Trump exi­be for­ça em ve­lho re­du­to de­mo­cra­ta

O Estado de S. Paulo - - Primeira Página - Be­a­triz Bul­la

O “Cin­tu­rão da Fer­ru­gem”, re­gião de economia de­ca­den­te no Mei­oOes­te ame­ri­ca­no, é um termô­me­tro da po­lí­ti­ca dos EUA. An­ti­go re­du­to de­mo­cra­ta, foi de­ci­si­vo na elei­ção de Do­nald Trump em 2016, e ain­da man­tém apoio ao pre­si­den­te, ape­sar do ris­co de im­pe­a­ch­ment, re­la­ta Be­a­triz Bul­la. “Sou elei­tor de Trump, qual o pro­ble­ma? A economia vai bem. Ele co­me­te er­ros, mas quem não er­ra?”, diz o apo­sen­ta­do Bill Smith, em Northamp­ton, na Pen­sil­vâ­nia.

“A economia es­tá me­lhor. Não sig­ni­fi­ca que as in­dús­tri­as de fer­ro, aço e car­vão re­a­pa­re­ce­ram nes­sas re­giões. Mas ve­mos que a clas­se ope­rá­ria ain­da es­tá com Trump” TERRY MA­DON­NA - ANA­LIS­TA DO FRANKLIN & MARSHALL COL­LE­GE

Sen­ta­do em uma ca­dei­ra na va­ran­da de sua ca­sa, em Northamp­ton, no Es­ta­do da Pen­sil­vâ­nia, o apo­sen­ta­do Bill Smith responde de ma­nei­ra di­re­ta so­bre o que pen­sa do pro­ces­so de im­pe­a­ch­ment do pre­si­den­te dos EUA, aber­to pe­los de­mo­cra­tas na Câ­ma­ra dos De­pu­ta­dos. “Sou elei­tor de Do­nald Trump, qual o pro­ble­ma? A economia es­tá in­do bem. Ele co­me­te er­ros, mas quem não co­me­te?”

Ao la­do de Smith, Val Wag­ner aju­da na de­fe­sa do pre­si­den­te. “Ele não li­ga pa­ra di­nhei­ro, ele já tem di­nhei­ro. Ele é re­al­men­te ho­nes­to. O im­pe­a­ch­ment é uma bes­tei­ra, uma pi­a­da. Pa­re­ce que os de­mo­cra­tas es­tão no en­si­no mé­dio”, dis­se Val, que sem­pre vo­tou em de­mo­cra­tas até co­nhe­cer Trump.

Em 2016, dos pou­co mais de 3 mil con­da­dos ame­ri­ca­nos, só 209 mu­da­ram de de­mo­cra­tas pa­ra re­pu­bli­ca­nos. Northamp­ton é um de­les. Es­sa tro­ca foi cru­ci­al pa­ra que Trump che­gas­se à Ca­sa Bran­ca. Lo­cais iden­ti­fi­ca­dos com a clas­se ope­rá­ria têm mé­dia de ren­da fa­mi­li­ar e ta­xas de edu­ca­ção uni­ver­si­tá­ria mais bai­xas do que a mé­dia do país e, após dé­ca­das de pros­pe­ri­da­de in­dus­tri­al, es­se ti­po de em­pre­go en­trou em ex­tin­ção – tan­to que par­te do Meio-Oes­te ame­ri­ca­no, in­cluin­do os Es­ta­dos de Mi­chi­gan, Pen­sil­vâ­nia, Ohio, In­di­a­na, Wis­con­sin e par­tes de Il­li­nois e Iowa ga­nhou o ter­mo pe­jo­ra­ti­vo de “Cin­tu­rão da Fer­ru­gem”.

O bo­om econô­mi­co foi du­ran­te o de­sen­vol­vi­men­to das in­dús­tri­as de aço e car­vão. Northamp­ton che­gou a abri­gar uma si­de­rúr­gi­ca, a Beth­lehem Ste­el Cor­po­ra­ti­on, que fa­liu em 2003. Ho­je, os es­com­bros da usina são es­pa­ço de even­tos e cas­si­no.

