Em Gu­aya­quil, pre­si­den­te sen­te que tem mais for­ça

O Estado de S. Paulo - - Internacio­nal - Fran­klin Ra­mí­rez ANA­LIS­TA PO­LÍ­TI­CO DA FACULDADE LATINO-AME­RI­CA­NA DE CIÊNCIAS SO­CI­AIS DO EQUA­DOR (FLACSO)

Os in­dí­ge­nas for­mam o mo­vi­men­to so­ci­al mais im­por­tan­te do Equa­dor des­de a dé­ca­da de 90. Nos úl­ti­mos anos, têm ti­do uma re­la­ção con­tur­ba­da com o go­ver­no de Le­nín Mo­re­no. Des­de que se dis­tan­ci­ou do ex-man­da­tá­rio Ra­fa­el Correa, o pre­si­den­te fez al­te­ra­ções so­ci­ais e im­ple­men­tou uma re­for­ma tra­ba­lhis­ta im­po­pu­lar. O gru­po que­brou o si­lên­cio des­ses dois úl­ti­mos anos e de­ci­diu se re­be­lar.

O ajus­te dos pre­ços dos com­bus­tí­veis cla­ra­men­te afe­ta os mo­vi­men­tos po­pu­la­res e os in­te­res­ses in­dí­ge­nas. Va­le res­sal­tar que não fo­ram os in­dí­ge­nas que ini­ci­a­ram a mo­bi­li­za­ção, que já es­ta­va em an­da­men­to com mo­to­ris­tas de ôni­bus, ta­xis­tas e ca­mi­nho­nei­ros, além dos sin­di­ca­tos e mo­vi­men­tos so­ci­ais de es­quer­da, co­mo as fe­mi­nis­tas. Mas, quan­do o mo­vi­men­to in­dí­ge­na ade­riu, com sua ca­pa­ci­da­de de mo­bi­li­za­ção, tor­nou-se um ator fun­da­men­tal.

O ce­ná­rio de re­pres­são aos pro­tes­tos, com ta­ma­nha for­ça mi­li­tar e um de­cre­to de es­ta­do de ex­ce­ção, além de fe­ri­dos e mor­tos, é iné­di­to no Equa­dor. Há um dis­po­si­ti­vo mi­li­tar, po­li­ci­al e ju­di­ci­al mui­to for­te con­tra a mo­bi­li­za­ção po­pu­lar.

Até ago­ra, o go­ver­no não mos­trou sinais de que ce­de­rá às exi­gên­ci­as do mo­vi­men­to in­dí­ge­na, que in­clu­em o fim do es­ta­do de ex­ce­ção e do pa­co­te econô­mi­co, além das re­nún­ci­as dos mi­nis­tros do In­te­ri­or e da De­fe­sa. Nes­se meio, há o cor­reís­mo, que in­sis­te há me­ses em pe­dir a que­da de Mo­re­no e a an­te­ci­pa­ção das elei­ções. Correa, po­rém, ain­da es­tá so­zi­nho com es­sa ban­dei­ra.

A ques­tão prin­ci­pal não é o ris­co de re­nún­cia de Mo­re­no, já que a ida a Gu­aya­quil mos­tra que ele não es­tá dis­pos­to a sair. A per­gun­ta fun­da­men­tal é se ha­ve­rá al­gum si­nal do go­ver­no de vol­tar atrás no pa­co­te econô­mi­co (que ele­vou o pre­ço da ga­so­li­na em até 123%). Is­so mu­da­ria o ce­ná­rio por com­ple­to. E é pos­sí­vel que a clas­se em­pre­sa­ri­al, até en­tão ali­a­da de Mo­re­no, pre­fi­ra mais sua re­nún­cia do que um re­cuo nas me­di­das econô­mi­cas.

É a pri­mei­ra vez na de­mo­cra­cia equa­to­ri­a­na que um pre­si­den­te de­ci­de to­mar uma me­di­da de ex­ce­ção co­mo es­sa, de trans­fe­rir o po­der da capital. Cer­ta­men­te, é um si­nal de te­mor à mo­bi­li­za­ção, que é me­nos for­te em Gu­aya­quil. Mas, ao mes­mo tem­po, é ali que o go­ver­no tem seus ali­a­dos mais for­tes: os gru­pos econô­mi­cos e em­pre­sa­ri­ais. A mu­dan­ça po­de ser con­si­de­ra­da um si­nal de fra­gi­li­da­de, mas foi fei­ta pa­ra a ci­da­de mais im­por­tan­te do país em ter­mos econô­mi­cos.

Em Gu­aya­quil, Mo­re­no tem uma sen­sa­ção mai­or de for­ça. Ele não saiu de Qui­to so­men­te com a equi­pe po­lí­ti­ca, co­mo nor­mal­men­te ocor­re no Equa­dor nes­ses ca­sos, mas com to­do o co­man­do das For­ças Ar­ma­das ao seu la­do. Is­so é uma de­mons­tra­ção de for­ça en­tre tan­tos sinais de fra­que­za.

O Equa­dor já vi­ven­ci­ou um con­tex­to si­mi­lar de ocu­pa­ção da As­sem­bleia Na­ci­o­nal, em 2000, que le­vou à que­da do ex-pre­si­den­te Ja­mil Mahu­ad. Des­ta vez, é evi­den­te que os po­li­ci­ais e os mi­li­ta­res dei­xa­ram os ma­ni­fes­tan­tes en­tra­rem. Pa­re­ce que is­so faz par­te da es­tra­té­gia do go­ver­no de des­pres­ti­gi­ar a mo­bi­li­za­ção e re­qua­li­fi­cá-la co­mo “gol­pis­ta”. O go­ver­no equa­to­ri­a­no ale­ga en­fren­tar uma ten­ta­ti­va de gol­pe de Es­ta­do. Um si­nal de que es­te é o ar­gu­men­to cen­tral de Mo­re­no é a acu­sa­ção de que o pre­si­den­te da Ve­ne­zu­e­la, Ni­co­lás Ma­du­ro, es­tá en­vol­vi­do no es­for­ço pa­ra der­ru­bá-lo.

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