Efei­to de cor­tes não tem con­sen­so

Al­guns eco­no­mis­tas ve­em si­nais de re­cu­pe­ra­ção; ou­tros ava­li­am que queda da Se­lic ain­da não é su­fi­ci­en­te pa­ra es­ti­mu­lar investimen­tos

O Estado de S. Paulo - - Primeira Página - Dou­glas Ga­vras

Pa­ra al­guns eco­no­mis­tas, já há si­nais de re­cu­pe­ra­ção na eco­no­mia; ou­tros ava­li­am que, com a al­ta ta­xa de desemprego, queda da Se­lic não é su­fi­ci­en­te pa­ra es­ti­mu­lar cré­di­to e con­su­mo.

Se existe qua­se um con­sen­so en­tre os eco­no­mis­tas ao apro­va­rem a con­ti­nui­da­de do cor­te dos ju­ros bá­si­cos, os efei­tos prá­ti­cos da queda da Se­lic na re­cu­pe­ra­ção da eco­no­mia não são tão cla­ros. En­quan­to par­te de­les vê si­nais de au­men­to de con­ces­são de cré­di­to, ou­tros ava­li­am que o desemprego ele­va­do e a de­man­da fra­ca ain­da ini­bem investimen­tos e gas­tos das fa­mí­li­as.

O eco­no­mis­ta Sergio Wer­lang, da Es­co­la Bra­si­lei­ra de Eco­no­mia e Fi­nan­ças da Fun­da­ção Ge­tu­lio Var­gas (EPGE/FGV), é um dos que de­fen­dem que os ju­ros bá­si­cos no pa­ta­mar mais bai­xo da sé­rie his­tó­ri­ca já cau­sam efei­tos po­si­ti­vos vi­sí­veis, ape­sar de a re­cu­pe­ra­ção após a recessão se­guir a pas­sos len­tos.

“O cor­te de ju­ros é o canal clás­si­co de política mo­ne­tá­ria. Pa­ra a con­ti­nui­da­de da re­to­ma­da da eco­no­mia, é es­sen­ci­al que a ta­xa de ju­ros de cur­to pra­zo si­ga seu ru­mo es­pe­ra­do, is­to é, que o Ban­co Cen­tral con­ti­nue cor­tan­do pe­lo me­nos mais du­as ve­zes a Se­lic até que ela che­gue a, ao me­nos, 5% ao ano.”

Ever­ton Pi­nhei­ro de Sou­za Gon­çal­ves, su­pe­rin­ten­den­te da As­so­ci­a­ção Bra­si­lei­ra de Ban­cos (ABBC), res­sal­ta que os efei­tos da ta­xa de ju­ros mais bai­xa po­dem ser sen­ti­dos nas con­ces­sões de cré­di­to pa­ra pes­soa fí­si­ca com re­cur­sos li­vres (que inclui des­de empréstimo­s con­ven­ci­o­nais a cré­di­tos con­sig­na­dos), que cres­ce­ram 5,1% em ju­lho, se­gun­do o Ban­co Cen­tral.

“São al­guns si­nais de que co­me­ça a me­lho­rar e que po­de con­ti­nu­ar as­sim, man­ti­das as con­di­ções atu­ais. A li­be­ra­ção de re­cur­sos do Fun­do de Ga­ran­tia do Tem­po de Ser­vi­ço (FGTS) tam­bém po­de dar um si­nal po­si­ti­vo na de­man­da”, com­ple­ta.

Ce­ná­rio ne­bu­lo­so. Pa­ra par­te dos ana­lis­tas, po­rém, os efei­tos dos cor­tes de ju­ros se per­dem em uma eco­no­mia que an­da de la­do, por­que nem con­su­mi­dor nem em­pre­sá­ri­os se sen­tem se­gu­ros. Pa­ra um, pe­sa o en­di­vi­da­men­to e o desemprego em 11,8%; pa­ra o ou­tro, a de­man­da re­pri­mi­da freia investimen­tos.

O eco­no­mis­ta Jo­sé Luís Orei­ro, da Uni­ver­si­da­de de Bra­sí­lia (UnB), ava­lia que não há si­nais de re­cu­pe­ra­ção, mes­mo com ju­ros em queda. “Bas­ta olhar pa­ra as fi­las de de­sem­pre­ga­dos que se for­mam nas gran­des ci­da­des. A in­fla­ção de­ve fe­char, pe­lo ter­cei­ro ano con­se­cu­ti­vo, abai­xo da me­ta (em 4,25%, pa­ra 2019). Si­nal de que a política mo­ne­tá­ria es­tá con­ser­va­do­ra de­mais. Os ju­ros bá­si­cos po­de­ri­am es­tar em 3,5% ao ano e a eco­no­mia te­ria mais espaço pa­ra re­a­gir.”

O ex-diretor do Ban­co Cen­tral e chefe do Cen­tro de Estudos Mo­ne­tá­ri­os do Instituto Bra­si­lei­ro de Eco­no­mia, da FGV, Jo­sé Jú­lio Sen­na, lem­bra que a sa­be­do­ria econô­mi­ca en­si­na que é pos­sí­vel le­var um cavalo até um ri­a­cho, mas não se po­de obri­gá-lo a be­ber água.

“A eco­no­mia bra­si­lei­ra es­tá en­fren­tan­do o mes­mo di­le­ma das eco­no­mi­as de­sen­vol­vi­das, em que as po­lí­ti­cas de cor­te de ju­ros não se re­fle­tem em au­men­to da de­man­da. As pes­so­as acu­mu­lam dí­vi­das e in­cer­te­zas e evi­tam to­mar ris­co”, diz.

Já Sergio Va­le, eco­no­mis­ta­che­fe da MB As­so­ci­a­dos, ava­lia que a queda de ju­ros é po­si­ti­va, em­bo­ra efei­tos ro­bus­tos só de­vam co­me­çar a ser ob­ser­va­dos em 2020. “Além dis­so, é pre­ci­so que se con­ti­nue a pen­sar em po­lí­ti­cas de queda do spre­ad ban­cá­rio (a di­fe­ren­ça en­tre os cus­tos pa­ra o ban­co cap­tar re­cur­sos e o que ele co­bra do con­su­mi­dor).”

FE­LI­PE RAU/ESTADÃO–17/9/2019

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