Re­for­ma tri­bu­tá­ria

O Estado de S. Paulo - - Primeira página - E-MAIL: CEL­[email protected]­TA­DAO.COM

Sem a no­va CPMF, o go­ver­no ago­ra es­tu­da al­ter­na­ti­vas de re­cei­tas pa­ra com­pen­sar a de­so­ne­ra­ção da fo­lha de pa­ga­men­to das em­pre­sas. Uma de­las é usar verbas do Sis­te­ma S.

Ain­sis­tên­cia na re­cri­a­ção da CPMF pro­du­ziu a de­mis­são do seu mai­or de­fen­sor den­tro do go­ver­no, o se­cre­tá­rio Es­pe­ci­al da Re­cei­ta Fe­de­ral, Marcos Cin­tra. Mas não re­sol­veu os pro­ble­mas por trás da ten­ta­ti­va de tra­zer de vol­ta es­se im­pos­to.

Há pe­lo me­nos 30 anos, o pro­fes­sor Marcos Cin­tra tem uma ob­ses­são, que en­con­tra pa­ra­le­lo com a do ex-se­na­dor Edu­ar­do Su­plicy e a cri­a­ção de um pro­je­to de ren­da mí­ni­ma pa­ra to­do bra­si­lei­ro. Cin­tra quer eli­mi­nar to­dos os im­pos­tos e con­tri­bui­ções da eco­no­mia e subs­ti­tuí-los pe­lo Im­pos­to Úni­co, que in­ci­di­ria so­bre pa­ga­men­tos e trans­fe­rên­ci­as, mais ou me­nos nos mol­des da ve­lha CPMF, ex­tin­ta em 2007.

Com al­guns ajus­tes, a ideia foi com­pra­da por um gru­po de em­pre­sá­ri­os reu­ni­dos no Ins­ti­tu­to Bra­sil 200, sob a jus­ti­fi­ca­ti­va de que se­ria o úni­co re­cur­so que en­qua­dra­ria tan­to a eco­no­mia in­for­mal quan­to no­vas for­mas de tran­sa­ção en­vol­vi­das na tec­no­lo­gia di­gi­tal, que fo­gem ao pa­ga­men­to de im­pos­tos.

Vi­es­se com o no­me que fos­se, a CPMF cau­sa­ria enor­mes dis­tor­ções. Mes­mo com uma in­fla­ção bem mais al­ta, de 5% a 8% ao ano e ju­ros bá­si­cos de 11,0% a 13,0% ao ano, a CPMF apre­sen­tou no pas­sa­do uma fi­ei­ra de pro­ble­mas. So­bre­car­re­gou a ca­deia pro­du­ti­va com um im­pos­to cu­mu­la­ti­vo (im­pos­to so­bre im­pos­to) que in­ci­dia em ca­da fa­se da pro­du­ção e dis­tri­bui­ção. Ti­rou for­ça das ex­por­ta­ções, uma vez que fi­cou im­pos­sí­vel ex­trair o im­pos­to dos pre­ços do pro­du­to ex­por­tá­vel. E pro­du­ziu des­ban­ca­ri­za­ção, por­que em­pre­sas e pes­so­as fí­si­cas tra­ta­ram de fu­gir do im­pos­to por meio de ope­ra­ções com di­nhei­ro vi­vo ou com ou­tros me­ca­nis­mos de pa­ga­men­to.

Ago­ra que a in­fla­ção vai pa­ra 3,5% ao ano e os ju­ros cai­rão pa­ra al­go em tor­no dos 5,0% ano, o pe­so do im­pos­to a uma alí­quo­ta de 0,4% em ca­da pon­ta da tran­sa­ção fi­cou al­to de­mais. Ima­gi­ne-se,

por exem­plo, uma em­pre­sa que pre­ci­sas­se le­van­tar ca­pi­tal de gi­ro num ban­co pe­lo pe­río­do de três ou qua­tro di­as: o que pa­ga­ria pe­la CPMF se­ria mais do que o cus­to do em­prés­ti­mo ban­cá­rio.

A ideia do ago­ra ex-se­cre­tá­rio Marcos Cin­tra se­ria tra­zer de vol­ta a CPMF com uma alí­quo­ta su­jei­ta a au­men­tos, tão lo­go sua ar­re­ca­da­ção se mos­tras­se in­su­fi­ci­en­te. Aí pe­lo me­nos hou­ve mais ho­nes­ti­da­de. Quan­do foi cri­a­da em 1997, a ga­ran­tia foi de que a alí­quo­ta não se­ria ele­va­da. Mas foi. Nes­sa ma­té­ria, qua­se não há li­mi­tes. A vo­ra­ci­da­de fis­cal é sem­pre mai­or do que o ta­ma­nho da alí­quo­ta.

Se ago­ra fi­cou ad­mi­ti­do que a alí­quo­ta po­de su­bir, per­de validade o ar­gu­men­to de que a no­va CPMF vi­ria ape­nas pa­ra subs­ti­tuir ou­tros im­pos­tos ou ou­tras con­tri­bui­ções – e não pa­ra au­men­tar a car­ga tri­bu­tá­ria.

Não fi­cou cla­ro se a de­mis­são de Marcos Cin­tra acon­te­ceu por­que di­vul­gou a proposta da cri­a­ção de um im­pos­to sem au­to­ri­za­ção pré­via dos che­fes, mi­nis­tro Pau­lo Guedes e pre­si­den­te Bol­so­na­ro, ou se foi de­mi­ti­do por­que o go­ver­no não quer o im­pos­to.

Mais de uma vez, Pau­lo Guedes de­fen­deu a no­va CPMF com o ar­gu­men­to de que é pre­ci­so re­du­zir os cus­tos de con­tra­ta­ção de mão de obra. E há o pro­ble­mão ori­gi­nal: o de que não há re­cur­sos e que é pre­ci­so in­ven­tar o que es­tá mais à mão.

De to­do mo­do, a de­mis­são de Marcos Cin­tra tor­na mais di­fí­cil o re­tor­no da CPMF, sob qual­quer no­me.

DIDA SAM­PAIO/ESTADÃO - 10/4/2019

Cin­tra. Ob­ses­são com no­va CPMF

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