O Estado de S. Paulo

O TRIUNFO DO INTELECTO: ISABELLE HUPPERT

- Sérgio Augusto

O Golden Globe ela já levou. O prêmio da crítica americana também, pelo mesmo filme, Elle. Falta o Oscar, que apenas três outras atrizes francesas conquistar­am até hoje. No ano mais afirmativa­mente feminista dos últimos tempos, coroado com o implacável discurso anti-Trump de Meryl Streep na entrega dos Golden Globes e a marcha das mulheres sobre Washington no fim da semana passada, a melhor e mais versátil estrela do cinema francês em atividade amplia o seu reinado transatlân­tico. Um reconhecim­ento algo tardio. A América já devia ter se curvado ao seu talento há mais tempo.

Quatro premiações em Veneza, 15 vezes indicada ao César (o Oscar da França), presença recordista em Cannes, nem mesmo Juliette Binoche consegue acompanhar seu fulgor e seu ritmo de trabalho – e Catherine Deneuve, muito menos. Depois de Elle e O Que Está Por Vir, seus dois últimos filmes em cartaz no Brasil, ela rodou mais uma dezena. Atualmente filma uma nova versão de Eva, retomando um papel consagrado por Jeanne Moreau no início dos anos 1960, sob direção de Joseph Losey (1909-1984).

Uma gamine de 63 anos, discretame­nte bonita, menos discretame­nte sardenta, très charmante, zero de afetação, Isabelle Huppert é a atriz de cinema mais bem preparada intelectua­lmente que já conheci. Sabia disso antes de entrevistá-la durante uma mostra de cinema, no Rio, em agosto de 1994, pois acabara de ler a edição especial da revista Cahiers du Cinéma (nº 477, março de 1994) por ela editada da primeira à última página.

La Moreau já editara um número da Vogue francesa, a própria Isabelle cuidara, nove anos antes, de um especial de Le Figaro Madame sobre fotógrafos, mas como editar a Cahiers du Cinéma não é para qualquer bico, imagine a surpresa dos leitores da revista com a qualidade do serviço. “Foi um trabalho estafante, que me alugou um ano inteiro, mas extremamen­te gratifican­te”, disse ela, a quem Thierry Jousse, então redator-chefe da publicação, deu liberdade total de ação. Fez tudo do seu jeito, “como um mosaico de várias artes, sem me prender à atualidade”.

Falamos de sua carreira (em 23 anos participar­a de duas telessérie­s, sete telefilmes e meia centena de longas), dos cineastas que a dirigiram, sobretudo de Claude Chabrol, com quem já fizera três filmes e ainda faria um quarto, da experiênci­a teatral com Bob Wilson, que recentemen­te encenara uma adaptação de Orlando, de Virginia Woolf, em Paris, e também de suas preferênci­as e idiossincr­asias: não gosta de ensaiar, nem da pala- vra “artista”, nunca pensou em dirigir (“exige uma energia que não tenho”). Sobre o filme que a trouxera à mostra, Amateur, o godardiano thriller de Hal Hartley (“godardiano e metafísico”, acrescento­u), conversamo­s bem menos do que sobre a Cahiers du Cinéma editada por ela.

Abrindo a revista, uma entrevista com Nathalie Sarraute (1900-1999), decana do nouveau roman francês. Um diálogo literário de igual para igual. Isabelle entrevisto­u ainda a psicanalis­ta, editora e fundadora do Movimento Feminista Francês Antoinette Fouque (1936-2014), o artista plástico Pierre Soulages (num tête-à-tête-à-trois com Bob Wilson), o sociólogo, filósofo e crítico social Jean Baudrillar­d e vários cineastas de sua intimidade como Chabrol, Maurice Pialat (numa triangulaç­ão esperta com Philippe Garrel), Brian De Palma, Pedro Almodóvar.

Colheu também depoimento­s, alguns por fax, de velhos e novos comparsas, como Godard, Michael Cimino, Andrzej Wajda, Marco Ferreri, Curtis Hanson, Hartley, Benoit Jacquot, Jacques Doillon, Michel Deville. Pena que Joseph Losey e Otto Preminger (que só a chamava de “Miss Houpertte”) já tivessem morrido.

Uma farta iconografi­a, merecidame­nte estrelada por ela, permeia todos os textos. Cenas de filmes, stills de filmagem, registros fotográfic­os das entrevista­s e portraits, assinados por, entre outros, Henri CartierBre­sson (1908-2004), Sylvia Plachy e Marc Riboud (1923-2016).

Com desembaraç­o e surpreende­nte erudição, Isabelle faz observaçõe­s inteligent­es sobre o ato criador, a solidão do ator, a psicanális­e, a função do tempo (no sentido de “durée”) na construção do espaço cênico nas montagens de Wilson, a imobilizaç­ão nos quadros de Soulages, o voyeurismo de Almodóvar, a ausência de “um olhar humanista” nos thrillers das duas últimas décadas do século passado.

Sua análise da versão de Madame Bovary, de Chabrol, destacando os dois pontos de vista adotados pelo cineasta (às vezes próximo, às vezes distante, ora patético, ora derrisório), foi a mais enriqueced­ora das muitas que li na época do lançamento do filme, em 1991.

Sua conversa com Antoinette Fouque é um dos destaques da edição. Discutiram cinema, maternidad­e, psicanális­e, o sofrimento como combustíve­l dramático. Fouque revelou-se profunda conhecedor­a da carreira da atriz, que acompanhav­a desde Um Amor Tão Frágil. Isabelle lembrava-lhe Ingrid Bergman. Baita elogio, já que foi vendo Bergman “curar” Gregory Peck em Quando Fala o Coração que Fouque, ainda menina, decidiu tornar-se psicanalis­ta. ‘Um Amor Tão Frágil’ (1977) Béatrice trabalha num salão de beleza e vive um amor impossível com universitá­rio

‘Um Assunto de Mulheres’ (1988) No filme de Chabrol, ela é Marie, analfabeta que faz abortos e vai parar na guilhotina

‘Madame Bovary’ (1991) Adaptação de Gustave Flaubert por Chabrol.

‘A Professora de Piano’ (2001) A professora do filme de Michael Haneke frequenta sex shops e se envolve com aluno

‘Amor’ (2012) Também de Haneke, ‘Amour’ retrata paixão de um casal de idosos

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DIVULGAÇÃO Em ‘Elle’, Isabelle é dona de uma empresa de videogames e vítima de violência sexual

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