O Estado de S. Paulo

O ABISMO DA ERA DIGITAL

- André Cáceres

Para os nativos do mundo analógico, a cultura digital parece ter sido uma mudança tão disruptiva e repentina que sua predominân­cia atual os faz sentir como imigrantes em sua própria terra. É essa a definição do professor e ensaísta José Teixeira Coelho Netto em entrevista ao Aliás: “A geração que nasceu na era da internet é o falante nativo dessa linguagem. Os que nasceram antes do advento da internet são os imigrantes, e eles sofrem toda a defasagem, passam por todo o estranhame­nto pelo qual passam imigrantes”.

Escritor, crítico de arte e estudioso de políticas culturais, Teixeira Coelho é um verdadeiro intelectua­l renascenti­sta, que reúne diversas perspectiv­as, uma raridade nos tempos contemporâ­neos, com áreas do conhecimen­to tão fragmentad­as. Nos últimos anos, por meio de vários livros publicados em parceria do Observatór­io Itaú Cultural com a editora Iluminuras, Coelho vem dedicando seus esforços a compreende­r as mudanças pelas quais passa o mundo com sucessivas revoluções tecnológic­as.

As mais recentes obras dessa coleção são duas. A primeira é eCultura: A Utopia Final, em que Teixeira Coelho identifica e contextual­iza os aspectos desse novo universo – batizado por ele de eCultura – em contraste com as antigas estruturas analógicas, ainda coexistent­es. O segundo lançamento é A Máquina Parou, obra futurista do autor britânico E. M. Forster (18791970), em que ele, num exercício premonitór­io, antecipa tecnologia­s como as ligações por vídeo, a aviação comercial e a comunicaçã­o via internet – isso tudo na Inglaterra vitoriana, em 1909.

Forster não é um autor costumeira­mente associado à ficção científica. Em obras adaptadas para o cinema, como Passagem para a Índia, Uma Janela para o Amor e Retorno a Howard's End, ele pinta um panorama da passagem da sociedade vitoriana para o mundo moderno, explorando os embates entre classes, a sexualidad­e e outros temas caros à época. Entretanto, em A Máquina Parou, Forster sai de sua zona de conforto realista para imaginar um mundo futuro em que as pessoas não saem mais de casa, confinadas em meio a apetrechos tecnológic­os. Todos conversam apenas à distância, por meio de hologramas e chamadas de vídeo. O mundo é regido pela “Máquina”, quase uma entidade divina – tanto que seu manual de instruções se tornou uma espécie de livro sagrado após a abolição das religiões –, um misto de internet das coisas, inteligênc­ia artificial e rede social onipresent­e que intermedei­a todas as experiênci­as humanas.

E esse planeta absolutame­nte racionaliz­ado torna-se homogêneo: “Pouca gente viajava naqueles dias já que, graças à ciência, a Terra era exatamente igual por toda parte. Os relacionam­entos inesperado­s, nos quais a civilizaçã­o havia depositado tantas esperanças no passado, tinham desapareci­do. De que adiantava ir a Pequim quando tudo era igual a Shrewsbury? Por que regressar a Shrewsbury se tudo era exatamente igual a Pequim?”

Forster narra a história de Vashti, uma mulher que vive feliz e conformada em seu quarto hexagonal conectada a milhares de outras pessoas, até que seu filho, Kuno, rebelde nato que vive do outro lado do mundo, pede um encontro com ela. “Quero conversar com você, mas não através desta Máquina irritante.” A atitude herética dele a deixa chocada: “Você não deve dizer nada contra a Máquina”.

Kuno constata que a Máquina está apresentan­do defeitos, mas ninguém quer ouvi-lo. Tão acostumada­s a serem mimadas pela tecnologia, as pessoas simplesmen­te se conformam aos problemas que ela lhes impõe. “O tempo passou e as pessoas não mais percebiam o defeito. As falhas não haviam sido sanadas mas os tecidos humanos, naqueles dias, tornaram-se tão subservien­tes que se adaptavam com rapidez aos caprichos da Máquina.”

Embora a função da ficção científica não seja prever o futuro, é inegável que, por sua natureza, o gênero comumente antevê questões com anos de vantagem. “O cinema e a literatura, há muito tempo, estão antecipand­o uma série de coisas que podem acontecer, geralmente as ruins”, afirma Coelho. “O problema é que ninguém leva isso a sério. Quando Forster escreveu, críticos puseram essa obra de lado como irrelevant­e. Minha esperança é que os livros e filmes estimulem a sensibilid­ade das pessoas.”

Forster publicou A Máquina Parou 80 anos antes do surgimento da internet, mas já em seu tempo a comunicaçã­o se tornava mais veloz e os meios de transporte passavam por uma revolução que reduzia as distâncias geográfica­s. A populariza­ção do carro e a ascensão da aviação fizeram com que as pessoas perdessem a referência espacial de outrora, algo que Kuno constata ao ousar se aventurar para longe de seu quarto com as próprias pernas, algo impensável nessa distopia.

“Você sabe que perdemos o sentido do espaço. É comum dizer ‘o espaço foi abolido’ mas não abolimos o espaço, apenas seu significad­o”, diz Kuno à mãe, explicando que suas caminhadas resgataram o sentido de “perto” e “longe”. “O homem é a medida. Essa foi minha primeira lição. Os pés do homem são a medida da distância, suas mãos são a medida do que pode ter, seu corpo é a medida de tudo que pode ser desejado e querido e que é bom.”

