O Dia

Notas mostram que 2016 foi o melhor Carnaval da Era Sambódromo.

O ano em que Mangueira voltou a ameaçar a hegemonia da Portela foi o mais acirrado da Era Sambódromo

- EDUARDO PIERRE pierre@odia.com.br

Não é de hoje que campeonato­s no Sambódromo são decididos por um décimo. A novidade é que a distância entre a primeira e a última escola está cada vez menor. Levantamen­to do DIA tabul ou todas as notas da Era Sambódromo e constatou que a diferença de seis décimos da Mangueira, a ‘Estação Primeira’ de 2016, para a Imperatriz, sexta colocada, é a mais curta desde 1984.

Especialis­tas em Carnaval atestam: este foi o melhor espetáculo no Sambódromo em décadas. “Por ironia, no ano em que tanto se falou da crise que afetaria as escolas, elas apresentar­am o melhor desfile do século”, crava o sociólogo Bruno Filippo. “Uma gestão de quali- dade reflete um desfile magnífico, e um resultado tão apertado, decidido no último quesito, mostra a qualidade dos enredos e a plasticida­de do desfile”, emenda Fernando Araujo, assessor cultural da Liesa. “Tivemos um Carnaval da malandrage­m, no melhor sentido ”, completa Luiz Antonio Simas, professor e colunista do DIA.

O ‘nivelament­o por cima’ cria situações curiosas. Para comparar os resultados, calculou-se o percentual de aproveitam­ento com base no máximo possível — hoje, 270 pontos; em 1990, por exemplo, eram 570. Rebaixada para a Série Ade 2017, a Estácio de Sá, 12ª colocada, teve 265 pontos, ou 98,15% dos possíveis, desempenho que faria dela vice-campeã em 1994,

quando a Imperatriz levou o título com ‘Catarina de Médicis na corte dos tupinambôs e tabajeres’.

Em pontos percentuai­s, os seis décimos entre a campeã e a sexta colocada deste ano viram 0,22, índice bem menor, por

exemplo, que os 3, 67 em 2001 — ano da ‘ cachaça’ da Imperatriz — e os 6,09 de 1986, quando a Mangueira cantou Dorival Caymmi.

Ao contrário de Laíla, que reclamou do resultado elançou suspeitas contra a Unidos da Tijuca—como O DIA mostrou sexta-feira —, os especialis­tas ouvidos pela reportagem consideram o escore de 2016 justo. “As seis primeiras foram as apontadas pela maioria como as que desfilaram melhor”, opina Simas. “Concordo. Mas, se no lugar da Mangueira, a Portela ou o Salgueiro conquistas­sem o título, também terias ido justíssimo ”, pondera Filippo. Os dois afirmam que o nivelament­o por cima tem mais a ver coma evolução das escolas que com possível benevolênc­ia dos jurados.

Aforma dese calcular o campeão, aliás, muda em média acada três anos. Desde 2012 se descarta a menor nota por quesito; na década passada (de 2002 a 2009), toda notavalia, ecada décimo perdido era fatal; já inventaram pesos diferentes, co moem 1990; e havia, nos anos 80, bonificaçã­o para itens como dispersão e cronometra­gem. Fora a ‘dança do Conjunto’, incompreen­sível quesito que já saiu duas vezes.

Simas e Filippo divergem sobre o modelo atual, de descarte. “É difícil encontrar um julgamento que não seja, em alguma medida, capaz de produzir distorções. Essa fórmula me parece a mais equilibrad­a, que evita que um jurado‘ derrube’ uma escola”, argumenta Simas. “Não gosto do descarte. Isso premia o erro. Todas as notas deveriam serc omputadas ”, rebate Fi lippo.Cabeà sagrem i ações decidira equação, esclarece Fernando .“A fórmula atual foi fechada em plenário, conforme as anteriores. As escolas escolhem a

me - lhor maneira de julgamento e, conforme o desempenho do júri, há, posterior ao desfile, uma discussão.”

1984, O ANO DA POLÊMICA

Abus capela perfeição também esquentou rivalidade histórica entre duas instituiçõ­es do samba, Mangueira e Portela. Com aode a Maria Bethânia, a Verde e Rosa está mais perto da Águia de Madureira. Mas quantos títulos cada uma tem? Qual o ‘placar ’?21 a 19?20 a 18? O somatório é ponto polêmico, ‘culpa’ de 1984, inauguraçã­o do Sambódromo.

Bruno Filippo lembra que até 1983 os desfiles aconteciam no domingo, não importando se terminasse­m quase 24 horas depois. “‘Sambódromo não é para um dia só’, disse Brizola à época ”, relata .“Então se criou estrutura inédita, com três campeonato­s: o de domingo, o de segunda e o do Sábado das Campeãs. Cada dia teria um corpo de jurado diferente”, detalha.

Todos sabem que a Portela ganhou no Domingo, e a Mangueira, na Segunda, e as duas disputaram o ‘Supercampe­onato’ com Mocidade, Império, Beija-Flor, Caprichoso­s, Unidos do Cabuçu e Acadêmicos de Santa Cruz — estas duas, vindas do Grupo 1B. Curiosamen­te, não se julgaram os quesitos Alegorias e Adereços, Enredo e Fantasias, restando às escolas sobressair no ‘chão’. E aí a Mangueira levou a melhor. Mas, para a Liesa, o ‘Supercampe­onato’ não conta. “É um para a Portela, e um para a Mangueira”, esclarece Fernando Araujo. Filippo discorda. “Foi outra disputa, com outros jurados. A Mangueira tem 19 títulos”, atesta. Simas faz coro. “Vejo como um título da Mangueira e sei de portelense­s que também não sentem o gostinho do caneco em 1984. Pelo critério que considera a Portela campeã, a Mangueira poderia contar dois títulos .” Placar final: 21 a 18. Ou até

2017...

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