Do­a­ções de em­pre­sá­ri­os am­pli­am cai­xa de par­ti­dos

Va­lor re­pas­sa­do às le­gen­das no ano passado au­men­tou 19% em re­la­ção a 2017 e che­gou a R$ 106 milhões; gran­des em­pre­sá­ri­os es­tão en­tre os ‘me­ce­nas’

O Estado de S. Paulo - - Política - Felipe Fra­zão Re­na­to Ono­fre / BRA­SÍ­LIA

Mes­mo em tem­pos de re­jei­ção e des­cré­di­to, par­ti­dos po­lí­ti­cos am­pli­a­ram a receita com do­a­ções des­ti­na­das a pa­tro­ci­nar su­as ati­vi­da­des. So­men­te no ano passado, gran­des em­pre­sá­ri­os e ou­tros do­a­do­res de­ram R$ 106 milhões pa­ra as 35 si­glas re­gis­tra­das no País, uma quan­tia 19% su­pe­ri­or aos R$ 89 milhões re­ce­bi­dos em 2017. O di­nhei­ro não foi des­ti­na­do di­re­ta­men­te a cam­pa­nhas elei­to­rais, mas, sim, ao cai­xa das le­gen­das – que re­ce­be­ram, ain­da, R$ 889 milhões do Fun­do Par­ti­dá­rio. Na lis­ta dos “me­ce­nas” es­tão fa­mí­li­as que con­tro­lam gran­des gru­pos em­pre­sa­ri­ais.

Des­de 2016, os par­ti­dos es­tão proi­bi­dos pe­lo Su­pre­mo Tri­bu­nal Fe­de­ral de re­ce­ber recursos de em­pre­sas pa­ra fi­nan­ci­ar cam­pa­nhas e seu fun­ci­o­na­men­to. Em­pre­sá­ri­os, po­rém, continuam do­an­do, mas co­mo pes­soa fí­si­ca, con­for­me da­dos le­van­ta­dos pe­lo Es­ta­do no Tri­bu­nal Su­pe­ri­or Elei­to­ral (TSE).

A prá­ti­ca é per­mi­ti­da por lei e não re­sul­ta em de­du­ções pa­ra o do­a­dor. Em princípio, não há li­mi­tes pa­ra con­tri­bui­ções de pes­soa fí­si­ca, mas os par­ti­dos só po­dem trans­fe­rir pa­ra cam­pa­nhas o equi­va­len­te a 10% dos ren­di­men­tos bru­tos de ca­da do­a­dor.

Es­te ce­ná­rio, po­rém, já cau­sa incô­mo­do em si­glas mais de­pen­den­tes dos recursos públicos, que ame­a­çam com a vo­ta­ção de um pro­je­to que li­mi­ta­ria as do­a­ções pri­va­das a até dez sa­lá­ri­os mí­ni­mos por pes­soa (mais in­for­ma­ções na pág. A8).

A mai­or do­a­ção, no ano passado, foi fei­ta pe­lo secretário de Fa­zen­da de São Pau­lo, Hen­ri­que Mei­rel­les. Com uma for­tu­na de­cla­ra­da de R$ 377 milhões, Mei­rel­les do­ou R$ 900 mil pa­ra o MDB, seu par­ti­do, e R$ 600 mil pa­ra o PSD, ao qual era fi­li­a­do an­tes. Mei­rel­les dis­pu­tou a elei­ção pre­si­den­ci­al, ban­cou a pró­pria cam­pa­nha com R$ 57 milhões e ter­mi­nou na sé­ti­ma co­lo­ca­ção (1,2 mi­lhão de vo­tos).

Da con­ta “pes­soa fí­si­ca” do em­pre­sá­rio Ru­bens Omet­to, con­tro­la­dor da Co­san – uma das maiores em­pre­sas do Bra­sil, com negócios nas áre­as de energia, lo­gís­ti­ca e in­fra­es­tru­tu­ra –, saiu R$ 1 mi­lhão pa­ra par­ti­dos que vão da di­rei­ta à cen­tro­es­quer­da. O DEM re­ce­beu R$ 500 mil. Ao PSB e PDT ele re­pas­sou, res­pec­ti­va­men­te, R$ 450 mil e R$ 50 mil. “As do­a­ções fo­ram re­a­li­za­das em ca­rá­ter pes­so­al e se­gui­ram as re­gras es­ta­be­le­ci­das”, dis­se Omet­to.

