EN­TRE­VIS­TA

Em sua pri­mei­ra vi­si­ta ao Bra­sil, o in­glês Alis­tair Co­o­per MW afir­ma que o País de­ve­ria fo­car em su­as bor­bu­lhas de qua­li­da­de

Menu - - Contents - Após uma se­ma­na de vi­si­tas às vi­ní­co­las, qual sua opi­nião dos vi­nhos bra­si­lei­ros?

Alis­tair Co­o­per MW afir­ma que o Bra­sil de­ve fo­car em es­pu­man­tes de qua­li­da­de

A Amé­ri­ca do Sul en­trou no fo­co do sim­pá­ti­co in­glês Alis­tair Co­o­per. Mas­ter of Wi­ne des­de 2017, ele vem in­ves­tin­do em co­nhe­cer mais não ape­nas os vi­nhos da re­gião, mas tam­bém seus vi­nhe­dos e pro­du­to­res. Não é à toa que ele foi o prin­ci­pal des­ta­que da pri­mei­ra edi­ção da Wi­ne South Ame­ri­ca, fei­ra de vi­nhos re­a­li­za­da em Bento Gon­çal­ves (RS) no fi­nal de se­tem­bro. No even­to, ele fez du­as pa­les­tras, uma so­bre os vi­nhos de ex­tre­mos na Amé­ri­ca do Sul, ela­bo­ra­dos em áre­as pou­co tra­di­ci­o­nais pa­ra o cul­ti­vo da vi­nha, co­mo o Ata­ca­ma, no Chi­le, ou o Es­ta­do de São Pau­lo, no Bra­sil; e ou­tra so­bre os es­pu­man­tes na­ci­o­nais. Na su­ges­tão de Co­o­per, nos­sos pro­du­to­res de­ve­ri­am in­ves­tir em pro­du­tos pre­mium pa­ra ga­nhar mer­ca­do. Con­fi­ra a se­guir:

Es­ta é a sua pri­mei­ra vi­si­ta pa­ra co­nhe­cer co­nhe­cer as vi­ní­co­las e os vi­nhos bra­si­lei­ros?

Que­ria vir já faz al­guns anos. Te­nho mui­to in­te­res­se e pai­xão pe­los vi­nhos da Amé­ri­ca do Sul. Co­nhe­ço bem os vi­nhos chi­le­nos e os ar­gen­ti­nos e te­nho pro­va­do bas­tan­te coi­sa do Uru­guai. O Bra­sil é um país que eu sem­pre quis co­nhe­cer. Que­ro en­ten­der tu­do que es­tá acon­te­cen­do com a Amé­ri­ca do Sul co­mo um to­do. Já ti­nha pro­va­do nos­sos vi­nhos? Não mui­tos. Não é fá­cil en­con­trá-los na In­gla­ter­ra, ain­da mais na con­sis­tên­cia do que eu pro­vei aqui, prin­ci­pal­men­te os es­pu­man­tes. Gos­ta­ria de ver mais des­tes vi­nhos em Lon­dres, por­que o Bra­sil, co­mo país, tem uma ima­gem in­ter­na­ci­o­nal mui­to for­te e mui­to boa. Pen­so que is­so é uma gran­de van­ta­gem pa­ra os seus pro­du­tos. As pes­so­as pen­sam no Bra­sil e sor­ri­em. Em es­sên­cia, são bons. Al­guns são mui­to bons, prin­ci­pal­men­te os es­pu­man­tes, que têm mai­or po­ten­ci­al pa­ra cres­cer em qua­li­da­de. Al­guns vi­nhos tran­qui­los ain­da não têm a iden­ti­da­de do Bra­sil. É es­tra­nho um país tropical no qual o con­su­mo de tin­tos é mai­or do que o de bran­cos. Ado­ra­ria ver mais vi­nhos fres­cos sen­do ela­bo­ra­dos, mas nas áre­as cer­tas. Não é pa­ra fa­zer bran­cos ape­nas pa­ra ter vi­nhos bran­cos. Fi­quei mui­to bem im­pres­si­o­na­do com o po­ten­ci­al dos bran­cos que pro­vei de San­ta Catarina. São fres­cos, fá­ceis de be­ber. Só não pro­vei gran­des sau­vig­non blanc, por is­so não te­nho cer­te­za se es­sa é a va­ri­e­da­de cer­ta. En­ten­do

