Ser­vi­dor ga­nha o do­bro do se­tor pri­va­do, apon­ta Ban­co Mun­di­al

Nos Es­ta­dos, os sa­lá­ri­os são 36% mais ele­va­dos; nos mu­ni­cí­pi­os não há di­fe­ren­ça

O Estado de S. Paulo - - Primeira página - Adri­a­na Fernandes Idi­a­na To­ma­zel­li / BRA­SÍ­LIA

Es­tu­do do Ban­co Mun­di­al re­ve­la que os ser­vi­do­res fe­de­rais ganham no Brasil o do­bro (96%) do que re­ce­bem tra­ba­lha­do­res da ini­ci­a­ti­va pri­va­da que exer­cem fun­ção se­me­lhan­te. É o mais al­to ín­di­ce em amos­tra de 53 paí­ses. Nos Es­ta­dos, a di­fe­ren­ça é de 36%. O es­tu­do tam­bém apon­ta al­ta dis­per­são sa­la­ri­al e de­si­gual­da­de den­tro das car­rei­ras do fun­ci­o­na­lis­mo.

Os ser­vi­do­res pú­bli­cos fe­de­rais ganham no Brasil em mé­dia qua­se o do­bro (96%) dos tra­ba­lha­do­res que exer­cem fun­ção se­me­lhan­te nas em­pre­sas do se­tor pri­va­do. O cha­ma­do “prê­mio sa­la­ri­al” do se­tor pú­bli­co fe­de­ral é o mais al­to nu­ma amos­tra de 53 paí­ses pes­qui­sa­dos pe­lo Ban­co Mun­di­al (Bird).

Nos Es­ta­dos, os sa­lá­ri­os são 36% mais ele­va­dos. Nos mu­ni­cí­pi­os não há di­fe­ren­ça sa­la­ri­al em re­la­ção à ini­ci­a­ti­va pri­va­da.

Em con­tra­par­ti­da aos sa­lá­ri­os in­fla­dos, o es­tu­do do ban­co “Ges­tão de Pes­so­as e Fo­lha de Pa­ga­men­tos no Se­tor Pú­bli­co Bra­si­lei­ro – O que di­zem os da­dos?”, lan­ça­do on­tem em con­jun­to com o Mi­nis­té­rio da Eco­no­mia, apon­ta que há al­ta dis­per­são sa­la­ri­al e de­si­gual­da­de den­tro das car­rei­ras do fun­ci­o­na­lis­mo pú­bli­co.

Pa­ra o ban­co, a po­lí­ti­ca sa­la­ri­al dos pró­xi­mos anos se­rá de­ci­si­va pa­ra as fi­nan­ças pú­bli­cas no País. Em 2019, 44% dos ser­vi­do­res do Exe­cu­ti­vo re­ce­bem mais de R$ 10 mil por mês; 22% aci­ma de R$ 15 mil; e 11% mais de R$ 20 mil. Há ain­da 1% dos ser­vi­do­res que con­se­gue ga­nhar aci­ma do te­to sa­la­ri­al do fun­ci­o­na­lis­mo de R$ 33.763, que é ba­se­a­do nos sa­lá­ri­os dos mi­nis­tros do Su­pre­mo Tri­bu­nal Fe­de­ral (STF).

O ban­co apon­ta que o gas­to do se­tor pú­bli­co bra­si­lei­ro com fo­lha de sa­lá­ri­os é al­to pa­ra os pa­drões in­ter­na­ci­o­nais, em­bo­ra o nú­me­ro de fun­ci­o­ná­ri­os pú­bli­cos no Brasil não se­ja ex­tra­or­di­na­ri­a­men­te ele­va­do na com­pa­ra­ção in­ter­na­ci­o­nal.

Na úl­ti­ma dé­ca­da, o prin­ci­pal pro­pul­sor da ex­pan­são da fo­lha de pa­ga­men­tos do se­tor pú­bli­co foi o au­men­to sa­la­ri­al mui­to su­pe­ri­or à in­fla­ção. O Brasil gas­ta por ano 10% do Pro­du­to In­ter­no Bru­to (PIB) pa­ra pa­gar os sa­lá­ri­os e ven­ci­men­tos de 11,5 mi­lhões de ser­vi­do­res ati­vos da União, Es­ta­dos e mu­ni­cí­pi­os.

