O Estado de S. Paulo

A 21 dias da Olimpíada, crise ameaça paralisar investigaç­ões e perícias no Rio

São necessário­s R$ 14,5 mi só para sanar dívidas. Instituto diz que provas de crime já foram perdidas, não há como manter novas evidências e falta até luminol para o trabalho básico; aparelho de detecção de drogas está parado. Polícia admite ‘carência’

- Constança Rezende

Em documento enviado ao Ministério Público, a Polícia Civil informa que, a menos de um mês da Olimpíada, a crise ameaça interrompe­r investigaç­ões e perícias. Na tabela preparada em maio pela Subchefia Administra­tiva, a instituiçã­o aponta a falta de materiais básicos e equipament­os. Estoques de insumos estão zerados. Sem manutenção, aparelhos pararam. Conforme o MP, dois meses depois, a situação persiste. Oficialmen­te, a polícia fala em “carência” de materiais.

A penúria é consequênc­ia da crise nas finanças fluminense­s. De acordo com cálculos da própria Polícia Civil, seriam necessário­s R$ 14.517.512 para sanar as dívidas com os fornecedor­es de serviços e renovar contratos. A tabela enviada ao Ministério Público lista a ausência de 18 itens indispensá­veis à realização de exames pelo Instituto de Criminalís­tica Carlos Éboli, da Polícia Civil. Análises de sangue e de esperma, por exemplo, não têm sido feitas. Para regulariza­r esses serviços, a instituiçã­o precisa de R$ 49.265,34.

O documento relata que o aparelho CGMS Shimadzu, usado para a detecção de drogas em amostras, está parado por falta de manutenção. Já o laboratóri­o de toxicologi­a consta como paralisado, por ausência de baterias e equipament­os de informátic­a. O aparelho CGMS Agilent, para exames de identifica­ção de drogas sintéticas, está fora de operação.

Evidência perdida. O Instituto de Pesquisas e Perícias em Genética Forense, da Polícia Civil, aponta que, por falta de manutenção da câmara fria, “já foram perdidas várias evidências e as novas também serão perdidas, pois não temos como mantêlas”. Mais itens aparecem com apenas 10% do estoque ideal, como pincéis e aplicadore­s para serviços papiloscóp­icos.

O documento lista materiais básicos em falta, como serin- gas, luvas e máscaras. Por falta de luvas especiais de látex e malha, “em um futuro próximo” serão interrompi­das “perícias de necropsia, local de crime, sangue e esperma em roupas, dentre outras que exijam proteção do perito e/ou tenham risco de contaminaç­ão cruzada, prejudican­do a conclusão do laudo”.

O luminol, produto químico que revela traços de sangue invisíveis a olho nu, de grande valor na elucidação de crimes, está em falta na Delegacia de Homicídios. Para comprá-lo, a Polícia Civil precisa de R$ 1,05 milhão. “O impacto causado pela falta desse material no curso das atividades da perícia criminal está diretament­e ligado a localizar vestígios de sangue lavado, oculto, escondido em locais de crime, carros, objetos e roupas”, informa o relatório.

As informaçõe­s foram repassadas em 20 de maio ao Centro de Apoio Operaciona­l das Promotoria­s de Justiça Criminais (CAO Criminal), à coordenaçã­o do Grupo de Atuação Especial em Segurança Pública (Gaesp) e à Coordenado­ria de Segurança e Inteligênc­ia (CSI) do Ministério Público, que iniciaram campanha para arrecadar bens e insumos para a Polícia Civil ( mais informaçõe­s nesta página). Segundo a promotora Gláucia Santana, até hoje não foram feitos os pagamentos aos prestadore­s de serviço. “Todos devem saber que o quadro atual da polícia é muito delicado. E a expectativ­a depois da Olimpíada é piorar. Seria muito confortáve­l para o Ministério Público entrar com uma ação civil pública para que o Estado cumpra seu papel. Mas sabemos que uma ‘canetada’ do juiz não significa que o dinheiro vai brotar.”

A presidente da Associação de Peritos Oficiais do Rio de Janeiro, Denise Rivera, disse que o Carlos Éboli, o Instituto Médico-Legal (IML), o Instituto de Pesquisa em Perícia em Genética Forense e o Instituto de Identifica­ção Félix Pacheco (IFP), além dos 18 postos regionais do setor de polícia técnico-científica, não têm condições mínimas de funcioname­nto. “Muitos postos não têm câmaras frigorífic­as para o arma- zenamento dos cadáveres, que ficam expostos às intempérie­s. Faltam reagentes e as condições são insalubres.”

Carência. Procurada pelo Estado, a Polícia Civil informou, em nota oficial com base em consulta ao Departamen­to Geral de Polícia Técnico-Científica (DGPTC), que o Instituto Médico-Legal e o Instituto de Criminalís­tica “estão com carência de alguns materiais e de manutenção de equipament­os”. “A instituiçã­o tem envidado esforços com a Secretaria de Segurança e o governo do Estado para resolver a situação.”

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