que no pas­sa­do o Bra­sil es­ta­va ten­tan­do des­co­brir su­as iden­ti­da­des, plan­tou al­gu­mas coi­sas, de­pois mu­dou de va­ri­e­da­de, plan­tou mer­lot, por­que é ‘fashi­on’, e plan­tou ca­ber­net sau­vig­non. Pro­vei al­guns ca­ber­net franc an­ti­gos mui­to bons. É di­fí­cil por­que quan­do vo­cê não tem uma iden­ti­da­de, vo­cê fi­ca tes­tan­do o mer­ca­do. Pen­so que o Bra­sil de­ve pri­mei­ro fo­car na­que­las uvas que po­dem cres­cer bem em ca­da uma das re­giões pro­du­to­ras e en­tão cri­ar o seu mer­ca­do.

Por que, em sua pa­les­tra, vo­cê fa­lou que o Bra­sil de­ve­ria in­ves­tir em be­bi­das de mai­or qua­li­da­de?

Eu acho que, ao fo­car em pro­du­tos pre­mium, há mais es­pa­ço pa­ra cri­ar uma iden­ti­da­de. Há sem­pre ni­chos de mer­ca­do que po­dem ser ex­plo­ra­dos. Vi­nhos mais sim­ples, de vo­lu­me, são pe­ri­go­sos pa­ra a lon­ga ca­mi­nha­da. A ca­te­go­ria de es­pu­man­tes é in­te­res­san­te por­que es­ses vi­nhos per­mi­tem re­me­di­ar as va­ri­a­ções de sa­fra. É por is­so que fa­zem gran­des es­pu­man­tes em Cham­pa­nhe: seus pro­du­to­res não con­se­guem fa­zer bons vi­nhos tran­qui­los to­dos os anos. Além de apostar no mer­ca­do pre­mium de es­pu­man­te, é pre­ci­so olhar pa­ra no­vos ter­roirs. Te­nho cer­te­za que, em um país tão gran­de co­mo o Bra­sil, tem mui­tos ter­roirs pa­ra se­rem des­co­ber­tos.

Qu­ais as van­ta­gens e des­van­ta­gens pa­ra o vi­nho bra­si­lei­ro?

A van­ta­gem é a ima­gem do país. A mai­or des­van­ta­gem não tem a ver ne­ces­sa­ri­a­men­te com fa­zer o vi­nho, mas é a di­fi­cul­da­de dos tri­bu­tos, da dis­tri­bui­ção, da lo­gís­ti­ca.

E pa­ra os es­pu­man­tes?

A mai­or van­ta­gem é a va­ri­e­da­de de es­ti­los. Fi­quei sur­pre­so co­mo vo­cês con­se­guem fa­zer bons es­pu­man­tes pe­lo mé­to­do char­mat, pe­lo clás­si­co, e tem tam­bém os mos­ca­téis, as ca­te­go­ri­as blanc de blanc, blanc de noir, sem dé­gor­ge­ment (sem re­ti­ra­da das le­ve­du­ras). Uma das gran­des des­van­ta­gens é que as in­for­ma­ções da­das pa­ra os con­su­mi­do­res no ró­tu­lo e con­trar­ró­tu­lo não são cla­ras. O con­su­mi­dor tem de sa­ber exa­ta­men­te o que es­tá be­ben­do, qual a da­ta do dé­gor­ge­ment, qual o estilo, se é vintage. Jun­tos, vo­cês po­de­ri­am cri­ar es­sas re­gras, um sis­te­ma de de­no­mi­na­ção e ter um no­me pa­ra ele. Na mi­nha apre­sen­ta­ção de es­pu­man­tes, eu não con­se­guia sa­ber exa­ta­men­te o que eu es­ta­va be­ben­do.

