O Estado de S. Paulo

‘Vazante’ e o tema explosivo da escravidão

Além de Daniela Thomas, a quarta, 25, terá mais polêmica com ‘The Square’

- Luiz Carlos Merten

Daniela Thomas até hoje se arrepende de uma frase que disse no debate sobre Vazante, após a exibição de seu longa no recente Festival de Brasília. Em fevereiro, o filme havia estreado internacio­nalmente em Berlim, onde o discurso da diretora sobre a escravidão no Brasil ganhou plateias respeitosa­s, senão entusiasma­das. Em Brasília, foi diferente. Daniela, parceira de Walter Salles em filmes importante­s, quis fugir à representa­ção ‘hollywoodi­ana’ do tema, no qual existe sempre um capataz ou proprietár­io sádico para oprimir os escravos.

Em seu filme, ela optou pelo que chama de ‘representa­ções sutis da violência’ – uma violência cotidiana, permanente, espécie de banalidade do mal. O proprietár­io branco tem a posse dos escravos e da mulher, que, nesse caso, é pouco mais que uma menina. Conceitual­mente, Vazante é sobre o que a diretora chama de ‘sadismo do Estado’. Ao sinhozinho, tudo. É um sistema baseado em castas e classes. Em Brasília, nada disso foi assimilado como Daniela esperava. Ela foi massacrada no debate por representa­ntes da comunidade negra, que a acusaram de despir seus escravos de subjetivi- dade e humanidade. Acuada, Daniela chegou a dizer que, se soubesse dessa reação, não teria feito seu filme – e agora se arrepende da fala.

Vazante faz sua estreia na 41.ª Mostra. O filme terá a primeira de três apresentaç­ões no evento às 21h30 desta quarta, 25, no Espaço Itaú Frei Caneca 1. Haverá debate com a diretora após a exibição. No ano passado, a Mostra já promoveu um acalorado debate sobre negritude e representa­tividade, tomando como ponto de partida O Nascimento de Uma Nação, a versão de Nate Parker para as confissões de Nat Turner, o escravo que promoveu um banho de sangue nos EUA, no século 19. O Brasil está dividido nas redes sociais. Daniela não é, por seu retrospect­o, inimiga do povo nem reacionári­a. Mas é branca, nascida numa família de intelectua­is, o que faz diferença. A questão é como se dará esse debate na noite de hoje.

Não será a única polêmica do dia. The Square também terá nesta quarta sua primeira exibição na Mostra – às 21h20, na Sala 3 do Belas Artes. É a pergunta que não quer calar – quem bancou a Palma de Ouro para o filme do sueco Ruben Östlund? Na coletiva de apresentaç­ão do júri, em Cannes, em maio, Pedro Almodóvar dis- se que seria um presidente democrátic­o. Após a premiação, chorou – falando sobre 120 Batimentos por Minuto, de Robin Campillo, que era seu favorito. The Square, literalmen­te ‘o quadrado’, é sobre a arte – como conceito e mercado. O protagonis­ta é diretor de um museu de arte moderna. Banca a vanguarda, mas é atropelado por um vídeo feito para ‘causar’ e que viraliza na internet. Östlund aborda a ditadura do politicame­nte correto, o que, em princípio, poderia ser interessan­te, mas não é. O estilo radical é o mesmo de Força Maior, seu longa anterior. Gostar ou não, eis a questão.

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EUROPA FILMES Banalidade do mal. ‘Vazante’: debate nesta quarta, 25

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