­ra o mer­lot. O vi­nhe­do é di­vi­di­do com 70% de ca­ber­net sau­vig­non, 25% de mer­lot, 3% de ca­ber­net franc e 2% de pe­tit ver­dot. A ida­de mé­dia das vi­nhas é de 45 anos, sen­do que as vi­nhas até 10 anos de ida­de não são uti­li­za­das no grand vin, mas no se­gun­do vi­nho, o Car­ru­a­des. O vi­nhe­do mais an­ti­go do La­fi­te é o La Gra­viè­res, de 1886. O châ­te­au uti­li­za tam­bém 4,5 hec­ta­res na vi­zi­nha Saint Estèphe. “Mas se, em uma hi­pó­te­se, ven­der­mos es­te vi­nhe­do, o com­pra­dor não po­de uti­li­zá-lo em um vi­nho de Pauil­lac e sim de Saint Estèphe”, ex­pli­ca Phi­lip­pe de Ni­co­lay.

Além dos co­bi­ça­dos 112 hec­ta­res de La­fi­te, a Do­mai­nes Ba­rons de Roths­child tem três châ­te­aux em Bor­de­aux: o Duhart-Mi­lon, um 4th grand cru clas­sé, vi­zi­nho ao La­fi­te; o Ri­eus­sec, um Sau­ter­nes Pre­mi­er Grand Cru Clas­sé; e o L’Evan­gi­le, em Po­me­rol. Na li­de­ran­ça de Éric de Roths­child, a Do­mai­nes rom­peu as bar­rei­ras de Bor­de­aux. Pri­mei­ro com­prou uma vi­ní­co­la no Chi­le, a Viña Los Vas­cos, em 1988, que tem o seu vi­nho pre­mium, o Le Dix, en­ve­lhe­ci­do em bar­ri­cas uti­li­za­das pri­mei­ro pe­lo La­fi­te. De­pois, em 1999, o ba­rão ad­qui­riu a Do­mai­ne d’Aus­siè­res, no Lan­gue­doc e, no mes­mo ano, fez uma par­ce­ria com Ni­co­las Ca­te­na, pa­ra fun­dar a Bo­de­ga Ca­ro, em Men­do­za. O úl­ti­mo in­ves­ti­men­to foi em so­lo chi­nês, em um projeto na re­gião de Pen­glai, que co­me­çou em 2008. O es­pe­ra­do vi­nho ain­da não foi lan­ça­do, o que de­ve acon­te­cer em bre­ve. “É um projeto pa­ra o mer­ca­do in­ter­no chi­nês, com a qua­li­da­de La­fi­te”, diz Phi­lip­pe de Ni­co­lay. Por­que a di­nas­tia dos Roths­child tem mui­tos pla­nos pa­ra os pró­xi­mos 150 anos.

*a jor­na­lis­ta vi­a­jou a con­vi­te da PNR Vi­nhos

Os jar­dins de la­van­da e o châ­te­au ao fun­do: des­de 1868 na mes­ma fa­mí­lia

Ao la­do, os vi­nhe­dos de ca­ber­net sau­vig­non e, ao fun­do, a vi­ní­co­la, on­de nas­cem o La­fi­te e o Car­ru­a­des. A sa­la de bar­ri­cas, em for­ma­to cir­cu­lar, foi pro­je­ta­da pe­lo ar­qui­te­to ca­ta­lão Ri­car­do Bol­fill

A sa­fra 1999 do Châ­te­au La­fi­te, ven­di­da pe­la PNR por R$ 8.895

Pri­mo do ges­tor do Châ­te­au La­fi­te, Phi­lip­pe de Ni­co­lay-Roths­child tro­cou a Fran­ça pe­lo Bra­sil e ho­je tem uma im­por­ta­do­ra de vi­nhos, que traz os ró­tu­los da fa­mí­lia pa­ra o nos­so país

Je­an-Guil­lau­me Prats e Sas­kia Roths­child, os no­vos per­so­na­gens no co­man­do do Châ­te­au La­fi­te

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