As sur­pre­sas da re­for­ma

O Estado de S. Paulo - - Primeira página - •✽ Pau­lo Taf­ner

• O Se­na­do mos­trou que não se po­de ne­gli­gen­ci­ar o pro­ces­so de vo­ta­ção. É ho­ra de en­cer­rar­mos a dis­cus­são.

De­pois de apro­va­da na Câ­ma­ra a re­for­ma se­guiu pa­ra o Se­na­do. O re­la­tó­rio fi­nal do se­na­dor Tas­so Je­reis­sa­ti foi apro­va­do na co­mis­são e se­guiu pa­ra o ple­ná­rio. Lá, foi re­ti­ra­da a mu­dan­ça no abo­no sa­la­ri­al, com con­se­quen­te per­da de R$ 76 bi­lhões no im­pac­to fiscal es­pe­ra­do.

Mes­mo com is­so, te­mos mui­to a co­me­mo­rar, res­tan­do ago­ra a vo­ta­ção em se­gun­do tur­no. Dei­xar de me­xer no abo­no é uma per­da, so­bre­tu­do por­que ele é um be­ne­fí­cio ruim e ca­ro. Mas por ser re­gu­la­do por le­gis­la­ção in­fra­cons­ti­tu­ci­o­nal, po­de ser re­vi­si­ta­do, ajus­ta­do e apri­mo­ra­do. Even­tu­al­men­te até ex­tin­to, com par­te dos re­cur­sos eco­no­mi­za­dos apli­ca­dos em pro­gra­ma­das so­ci­ais mais ca­li­bra­dos e fo­ca­li­za­dos no com­ba­te à po­bre­za. Ca­be ao Exe­cu­ti­vo apre­sen­tar uma pro­pos­ta ao Le­gis­la­ti­vo nes­se sen­ti­do. E, sen­do le­gis­la­ção in­fra­cons­ti­tu­ci­o­nal, exi­ge quó­rum me­nos res­tri­ti­vo. As­sim é que, se man­ti­do for o que foi apro­va­do em 1.º tur­no, o re­sul­ta­do ge­ral se­rá a pre­va­lên­cia do bom sen­so. Não é, por­tan­to, o fim do mun­do.

O Bra­sil tem da­do re­pe­ti­dos exem­plos de que a bus­ca pe­lo bom sen­so não é li­ne­ar. Te­mos idas e vin­das, mas ca­mi­nha­mos na di­re­ção cer­ta. Pre­ci­sa­mos ace­le­rar o pas­so, é ver­da­de. Afi­nal, ain­da nos anos 80 Fran­cis­co Bar­re­to e Kaizô Bel­trão já aler­ta­vam que nos­so sis­te­ma de Pre­vi­dên­cia en­tra­ria em co­lap­so. Em 1993, a EC n.º 3/93 es­ta­be­le­ceu a obrigatori­edade de con­tri­bui­ção dos servidores ci­vis pa­ra cus­teio de be­ne­fí­ci­os. Em 1998, foi apro­va­da a EC n.º 20/98, que era ex­ten­sa, tra­ta­va de vá­ri­as ques­tões da Pre­vi­dên­cia e pro­pu­nha ida­de mí­ni­ma. La­men­ta­vel­men­te, es­ta não foi apro­va­da, por ape­nas um vo­to. Em 2003, foi apro­va­da a EC n.º 41/03 com no­vos apri­mo­ra­men­tos.

Mas ain­da fal­ta­va mui­to. Afi­nal, co­mo acei­tar que al­guns tra­ba­lha­do­res pu­des­sem se apo­sen­tar com ida­des in­fe­ri­o­res a 50 anos? Co­mo acei­tar que al­guns pou­cos be­ne­fi­ciá­ri­os pu­des­sem acu­mu­lar 3, 4 ou mes­mo 6 be­ne­fí­ci­os, sem ne­nhu­ma li­mi­ta­ção? Co­mo acei­tar que al­guns servidores pú­bli­cos re­ce­bes­sem trans­fe­rên­cia lí­qui­da de va­lo­res su­pe­ri­o­res a R$ 5 ou R$ 6 mi­lhões?

Em 2016, o go­ver­no Te­mer apre­sen­tou a Pro­pos­ta de EC n.º 41. Era am­bi­ci­o­sa. Ti­nha mui­tas vir­tu­des e al­guns pou­cos, mas gra­ves de­fei­tos. O des­fe­cho to­dos nós sa­be­mos.

O go­ver­no Bol­so­na­ro, em maio, apre­sen­tou sua pro­pos­ta, co­nhe­ci­da co­mo PEC 006/19. Tra­zia coi­sas já apre­sen­ta­das por Te­mer e ou­tras no­vi­da­des e mo­der­ni­za­ções.

Na Câ­ma­ra, coi­sas pre­ci­o­sas fi­ca­ram de fo­ra: Es­ta­dos e mu­ni­cí­pi­os; des­cons­ti­tu­ci­o­na­li­za­ção de re­gras ope­ra­ci­o­nais, a pos­si­bi­li­da­de de um sis­te­ma ca­pi­ta­li­za­do, o ga­ti­lho de­mo­grá­fi­co e ou­tros.

Tra­ta­mos do pas­sa­do, mas o fu­tu­ro foi relegado. Mas hou­ve im­por­tan­tes vi­tó­ri­as, co­mo o fim da apo­sen­ta­do­ria por tem­po de con­tri­bui­ção e o es­ta­be­le­ci­men­to de ida­des mí­ni­mas pa­ra to­dos. Alí­quo­tas pro­gres­si­vas que, por vi­as tor­tas, cor­ri­gem, pe­lo me­nos par­ci­al­men­te a enor­me trans­fe­rên­cia lí­qui­da de ren­da pa­ra gru­pos abas­ta­dos de ren­da, é tam­bém uma vitória ex­cep­ci­o­nal.

Fei­tos os ajus­tes no Se­na­do, o im­pac­to fiscal fi­cou pró­xi­mo de R$ 800 bi­lhões. Se não re­sol­ve o pro­ble­ma, dá fô­le­go pa­ra as con­tas pú­bli­cas.

O Se­na­do mos­trou que não se po­de ne­gli­gen­ci­ar o pro­ces­so de vo­ta­ção. Ago­ra é ho­ra de ir­mos pa­ra a rodada fi­nal e en­cer­rar­mos – pe­lo me­nos por uns 4 ou 5 anos – es­sa dis­cus­são.

Há mui­to que fa­zer. A pri­o­ri­da­de, re­cu­pe­rar a eco­no­mia.

✽ ECO­NO­MIS­TA

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