Ter­ror na­ci­o­nal que con­se­gue fu­gir do ób­vio

O Estado de S. Paulo - - Caderno 2 - Crí­ti­ca: Luiz Za­nin Oric­chio

Mor­tos não fa­lam. A não ser com Stê­nio, o plan­to­nis­ta do Ins­ti­tu­to Mé­di­co-Le­gal in­ter­pre­ta­do por Da­ni­el de Oli­vei­ra. O que os fi­na­dos lhe di­zem são con­fi­dên­ci­as das mais tor­tu­o­sas. En­vol­vem da intimidade de sua es­po­sa, Odete (Fa­biu­la Nas­ci­men­to), a re­la­ções pe­ri­go­sas com gan­gues, po­lí­ci­as e mi­lí­ci­as.

O que se po­de di­zer des­te que é o pri­mei­ro lon­ga-me­tra­gem de Den­ni­son Ra­ma­lho é que co­lo­ca o ter­ror bra­si­lei­ro con­tem­po­râ­neo em um pa­ta­mar de ex­ce­lên­cia. Den­ni­son sa­be fil­mar. É di­re­tor con­sis­ten­te e tra­ba­lha bem com ima­gens, co­mo já se sa­bia por seus inú­me­ros cur­tas-me­tra­gens. E tam­bém por ter si­do as­sis­ten­te de di­re­ção de En­car­na­ção do Demô­nio, fil­me que trou­xe de vol­ta um en­tão afas­ta­do José Mo­ji­ca Ma­rins, o Zé do Cai­xão. Mo­ji­ca é pa­tro­no de to­dos os afi­ci­o­na­dos bra­si­lei­ros pe­lo gê­ne­ro ter­ror e foi con­si­de­ra­do um dos gran­des ci­ne­as­tas do país na épo­ca do ci­ne­ma di­to “mar­gi­nal”. Em Mor­to Não Fa­la, Den­ni­son mos­tra-se um dis­cí­pu­lo à al­tu­ra do mes­tre. Em par­ti­cu­lar por co­lo­car a dis­to­pia so­ci­al bra­si­lei­ra no cen­tro de sua his­tó­ria de hor­ror. Não cai em sus­ti­nhos fá­ceis, pró­pri­os do gê­ne­ro quan­do tra­ta­do de ma­nei­ra ób­via. Pre­fe­re ali­ar o so­bre­na­tu­ral ao re­a­lis­mo so­ci­al que, mui­tas ve­zes, re­ve­la-se mais ma­ca­bro que qual­quer apa­ri­ção do além.

O er­ro de Stê­nio é que­brar o pac­to com os mor­tos pa­ra re­sol­ver um pro­ble­ma par­ti­cu­lar. Ele é ca­sa­do com Odete, que não o su­por­ta mais. Ela não aguen­ta nem o chei­ro tra­zi­do pe­lo ma­ri­do do tra­ba­lho, en­tra­nha­do na pe­le e nas rou­pas. Odor de mor­te. Odete en­vol­ve-se com ou­tro ho­mem, Jaime (Mar­co Ric­ca), do­no de um bo­te­quim vi­zi­nho. Es­sa que­bra de si­gi­lo en­tre o aquém e o além-tú­mu­lo pre­ci­pi­ta uma si­tu­a­ção in­con­tro­lá­vel pa­ra o trai­dor, que se es­ten­de a uma mo­ci­nha ami­ga da fa­mí­lia (Bi­an­ca Com­pa­ra­to) e aos fi­lhos de Stê­nio e Odete.

Mor­to Não Fa­la tem seu la­do go­re. Não evi­ta nem a san­guei­ra nem as sequên­ci­as de ce­mi­té­rio, am­bas de ri­gueur no gê­ne­ro. Mas, de mo­do ge­ral, De­nis­son, co­mo ci­ne­as­ta, ten­ta se li­vrar do ób­vio, dos cli­chês e das idei­as re­cor­ren­tes.

O re­sul­ta­do é mui­to bom, se­ja pe­la qua­li­da­de da fil­ma­gem, pe­la ori­gi­na­li­da­de de tra­ta­men­to do tema, se­ja pe­la ex­ce­lên­cia do elen­co. Nem to­do ci­ne­as­ta é ca­paz de reu­nir uma trin­ca de cra­ques co­mo Da­ni­el de Oli­vei­ra, Mar­co Ric­ca e Fa­biu­la Nas­ci­men­to. Tra­ba­lhar com gen­te des­se qui­la­te é coi­sa de ou­tro mun­do.

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