O ce­ná­rio in­ter­na­ci­o­nal se­gue pi­o­ran­do

O Estado de S. Paulo - - Economia - JOSÉ RO­BER­TO MEN­DON­ÇA DE BAR­ROS E-MAIL: [email protected]­OS.COM.BR

Trump e os lí­de­res chi­ne­ses vol­ta­rão a se en­con­trar da­qui a al­guns di­as. Em­bo­ra es­sa ne­go­ci­a­ção se­ja sem­pre di­fí­cil, não é fo­ra de pro­pó­si­to que exis­ta al­gum avan­ço nas con­ver­sas, pois os dois paí­ses es­tão en­fren­tan­do cer­tos pro­ble­mas. Trump pre­ci­sa de uma boa no­tí­cia pa­ra com­pen­sar su­as di­fi­cul­da­des po­lí­ti­cas do­més­ti­cas e a Chi­na pre­ci­sa de pro­teí­na, cu­jo pre­ço ex­plo­diu, de­pois dos efei­tos de­vas­ta­do­res da gri­pe suí­na afri­ca­na. Com­ple­xo, mas não im­pos­sí­vel.

Mas o ver­da­dei­ro con­fli­to en­tre as du­as po­tên­ci­as não mu­da na­da. Bas­ta pen­sar que além das ta­ri­fas de im­por­ta­ção e das res­tri­ções im­pos­tas à ex­por­ta­ção de tecnologia ame­ri­ca­na (o ca­so Hu­awei é o mais re­le­van­te), no­ti­ci­ou-se que o go­ver­no ame­ri­ca­no ago­ra es­tu­da “des­lis­tar” as qua­se 200 em­pre­sas chi­ne­sas que têm ações nas Bol­sas americanas. Um gol­pe e tan­to. Em­bo­ra uma fon­te do Te­sou­ro te­nha de­pois ne­ga­do a informa­ção, fi­ca a dú­vi­da.

A in­cer­te­za e a de­sa­ce­le­ra­ção do cres­ci­men­to global continuam fir­mes. A OCDE ago­ra pro­je­ta uma ex­pan­são do PIB global in­fe­ri­or a 3%, me­dío­cre in­di­ca­dor de con­tra­ção em mui­tos lu­ga­res. Aliás, a in­dús­tria global já es­tá em re­ces­são.

A in­cer­te­za no Ori­en­te Mé­dio con­ti­nua ele­va­da, até por­que os três prin­ci­pais pro­ta­go­nis­tas, Trump, Irã e o jo­vem prín­ci­pe que man­da na Ará­bia Sau­di­ta gos­tam mui­to de to­mar ris­cos.

Na Eu­ro­pa, a economia ale­mã con­ti­nua fir­me na di­re­ção de uma re­ces­são, re­sul­ta­do di­re­to da re­du­ção do co­mér­cio e dos in­ves­ti­men­tos glo­bais. Na In­gla­ter­ra, Bo­ris John­son per­de to­das as dis­pu­tas, mas se­gue fir­me na má edu­ca­ção e no es­for­ço de jo­gar o país nu­ma cri­se sem pre­ce­den­tes.

Mas é nos Es­ta­dos Uni­dos que se da­rá o ato prin­ci­pal, de cu­jo de­se­nho já fa­la­mos mais de uma vez.

A estimativa fi­nal do cres­ci­men­to do PIB do se­gun­do tri­mes­tre foi de 2%, um nú­me­ro ro­bus­to, ba­se­a­do na ex­pan­são dos gas­tos do go­ver­no (cu­jo dé­fi­cit ca­mi­nha pa­ra US$ 1 TRI­LHÃO) e do con­su­mo. Além dis­so, a inflação se­gue tran­qui­la e o Fed vem re­du­zin­do os ju­ros. As­sim, di­zem os oti­mis­tas, o ci­clo de cres­ci­men­to po­de­rá se­guir adi­an­te, e o pre­si­den­te Trump po­de­rá ser re­e­lei­to.

En­tre­tan­to, os pes­si­mis­tas (sem­pre eles!) apon­tam um rol cres­cen­te de di­fi­cul­da­des.

A de­sa­ce­le­ra­ção do cres­ci­men­to global e a in­cer­te­za con­ti­nu­a­rão a co­lo­car di­fi­cul­da­des pa­ra as com­pa­nhi­as americanas. Não é por ou­tra ra­zão que os in­ves­ti­men­tos e o co­mér­cio ex­te­ri­or se­guem em con­tra­ção. O se­tor de serviços tam­bém es­tá perto de en­trar nu­ma fa­se de con­tra­ção.

Mes­mo o con­su­mo mos­tra al­gu­mas ra­cha­du­ras, co­mo a pi­o­ra das ex­pec­ta­ti­vas das fa­mí­li­as e a queda no con­su­mo de ga­so­li­na. O re­sul­ta­do do mer­ca­do de tra­ba­lho foi ra­zoá­vel, mas não al­te­ra o qua­dro ge­ral.

Mas é no mer­ca­do fi­nan­cei­ro que se ve­em di­fi­cul­da­des cres­cen­tes: a ala­van­ca­gem dos agen­tes é recorde, le­van­do mui­tos a fu­gir do ris­co. Ati­vos de­fen­si­vos em evi­dên­cia, co­mo a ele­va­ção do pre­ço do ou­ro, a va­lo­ri­za­ção do ie­ne e os US$ 17 tri­lhões apli­ca­dos em ju­ros ne­ga­ti­vos. Fra­cas­sou a aber­tu­ra de ca­pi­tal de em­pre­sas ba­da­la­das, co­mo o Uber e, bem re­cen­te­men­te, a WeWork.

O ris­co re­gu­la­tó­rio dos gigantes de tecnologia cres­ceu mui­to. A cur­va de ju­ros se­gue in­ver­ti­da.

Há al­gu­mas se­ma­nas apa­re­ceu uma agu­da es­cas­sez de li­qui­dez no mer­ca­do ban­cá­rio de cur­to pra­zo (os “re­pos”), que obri­gou o Fed de No­va York a pro­mo­ver gran­des lei­lões de recursos. O fenô­me­no não pa­re­ce ter si­do re­fle­xo ape­nas de re­co­lhi­men­tos gran­des de tri­bu­tos e ou­tros pa­ga­men­tos, po­den­do ser sin­to­ma de al­gum “em­po­ça­men­to” de li­qui­dez, tí­pi­co de mo­men­tos de ele­va­ção de ris­cos per­ce­bi­dos em cer­tas car­tei­ras de ati­vos. Si­nal ama­re­lo aqui.

Pa­ra com­ple­tar a sa­la­da, te­mos a aber­tu­ra de um pro­ces­so de im­pe­a­ch­ment do pre­si­den­te Trump, com re­sul­ta­dos im­pre­vi­sí­veis.

É mui­ta con­fu­são pa­ra tu­do dar cer­to.

A in­cer­te­za e a de­sa­ce­le­ra­ção do cres­ci­men­to global continuam fir­mes

ECO­NO­MIS­TA E SÓ­CIO DA MB ASSOCIADOS. ES­CRE­VE QUIN­ZE­NAL­MEN­TE

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