Em 2017, os va­lo­res pa­gos pe­las três es­fe­ras de go­ver­no (Exe­cu­ti­vo, Le­gis­la­ti­vo e Ju­di­ciá­rio) so­ma­ram R$ 725 bi­lhões. Em 20 anos, o nú­me­ro de ser­vi­do­res au­men­tou 82,4%, pas­san­do de 6,26 mi­lhões pa­ra 11,5 mi­lhões. En­tre 2007-2017, o gas­to com ser­vi­do­res pú­bli­cos te­ve ex­pan­são de 48% aci­ma da in­fla­ção do pe­río­do.

No go­ver­no fe­de­ral, o gas­to com pes­so­al ati­vo cres­ceu 2,5% anu­al­men­te de 2008 a 2018.

Na com­pa­ra­ção in­ter­na­ci­o­nal, o es­tu­do in­di­ca que o se­tor pú­bli­co bra­si­lei­ro gas­ta mais do que o de paí­ses vi­zi­nhos: em 2013, en­quan­to o Brasil alo­cou cer­ca de 4,3% do PIB com sa­lá­ri­os, Mé­xi­co pa­gou 1,6%, Colôm­bia, 2,3% e Ar­gen­ti­na, 2,5%.

Os re­a­jus­tes con­ce­di­dos, mes­mo em pe­río­dos de que­da da ar­re­ca­da­ção, é que le­va­ram aos ele­va­dos sa­lá­ri­os, su­ge­re o re­la­tó­rio do Bird.

O pre­si­den­te do Fó­rum Na­ci­o­nal Per­ma­nen­te de Car­rei­ras Tí­pi­cas de Es­ta­do (Fo­na­ca­te), Ru­di­nei Marques, con­tes­ta os da­dos do Ban­co Mun­di­al so­bre os sa­lá­ri­os do fun­ci­o­na­lis­mo. “Is­so é uma dis­tor­ção. Se vo­cê olhar a qua­li­fi­ca­ção, 75% dos ser­vi­do­res têm en­si­no su­pe­ri­or, en­quan­to a mé­dia na­ci­o­nal fi­ca abai­xo de 15%. Dos ser­vi­do­res que têm en­si­no su­pe­ri­or, 35% têm pós-gra­du­a­ção”, afir­ma Marques. “Áre­as de con­tro­le, fis­ca­li­za­ção, ges­tão da dí­vi­da são al­ta­men­te es­pe­ci­a­li­za­das. É um com­pa­ra­ti­vo de­so­nes­to que se faz. De­ve­ria pe­gar um mé­di­co do Al­bert Eins­tein, um ope­ra­dor da Bo­ves­pa. Um ca­ra que tra­ba­lha no Ban­co Cen­tral po­de­ria es­tar co­mo di­re­tor de um ban­co pri­va­do”, acres­cen­ta.

Con­ge­la­men­to. O Bird cal­cu­la que o con­ge­la­men­to dos sa­lá­ri­os do fun­ci­o­na­lis­mo da União por três anos as­so­ci­a­do à re­du­ção da con­tra­ta­ção de no­vos ser­vi­do­res po­de tra­zer uma eco­no­mia de mais de R$ 240 bi­lhões até 2030. A pri­mei­ra me­di­da tra­ria um alí­vio de R$ 187,9 bi­lhões e a se­gun­da de R$ R$ 52,56 bi­lhões no mes­mo pe­río­do.

Es­se é um dos ce­ná­ri­os su­ge­ri­dos pe­lo ban­co pa­ra pro­pos­tas de re­for­ma ad­mi­nis­tra­ti­va a par­tir de 2020. O ce­ná­rio só pre­vê au­men­tos sa­la­ri­ais re­la­ci­o­na­dos à pro­gres­são de car­rei­ras.

Ca­so o go­ver­no re­du­za o sa­lá­rio de en­tra­da dos no­vos ser­vi­do­res, a eco­no­mia po­de ser ain­da mais ex­pres­si­va, diz o ban­co. Se o sa­lá­rio ini­ci­al for re­du­zi­do a, no má­xi­mo, R$ 5 mil e au­men­tan­do o tem­po ne­ces­sá­rio pa­ra se che­gar ao fim de car­rei­ra, a eco­no­mia acu­mu­la­da até 2030 se­ria de R$ 104 bi­lhões. Ho­je, o se­tor pú­bli­co ofe­re­ce al­tos sa­lá­ri­os ini­ci­ais pa­ra atrair can­di­da­tos qua­li­fi­ca­dos.

No ce­ná­rio mais di­fí­cil, se co­lo­ca­das em prá­ti­ca to­das as me­di­das su­ge­ri­das pe­lo Ban­co Mun­di­al, a eco­no­mia acu­mu­la­da se­ria de R$ 389,2 bi­lhões até 2030.

PE­SO DA FO­LHA

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