Flá­vio Ro­cha, da Ri­a­chu­e­lo, tam­bém do­ou R$ 1 mi­lhão no ano passado. A ver­ba foi di­vi­di­da: R$ 570 mil ao Po­de­mos e R$ 430 mil ao Re­pu­bli­ca­nos. Um dos lí­de­res do gru­po de em­pre­sá­ri­os Bra­sil 200, Ro­cha afir­mou que a re­com­pen­sa dos par­ti­dos aos do­a­do­res é pro­mo­ver uma “re­no­va­ção po­lí­ti­ca”. No ano passado, ele che­gou a lançar a pré-can­di­da­tu­ra pe­lo PRB, atu­al Re­pu­bli­ca­nos, mas de­sis­tiu de con­cor­rer ao Pla­nal­to. “De­ve­mos par­ti­ci­par do pro­ces­so elei­to­ral, fortalecer os par­ti­dos e a de­mo­cra­cia”, dis­se.

Fo­ra do po­der cen­tral e com uma re­du­ção sig­ni­fi­ca­ti­va das su­as ban­ca­das no Con­gres­so, o PT foi o par­ti­do que mais re­ce­beu do­a­ções no ano passado. Fo­ram R$ 21,5 milhões. Em re­la­ção a 2017, a le­gen­da re­gis­trou queda de 5% na receita, ob­ti­da prin­ci­pal­men­te na am­pla ba­se de fi­li­a­dos, par­la­men­ta­res e ocu­pan­tes de car­gos na es­fe­ra pú­bli­ca, que, por re­gra in­ter­na, de­vem con­tri­buir men­sal­men­te com as fi­nan­ças da si­gla. O mai­or do­a­dor in­di­vi­du­al do PT foi o em­pre­sá­rio José Ri­car­do Re­zek, do gru­po de agronegóci­o, mer­ca­do imo­bi­liá­rio e tecnologia que le­va o so­bre­no­me da fa­mí­lia. Ele do­ou R$ 200 mil.

Re­des. Cri­a­do há qua­tro anos, o No­vo já é o se­gun­do par­ti­do que mais re­ce­be con­tri­bui­ções. Sob a ban­dei­ra do fim do fi­nan­ci­a­men­to pú­bli­co às le­gen­das e aos can­di­da­tos, o No­vo fez cam­pa­nha nas re­des so­ci­ais pa­ra an­ga­ri­ar recursos e con­se­guiu o mai­or sal­to re­gis­tra­do em números no­mi­nais: de R$ 8,8 milhões em 2017 pa­ra R$ 17 milhões em 2018. Con­si­de­ran­do os 150 maiores fi­nan­ci­a­do­res de par­ti­dos, que fi­ze­ram do­a­ções aci­ma de R$ 40 mil, um em ca­da cin­co deu di­nhei­ro à si­gla co­man­da­da por João Amoê­do, exe­xe­cu­ti­vo de bancos.

Ra­fa­el Spor­tel­li, da Aeth­ra, in­dús­tria pro­du­to­ra e ex­por­ta­do­ra de au­to­pe­ças em Con­ta­gem (MG), re­pas­sou R$ 950 mil ao par­ti­do no ano passado, o mai­or va­lor re­gis­tra­do. O CEO da Localiza, Eugênio Pa­cel­li Mattar, con­tri­buiu pes­so­al­men­te com R$ 930 mil. Ele é ir­mão do secretário especial de Desestatiz­a­ção e Desinvesti­mento do go­ver­no de Jair Bol­so­na­ro, Salim Mattar. Em­bo­ra sim­pa­ti­zan­tes, os dois não são fi­li­a­dos ao No­vo. Eugênio dis­se que as con­tri­bui­ções es­tão des­vin­cu­la­das de su­as ati­vi­da­des em­pre­sa­ri­ais. “Re­pre­sen­ta o apoio ci­da­dão a cau­sas con­si­de­ra­das re­le­van­tes.”

En­tre os dez maiores fi­nan­ci­a­do­res de par­ti­dos, há no­mes do mer­ca­do fi­nan­cei­ro, ru­ra­lis­tas e em­pre­sá­ri­os dos ra­mos de energia, saúde, edu­ca­ção e con­fec­ções, al­guns com ex­pe­ri­ên­cia em car­gos públicos e dis­pu­ta pré­via de man­da­tos ele­ti­vos. A lis­ta dos dez maiores ar­re­ca­da­do­res in­clui si­glas de cen­tro e de es­quer­da: PSDB, MDB, PDT, PSB, PCdoB, DEM, PP e Re­pu­bli­ca­nos.

Her­dei­ros de bancos con­cen­tram 66% do di­nhei­ro do­a­do ao par­ti­do li­de­ra­do pe­la ex-mi­nis­tra Ma­ri­na Sil­va. As prin­ci­pais do­a­do­ras da Re­de são as ir­mãs Elisa e Be­a­triz Sawaya Bo­te­lho Bra­cher, com R$ 840 mil, e Ne­ca Se­tu­bal, com R$ 322 mil – as três de fa­mí­li­as aci­o­nis­tas do Itaú –, além de Da­ni­e­la Ma­ria, Gi­se­la Ma­ria e Ma­ri­a­na Mo­re­au, com R$ 849 mil, li­ga­das à holding Pa­ra­gua­çu Par­ti­ci­pa­ções.

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