O Cin­tu­rão da Fer­ru­gem é um termô­me­tro do apoio de Trump e um tes­te de sua re­sis­tên­cia. O Es­ta­do vi­si­tou dois dos três con­da­dos da Pen­sil­vâ­nia que vo­ta­ram no re­pu­bli­ca­no após du­as vi­tó­ri­as

se­gui­das de Ba­rack Oba­ma, em 2008 e 2012. Ne­nhum en­tre­vis­ta­do que te­nha se apre­sen­ta­do co­mo elei­tor do pre­si­den­te acre­di­ta que o im­pe­a­ch­ment se­rá le­va­do adi­an­te.

O con­da­do de Lu­zer­ne não vo­ta­va ma­jo­ri­ta­ri­a­men­te em um can­di­da­to pre­si­den­ci­al re­pu­bli­ca­no des­de 1988. Ago­ra, a po­pu­la­ção pa­re­ce repetir os mes­mos le­mas de­fen­di­dos por Trump. Os elei­to­res cri­ti­cam a imprensa, ata­cam a imi­gra­ção ile­gal, di­zem que a Chi­na rou­ba os ame­ri­ca­nos, que a economia me­lho­rou e o im­pe­a­ch­ment é uma “per­se­gui­ção” de­mo­cra­ta.

“Des­de o dia em que ele foi elei­to, os de­mo­cra­tas ten­tam des­ti­tui-lo. Na­da foi pro­va­do”, afir­ma Chuck Dek­mar, do­no de uma lan­cho­ne­te em Lu­zer­ne. Re­gis­tra­do co­mo re­pu­bli­ca­no, ele diz vo­tar

“com a cons­ci­ên­cia”, mas nem sem­pre no mes­mo par­ti­do.

Um le­van­ta­men­to do Wall Stre­et Jour­nal e da ONG Eco­no­mic In­no­va­ti­on Group mos­tra que o cres­ci­men­to econô­mi­co e

os no­vos em­pre­gos nes­tas re­giões fi­ca­ram atrás da mé­dia na­ci­o­nal nos anos em que Trump es­te­ve na pre­si­dên­cia, mas a apro­va­ção do re­pu­bli­ca­no se­gue pró­xi­ma de 50%. Os da­dos

fo­ram co­le­ta­dos em 77 con­da­dos iden­ti­fi­ca­dos com a clas­se ope­rá­ria.

O em­pre­go in­dus­tri­al caiu na Pen­sil­vâ­nia – cer­ca de 8 mil pos­tos fo­ram per­di­dos, de agos­to de 2018 a agos­to de 2019, de acor­do com o De­par­ta­men­to do Tra­ba­lho. Em meio às gu­er­ras co­mer­ci­ais de Trump e à de­sa­ce­le­ra­ção da de­man­da, as in­dús­tri­as se­gu­ram in­ves­ti­men­tos.

Mas, pa­ra os elei­to­res de Trump, a economia vai bem e só não es­tá me­lhor pe­la fal­ta de apoio dos de­mo­cra­tas. “O im­pe­a­ch­ment não vai che­gar a lu­gar al­gum. Ele di­vul­gou a trans­cri­ção da con­ver­sa, não há na­da er­ra­do, é tu­do bo­ba­gem”, dis­se Mark Yef­ko, con­sul­tor de ven­das de Wil­kes-Bar­re.

Ge­ren­te de uma cer­ve­ja­ria do ou­tro la­do da rua, Li­sa Bloc­kus re­pe­te o man­tra. “Ele não fez na­da de er­ra­do. Eles não gos­tam de­le por­que ele não é po­lí­ti­co e diz o que as pes­so­as co­muns que­rem ouvir”, afir­ma Li­sa, ex-elei­to­ra de Oba­ma.

De­ca­dên­cia. Pré­dio da si­de­rúr­gi­ca Beth­lehem Ste­el Cor­po­ra­ti­on, que fe­chou em 2003, em Northamp­ton, na Pen­sil­vâ­nia

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