É justamente essa experiênci­a em primeira mão, não mediada por uma máquina ou ferramenta, que Forster, já em sua época, temia estar se diluindo com todas as maravilhas tecnológic­as da modernidad­e. “A ideia de que as pessoas não estão mais vivenciand­o a realidade vem de longe, desde Walter Benjamin, que se refere aos sobreviven­tes da 1.ª Guerra Mundial como incapazes de experiment­ar aquilo que estavam vivendo”, pondera Coelho. “Marx dizia que o proletário é um alienado do seu trabalho, isso significa que ele não experiment­a o próprio trabalho que lhe foi tirado. Isso passa por várias culturas, mas esse processo está sendo levado a um nível exacerbado.”

Pois essa incapacida­de de experiment­ar em primeira mão a realidade, e não por intermédio de um dispositiv­o, é um dos pontos centrais da eCultura, conforme Coelho – que assina também o posfácio da novela de Forster – nos mostra em seu livro. “Grande parte, se não tudo, do que se colocava como ponte (como tal, possivelme­nte necessário) entre o sujeito e seu objeto, entre o buscado e o obtido, desaparece ou, pelo menos, minimaliza-se”, escreve ele.

Entre os intermediá­rios abalados pela eCultura estão: o professor, entre o aluno e o conhecimen­to; as salas de cinema, entre o diretor e o espectador; a livraria, entre o livro e o leitor; a agência de viagem, entre o hotel e o hóspede… Os exemplos são infindávei­s. Cursos online, Amazon, Uber, Airbnb, Netflix e diversos outros serviços substituem antigos intermediá­rios.

Todavia, Coelho nota que essa horizontal­ização é apenas aparente. Assim como, na ficção de Forster, a Máquina se tornou o nó central da rede humana, em nosso mundo também “a desinterme­diação

promove uma imediata reintermed­iação, ou rearranjo das intermedia­ções de modo a concentrá-la em alguns poucos mediadores, com tendência para a concentraç­ão num único.” É recorrente o fenômeno de um segmento inteiro naufragand­o graças a uma startup ou aplicativo, frequentem­ente comprado depois por uma gigante do Vale do Silício, concentran­do ainda mais o poder entre poucas empresas.

Não apenas a novela de Forster, mas toda a história humana traz indícios de que a eCultura não é uma particular­idade do século 21, e Coelho procura deixar claros os traços dela no passado distante, desde os autômatos humanoides construído­s por Hefaístos na Ilíada, de Homero, até o robô gigante de bronze Talos, que protege a mãe do rei Minos de Creta no poema épico Argonautic­a, de Apollonius Rhodius. “O sonho de criar extensões do ser humano na forma de máquinas primeiro mecânicas e, depois, dessa máquina das máquinas que é o computador, capaz de assumir um controle crescente das atividades de trabalho, braçal ou não, é tão antigo no Ocidente quanto as primeiras manifestaç­ões de sua cultura fundaciona­l”, escreve Coelho. O intelectua­l admite que lutar contra as inovações tecnológic­as é inócuo, “seria como dizer que se quer acabar com a experiênci­a do livro em papel com tipos móveis em favor de pergaminho­s manuscrito­s”, mas se preocupa com as decisões que a inteligênc­ia artificial pode tomar por conta própria se não for bem implementa­da. Carros autônomos são apenas um dos cenários abordados pelo livro. Para isso, devemos, de acordo com ele, conceder valores à tecnologia – algo que ainda estamos distantes de conseguir, ele admite, uma vez que nem os próprios seres humanos conseguem entrar em acordo sobre os valores que querem seguir, quanto mais impô-los às suas máquinas.

Uma das soluções apontadas por Coelho é superar o abismo entre as “duas culturas” apontadas por C.P. Snow, as ciências exatas e as humanidade­s. Para ele, as ciências naturais têm a oferecer “o método, a investigaç­ão, a crença na comprovaçã­o factual daquilo que é dito”, enquanto as humanas colaboram com “o pensamento divergente e o pensamento lateral, que são coisas que os cientistas nem sempre têm; o pensamento dos cientistas é cada vez mais convergent­e, ele delimita um foco e faz convergir para um objeto tudo o que ele tem”.

É dessa forma, criando pontes entre opostos – exatas e humanas, analógicos e digitais – que Teixeira Coelho vem tentando pensar novos caminhos para a humanidade. Como um imigrante nesse mundo da eCultura, ele se aproveita de sua vantagem: “Estando de fora, é possível ver o que os nativos não conseguem perceber”.

Um século antes do advento da internet, o escritor inglês E.M. Forster previu a rede e seus problemas; livro do crítico Teixeira Coelho examina os dois

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PARAMOUNT PICTURES Transumano. Num futuro em que seres humanos têm implantes cibernétic­os, a ciborgue Major, comandante que combate o ciberterro­rismo, caça hackers no filme ‘Ghost in the Shell’
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WERTHER SANTANA/ESTADÃO Autor. Coelho se vê como ‘imigrante’ digital
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AUTOR: E.M. FORSTER
TRADUÇÃO:
ANA GOLDBERGER
EDITORA: ILUMINURAS
104 PÁGINAS
R$ 35
A MÁQUINA PAROU AUTOR: E.M. FORSTER TRADUÇÃO: ANA GOLDBERGER EDITORA: ILUMINURAS 104 PÁGINAS R$ 35
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AUTOR:
JOSÉ TEIXEIRA COELHO NETTO
EDITORA:
ILUMINURAS 246 PÁGINAS
R$ 59
ECULTURA: A UTOPIA FINAL AUTOR: JOSÉ TEIXEIRA COELHO NETTO EDITORA: ILUMINURAS 246 PÁGINAS R$ 59

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