Vítimas do voo da Cha­pe lu­tam por jus­ti­ça

Qua­se três anos após o aci­den­te, fa­mi­li­a­res e so­bre­vi­ven­tes ain­da bus­cam in­de­ni­za­ção

O Estado de S. Paulo - - Primeira página - Da­ni­el Ba­tis­ta Gon­ça­lo Ju­ni­or

Qua­se três anos após o aci­den­te que dei­xou 71 mor­tos e 6 fe­ri­dos, quan­do o voo 2933 da LaMia, com jor­na­lis­tas e a de­le­ga­ção da Cha­pe­co­en­se, caiu na Colôm­bia, no fi­nal de no­vem­bro de 2016, as fa­mí­li­as das vítimas afir­mam que ain­da bus­cam in­de­ni­za­ções. Por is­so, viú­vas, fa­mi­li­a­res e ad­vo­ga­dos pro­tes­ta­ram on­tem em Cha­pe­có. Ou­tro gru­po, li­de­ra­do pe­lo za­guei­ro Ne­to, um dos so­bre­vi­ven­tes, vi­a­jou a Lon­dres pa­ra re­cla­mar na se­de das em­pre­sas que con­si­de­ram co­mo res­pon­sá­veis pe­las in­de­ni­za­ções.

O pro­tes­to de ho­je se­rá na se­de cor­re­to­ra de se­gu­ro Aon e tam­bém da se­gu­ra­do­ra To­kio Ma­ri­ne Kiln. Ou­tra em­pre­sa ci­ta­da é a Bisa, com se­de na Bo­lí­via. O gru­po ale­ga que as três são res­pon­sá­veis pe­las apó­li­ces. Os or­ga­ni­za­do­res do pro­tes­to afir­mam que o va­lor de­vi­do por Aon, To­kio Ma­ri­ne Kiln e Bisa va­ria en­tre US$ 4 mi­lhões e US$ 5 mi­lhões pa­ra ca­da fa­mí­lia (en­tre R$ 16,6 mi­lhões e R$ 20,9 mi­lhões). “A im­pu­ni­da­de dói mais do que a tra­gé­dia”, de­sa­ba­fa Ne­to. O se­gu­ro do ae­ro­na­ve era de US$ 25 mi­lhões (R$ 104 mi­lhões), mas os ad­vo­ga­dos das fa­mí­li­as con­tes­tam o va­lor. Di­zem que, até 2015, a apó­li­ce era de US$ 300 mi­lhões (R$ 1,24 bi­lhão).

Al­gu­mas fa­mí­li­as in­gres­sa­ram com uma ação ju­di­ci­al con­tra o go­ver­no da Colôm­bia co­bran­do a Ae­ro­ci­vil Colôm­bia, em­pre­sa res­pon­sá­vel pe­lo con­tro­le aé­reo no país. Em Bra­sí­lia, no Se­na­do Fe­de­ral, o pre­si­den­te da Co­mis­são

de Re­la­ções Ex­te­ri­o­res (CRE), Nel­si­nho Trad (PSD-MS), co­lhe as­si­na­tu­ras pa­ra a aber­tu­ra de uma CPI. O pra­zo pre­vis­to é de 180 di­as. “São ci­da­dãos bra­si­lei­ros que não têm respostas há três anos”, pro­tes­ta o ad­vo­ga­do Mar­cel

Camilo, que re­pre­sen­ta Ne­to e al­gu­mas viú­vas.

Qu­es­ti­o­na­da pe­lo Es­ta­do, a Aon afir­ma ser a cor­re­to­ra e não a se­gu­ra­do­ra e que, por­tan­to, não é res­pon­sá­vel pe­lo pagamento de in­de­ni­za­ções: “Co­mo uma cor­re­to­ra, o pa­pel da Aon é apoi­ar os cli­en­tes na con­tra­ta­ção de se­gu­ro jun­to às se­gu­ra­do­ras, que, pos­te­ri­or­men­te, de­ter­mi­nam pa­gar ou não as in­de­ni­za­ções. A Aon não é uma se­gu­ra­do­ra e não é res­pon­sá­vel pe­lo pagamento de in­de­ni­za­ções”.

O es­cri­tó­rio da Bisa no Bra­sil foi fe­cha­do. O Es­ta­do en­vi­ou men­sa­gens pa­ra o en­de­re­ço de e-mail da ma­triz em La Paz, mas não ob­te­ve respostas. A To­kio Ma­ri­ne Kiln in­for­ma que a rei­vin­di­ca­ção re­fe­ren­te à apó­li­ce de se­gu­ro não é vá­li­da, pois “a com­pa­nhia aé­rea fa­lhou no cum­pri­men­to de im­por­tan­tes con­di­ções des­cri­tas na apó­li­ce de se­gu­ro; a ae­ro­na­ve es­ta­va em uma ro­ta ex­cluí­da da co­ber­tu­ra do se­gu­ro; a LaMia es­ta­va com um subs­tan­ci­al atra­so no pagamento dos prêmios do se­gu­ro à épo­ca do aci­den­te. Co­mo con­sequên­cia, a apó­li­ce de res­se­gu­ro não po­de ser aci­o­na­da pa­ra a in­de­ni­za­ção do aci­den­te. Fa­to es­se que não foi con­tes­ta­do pe­la LaMia”.

To­kio Ma­ri­ne Kiln e Bisa cri­a­ram um fun­do hu­ma­ni­tá­rio pa­ra as fa­mí­li­as das vítimas. A ofer­ta é de US$ 225 mil (R$ 940 mil) pa­ra ca­da fa­mí­lia. Em tro­ca elas te­ri­am de de­sis­tir das ações na Jus­ti­ça. Até ago­ra, 23 das 77 fa­mí­li­as as­si­na­ram o acor­do e já receberam o di­nhei­ro pro­me­ti­do.

Na ou­tra pon­ta da his­tó­ria, a Cha­pe­co­en­se es­tá em cri­se fi­nan­cei­ra. De acor­do com Pau­lo Ma­gro, pre­si­den­te em exer­cí­cio no clu­be, hou­ve uma sequên­cia de com­pli­ca­ções: mu­dan­ças na co­ta de TV, con­tra­ta­ções er­ra­das, cons­tan­tes al­te­ra­ções de téc­ni­cos, que­da no nú­me­ro de só­cio-tor­ce­dor e as in­de­ni­za­ções pa­ra as fa­mí­li­as dos mor­tos no aci­den­te fi­ze­ram com que o ti­me en­tras­se em “pa­ra­fu­so fi­nan­cei­ro”. Já é sa­bi­do que o clu­be fe­cha­rá o ano em dé­fi­cit.

Par­te da dívida se re­fe­re aos acor­dos tra­ba­lhis­tas fei­tos com os fa­mi­li­a­res das vítimas do aci­den­te de 2016. Ma­gro diz que o va­lor re­pre­sen­ta cer­ca de 10% das dívidas e 80% dos acor­dos já fo­ram fe­cha­dos. “Te­mos du­as fo­lhas de pagamento: dos jo­ga­do­res e funcionári­os e a dos fa­mi­li­a­res e vítimas do aci­den­te.”

Pro­tes­to. Fa­mi­li­a­res das vítimas fo­ram à Are­na Con­dá

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