‘Ob­ses­são por ín­di­os de­tur­pa o Sí­no­do da Amazô­nia’

Voz crí­ti­ca ao en­con­tro, clé­ri­go diz que Bol­so­na­ro de­ve ser en­fren­ta­do pe­la Igre­ja se aten­tar con­tra o di­rei­to dos in­dí­ge­nas

O Estado de S. Paulo - - Política - Fe­li­pe Fra­zão / BRA­SÍ­LIA

O bis­po emé­ri­to do Ma­ra­jó (PA), d. Jo­sé Luís Az­co­na Her­mo­so, é uma das ra­ras vo­zes crí­ti­cas ao Sí­no­do da Amazô­nia na Igre­ja Ca­tó­li­ca. Aos 79 anos, com a au­to­ri­da­de de quem vi­ve há mais de três dé­ca­das na ilha pa­ra­en­se – on­de já foi ata­ca­do por um bú­fa­lo e ame­a­ça­do de morte por de­nun­ci­ar a ex­plo­ra­ção se­xu­al de cri­an­ças – o clé­ri­go es­pa­nhol diz que a as­sem­bleia ig­no­ra a re­a­li­da­de ao dar pro­ta­go­nis­mo aos in­dí­ge­nas, o que po­de tor­nar “su­pér­fluo” o es­for­ço da Igre­ja. Apo­sen­ta­do, d. Az­co­na su­ge­re que o Va­ti­ca­no dis­cu­ta a si­tu­a­ção da vi­da ur­ba­na, dos ne­gros e o avan­ço de evan­gé­li­cos na re­gião.

Nos do­cu­men­tos do Sí­no­do, a Igre­ja se co­lo­ca con­tra ti­pos de ex­plo­ra­ção econô­mi­ca na Amazô­nia

e de­fen­de re­ser­vas in­dí­ge­nas e eco­ló­gi­cas, po­si­ções opos­tas às do pre­si­den­te Jair Bol­so­na­ro. A Igre­ja não age po­li­ti­ca­men­te? A Igre­ja se po­si­ci­o­na con­tra to­do ti­po de do­mi­na­ção. A Igre­ja no Bra­sil sem­pre se apre­sen­tou co­mo de­fen­so­ra da jus­ti­ça e ad­vo­ga­da dos po­bres, no ca­so, dos in­dí­ge­nas. E to­do ca­tó­li­co, to­do bra­si­lei­ro co­e­ren­te com as exi­gên­ci­as da sua hu­ma­ni­da­de e ci­da­da­nia, se po­si­ci­o­na­rá com ener­gia e re­so­lu­ção con­tra to­do ti­po de do­mi­na­ção econô­mi­ca e eco­ló­gi­ca. Não sei o que o pre­si­den­te Jair Bol­so­na­ro pen­sa, mas se ele aten­ta con­tra o bem da Amazô­nia, da cri­a­ção, dos di­rei­tos com­pro­va­dos dos in­dí­ge­nas, ele de­ve ser en­fren­ta­do com mei­os jus­tos, le­gí­ti­mos e efi­ci­en­tes. Is­so é o que a Igre­ja com to­do o po­vo bra­si­lei­ro de­ve­rá en­fren­tar se for com­pro­va­da a exis­tên­cia de pro­je­tos gra­ve­men­te opostos ao meio am­bi­en­te, aos in­dí­ge­nas ou ao bem co­mum da na­ção.

O Sí­no­do po­de ex­por o go­ver­no Bol­so­na­ro no ex­te­ri­or?

O Sí­no­do não ne­ces­si­ta ex­por di­an­te do mun­do o que já es­tá ex­pos­to. Po­de­rá ex­ter­nar seu pon­to de vis­ta com re­la­ção à Amazô­nia e ao Bra­sil.

O go­ver­no afir­ma que o Sí­no­do ame­a­ça a so­be­ra­nia na­ci­o­nal.

Pe­lo con­trá­rio. O Sí­no­do é ca­paz de fa­zer acon­te­cer a re­con­ci­li­a­ção na­ci­o­nal. Nun­ca o Bra­sil es­te­ve tão po­la­ri­za­do. Se qui­ser so­bre­vi­ver, o Bra­sil tem ne­ces­si­da­de ur­gen­tís­si­ma de re­con­ci­li­a­ção, que se con­cre­ti­za no amor aos ini­mi­gos.

O sí­no­do ig­no­ra al­gum te­ma re­le­van­te da Amazô­nia?

Ig­no­ra com­ple­ta­men­te a re­a­li­da­de da Amazô­nia, fa­zen­do su­pér­fluo o Sí­no­do da mes­ma. Os pro­ta­go­nis­tas são as et­ni­as in­dí­ge­nas que, no Bra­sil, cons­ti­tu­em uma mi­no­ria mí­ni­ma. Em con­cre­to, o ros­to amazô­ni­co ho­je é ma­jo­ri­ta­ri­a­men­te pen­te­cos­tal. O des­pre­zo prá­ti­co dos afro-amazô­ni­cos é uma in­jus­ti­ça. Os ca­bo­clos que po­vo­am as imen­sas mar­gens do Ama­zo­nas in­fi­ni­to são um gru­po hu­ma­no ex­cluí­do vi­o­len­ta­men­te do ma­pa da mes­ma. Os amazô­ni­das, além do mais, não ha­bi­tam mais no in­te­ri­or, no mato, nas águas. Em sua gran­de mai­o­ria ha­bi­tam em ci­da­des. Sua cul­tu­ra, por­tan­to, é ur­ba­na. Co­mo se po­de

ser tão ce­go?

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