‘Daf­ne’, li­ção de vi­da sem qual­quer pi­e­gui­ce

Fil­me mos­tra ga­ro­ta com sín­dro­me de Down que re­ve­la ex­tra­or­di­ná­ria for­ça quan­do pre­ci­sa su­pe­rar a per­da da mãe

O Estado de S. Paulo - - Caderno 2 - Luiz Za­nin Oric­chio

Em tem­po em que in­clu­são é pa­la­vra de or­dem, co­me­ça­ram a sur­gir fil­mes não ape­nas so­bre pes­so­as com sín­dro­me de Down, mas in­ter­pre­ta­dos por elas pró­pri­as. São os ca­sos dos bra­si­lei­ros Do Lu­to à Lu­ta, do­cu­men­tá­rio de Eval­do Mo­car­zel, e da fic­ção Co­le­gas, de Marcelo Gal­vão. É tam­bém o de Daf­ne, do ita­li­a­no Fe­de­ri­co Bi­on­di, fil­me do qual se po­de di­zer que é tão emo­ci­o­nan­te qu­an­to lú­ci­do.

Bi­on­di diz que a ideia lhe sur­giu ao ver na rua um pai e sua fi­lha, ela com sín­dro­me de Down, de mãos da­das. Pen­sou: es­ses são os ver­da­dei­ros he­róis. So­bre­vi­vem, em so­li­da­ri­e­da­de, nu­ma so­ci­e­da­de em que ca­da um pen­sa ape­nas em si mes­mo.

Eis, sem dú­vi­da, um be­lo te­ma. Bus­car nas so­ci­e­da­des tão egoís­tas e mal-es­tru­tu­ra­das de nos­sa épo­ca as su­as fres­tas, su­as ex­ce­ções, su­as, di­ga­mos as­sim, ilhas de bon­da­de e so­li­da­ri­e­da­de. E, num ca­so co­mo es­se, ten­do co­mo per­so­na­gens pes­so­as que até al­guns anos atrás per­ma­ne­ci­am à som­bra, es­con­di­das pe­las fa­mí­li­as e ví­ti­mas de pre­con­cei­to.

Bi­on­di tra­ba­lha ba­si­ca­men­te na re­la­ção pai-fi­lha, fi­el à ima­gem que o ins­pi­rou. O pai (An­to­nio Pi­o­va­nel­li) e sua fi­lha, Daf­ne (Ca­ro­li­na Ras­pan­ti), ten­tam se re­er­guer após a mor­te da mãe (Ste­fa­nia Ca­si­ni). Vi­vem, por­tan­to, uma si­tu­a­ção de lu­to, ain­da mais pun­gen­te pe­lo fa­to de ter si­do a mãe a per­so­na­gem mais for­te da ca­sa. Na si­tu­a­ção de lu­to é a fi­lha quem mais res­pon­de de ma­nei­ra po­si­ti­va. As for­ças da vi­da vêm de­la e não do pai, que se aba­te e cai em de­pres­são após a mor­te da mu­lher. Daf­ne que tra­ba­lha em um su­per­mer­ca­do (no fil­me e na vi­da re­al), ocu­pa, na no­va es­tru­tu­ra da ca­sa, a fun­ção que era da mãe E faz a vi­da se­guir adi­an­te.

De­ve-se di­zer que es­te fil­me sim­ples se be­ne­fi­cia da es­co­lha da atriz. Ca­ro­li­na Ras­pan­ti é, de fa­to, uma “for­ça da na­tu­re­za”, co­mo o di­re­tor a de­fi­ne. Ca­ris­má­ti­ca, en­gra­ça­da, ca­paz de sus­ten­tar si­tu­a­ções de am­bi­gui­da­de, ela é a pró­pria al­ma do fil­me. Sem ela, Daf­ne não exis­ti­ria.

E nem exis­ti­ria a pro­pos­ta de Bi­on­di, de fa­zer uma obra cons­tru­ti­va, sem cair na pi­e­gui­ce. Ou no pa­ter­na­lis­mo, no mau sen­ti­do do ter­mo. Daf­ne é re­tra­ta­da co­mo uma pes­soa com to­dos os de­fei­tos e as qua­li­da­des que po­de ter, su­as am­bi­gui­da­des, for­ças e fra­que­zas e, mes­mo as­sim, é o tal fenô­me­no, por­que con­se­gue dar a vol­ta por ci­ma e su­pe­rar con­di­ções mui­to des­fa­vo­rá­veis. Tu­do é crí­vel e nos emo­ci­o­na­mos com ela. Não por ser uma ga­ro­ta com sín­dro­me de Down, por­que lo­go nos es­que­ce­mos dis­so e nos dei­xa­mos le­var pe­la per­so­na­gem fas­ci­nan­te que re­pre­sen­ta.

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Re­la­ção de­li­ca­da. Fi­lha e pai jun­tos nu­ma jor­na­da após o lu­to

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