Acre­di­ta que pre­ci­sa de um no­me?

Eu acho que po­de aju­dar se cri­a­rem um no­me pa­ra a ca­te­go­ria. Fi­ca mais fá­cil pa­ra di­vul­gar tan­to pa­ra o con­su­mi­dor co­mo pa­ra os pro­du­to­res vi­a­ja­rem jun­tos e di­vul­ga­rem. É uma coi­sa que os pro­du­to­res têm de cri­ar, as­sim co­mo as re­gras, co­mo de­fi­nir o tem­po mí­ni­mo de con­ta­to das le­ve­du­ras, qu­ais in­for­ma­ções co­lo­car no ró­tu­lo. E is­so tem de ser se­gui­do por to­dos.

O que vo­cê fa­ria se pre­ci­sas­se pro­mo­ver os vi­nhos os vi­nhos bra­si­lei­ros no ex­te­ri­or?

Pri­mei­ro, in­ves­ti­ria em edu­car as pes­so­as. Co­me­ça­ria a fa­lar so­bre os vi­nhos bra­si­lei­ros, que mui­tas de­las não sa­bem. Fa­ria au­las de es­tu­do, cri­a­ria uma ima­gem pa­ra o vi­nho, mas não uma ima­gem que os vi­nhos bra­si­lei­ros são di­ver­ti­dos. As pes­so­as não vão be­bê-los por­que o Bra­sil é di­ver­ti­do. Es­ta­mos fa­lan­do de um pro­du­to pre­mium, de um po­si­ci­o­na­men­to de cres­ci­men­to de lon­go pra­zo.

Vo­cê tem tra­ba­lha­do com vi­nhos chi­le­nos, ar­gen­ti­nos, uru­guai­os. Co­mo vê os vi­nhos sul-ame­ri­ca­nos?

Eu que­ro ver a Amé­ri­ca do Sul tra­ba­lhan­do jun­ta. É im­por­tan­te pa­ra ca­da país. O Chi­le não tem uma ima­gem for­te, mas tem uma só­li­da cultura de vi­nho e uma in­dús­tria tam­bém. O Bra­sil tem uma ima­gem mui­to boa; a Ar­gen­ti­na tem os dois, a ima­gem po­si­ti­va e os vi­nhos; e o Uru­guai é um país im­por­tan­te, a qua­li­da­de es­tá me­lho­ran­do mui­to rá­pi­do. To­dos vão se be­ne­fi­ci­ar se tra­ba­lha­rem jun­tos, de se en­con­tra­rem, di­vi­di­rem idei­as. Sem­pre acre­di­tei em co­o­pe­ra­ção na in­dús­tria do vi­nho.

Por que vo­cê es­co­lheu fa­lar dos vi­nhos de re­giões ex­tre­mas em sua apre­sen­ta­ção?

O fa­to mais im­por­tan­te é a ino­va­ção. Nes­sa de­gus­ta­ção, pu­de fa­lar da ins­pi­ra­ção dos enó­lo­gos, das ino­va­ções que as re­giões ex­tre­mas pos­si­bi­li­tam. Ha­via mui­to vi­nho chileno por­que o Chi­le é tra­di­ci­o­nal­men­te um país aber­to a is­so e ca­da vi­nho traz uma his­tó­ria. A his­tó­ria ven­de vi­nhos; a ino­va­ção ven­de. Não é plan­tar ca­ber­net sau­vig­non por­que acha que es­sa uva vai ven­der, mas des­co­brir as pos­si­bi­li­da­des de ca­da vi­nhe­do.

O in­glês Alis­tair Co­o­per MW, que gos­ta­ria de ver mais es­pu­man­tes bra­si­lei­ros na In­gla­ter­ra

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