Pla­no de unir Ca­pes e CNPq cau­sa atri­tos no go­ver­no

Go­ver­no fe­de­ral es­tu­da for­mas pa­ra ra­ci­o­na­li­zar cus­tos e mu­dar a ges­tão, que in­clu­em ain­da des­vin­cu­la­ção de fun­do tec­no­ló­gi­co e trans­fe­rên­cia de sal­do pa­ra o BNDES; pro­pos­ta fei­ta pe­lo Mi­nis­té­rio da Eco­no­mia é com­ba­ti­da por ins­ti­tui­ções ci­en­tí­fi­cas

O Estado de S. Paulo - - Primeira página - Lí­gia For­men­ti / BRA­SÍ­LIA

O go­ver­no es­tu­da mu­dan­ças no fi­nan­ci­a­men­to à pes­qui­sa com o ob­je­ti­vo de cor­tar cus­tos. A prin­ci­pal pro­pos­ta é a fu­são da Ca­pes (que dá bol­sas) com o CNPq (que sub­si­dia tra­ba­lhos ci­en­tí­fi­cos). A ideia é cri­ti­ca­da pe­la co­mu­ni­da­de ci­en­tí­fi­ca e cau­sa atri­tos en­tre os Mi­nis­té­ri­os da Edu­ca­ção, que co­or­de­na­ria a no­va área, e o da Ciência, que per­de­ria atri­bui­ções.

“A fu­são tra­ria con­fu­são pa­ra um sis­te­ma que tra­ba­lha de for­ma harmô­ni­ca des­de a dé­ca­da de 50. ” ILDEU CASTRO MOREIRA PRESIDENTE DA SBPC

O go­ver­no es­tu­da fun­dir o Con­se­lho Na­ci­o­nal de De­sen­vol­vi­men­to Ci­en­tí­fi­co e Tec­no­ló­gi­co (CNPq) com a Co­or­de­na­ção de Aper­fei­ço­a­men­to de Pes­so­al de Ní­vel Superior (Ca­pes). A dis­cus­são, que ga­nhou cor­po no úl­ti­mo mês, es­tá na Ca­sa Civil e tem em cam­pos opos­tos Mi­nis­té­rio da Edu­ca­ção e Mi­nis­té­rio da Ciência e Tec­no­lo­gia.

Cri­a­dos em 1951, os dois ór­gãos têm fun­ções dis­tin­tas. A Ca­pes tem a mis­são de apri­mo­rar a for­ma­ção de pro­fis­si­o­nais de en­si­no superior, por meio da pós-gra­du­a­ção, além de aju­dar na qualificaç­ão de pro­fes­so­res de en­si­no bá­si­co e so­li­di­fi­car a edu­ca­ção a dis­tân­cia no País. Já o CNPq se con­cen­tra em fo­men­tar pro­je­tos de pes­qui­sa, com o ob­je­ti­vo de con­tri­buir pa­ra o de­sen­vol­vi­men­to ci­en­tí­fi­co e tec­no­ló­gi­co do Bra­sil.

O MEC tra­ba­lha pe­la mu­dan­ça. No for­ma­to de­se­nha­do, a Ca­pes – li­ga­da à pas­ta – fi­ca­ria en­car­re­ga­da da co­or­de­na­ção. Con­cre­ti­za­da a mu­dan­ça, a pas­ta da Ciência per­de­ria uma par­te im­por­tan­te das atri­bui­ções. Pe­las re­des so­ci­ais, o mi­nis­tro da Ciência, Tec­no­lo­gia, Ino­va­ções e Co­mu­ni­ca­ções, Marcos Pon­tes, en­fa­ti­zou on­tem po­si­ção con­trá­ria. “Exis­te al­gum som­bre­a­men­to de ati­vi­da­des e pon­tos de me­lho­ria de ges­tão. Es­ses pro­ble­mas já es­tão sen­do tra­ba­lha­dos no CNPq.”

A jus­ti­fi­ca­ti­va pa­ra a fu­são de CNPq e Ca­pes se­ria a de ra­ci­o­na­li­zar os re­cur­sos. Pa­ra o pró­xi­mo ano, a Ca­pes já de­ve­rá per­der me­ta­de do seu or­ça­men­to. A pro­pos­ta é de que a fun­da­ção te­nha R$2,2 bi­lhões. Já a pre­vi­são or­ça­men­tá­ria pa­ra o CNPQ fi­cou pra­ti­ca­men­te es­tá­vel, em R$ 1,06 bi­lhão.

O Mi­nis­té­rio da Eco­no­mia já pre­pa­rou uma pro­pos­ta, a que o Es­ta­do te­ve aces­so, pa­ra al­te­rar a ges­tão do or­ça­men­to do Mi­nis­té­rio da Ciência e Tec­no­lo­gia. Além de ci­tar o es­tu­do so­bre mu­dan­ças na po­lí­ti­ca de bol­sas do CNPq, a pro­pos­ta su­ge­re des­vin­cu­la­ção do Fun­do Na­ci­o­nal de De­sen­vol­vi­men­to Ci­en­tí­fi­co e Tec­no­ló­gi­co (FNDCT) e a trans­fe­rên­cia do sal­do pa­ra o Ban­co Na­ci­o­nal de De­sen­vol­vi­men­to Econô­mi­co e So­ci­al (BNDES). Es­ses re­cur­sos ho­je são ge­ri­dos pe­la Fi­nan­ci­a­do­ra de Ino­va­ção e Pes­qui­sa (Fi­nep), li­ga­da ao Mi­nis­té­rio da Ciência. Ou­tra pos­si­bi­li­da­de apre­sen­ta­da

pe­la equi­pe econô­mi­ca se­ria cri­ar um fun­do pri­va­do, com apor­te da União, pa­ra subs­ti­tuir o FNDCT.

Nu­ma dis­cus­são re­a­li­za­da se­ma­na passada na Ca­sa Civil, o des­com­pas­so en­tre MEC e o Mi­nis­té­rio da Ciência e Tec­no­lo­gia fi­cou evi­den­te, am­pli­an­do o mal-es­tar. An­te­on­tem, o ti­tu­lar da Edu­ca­ção, Abraham Wein­traub, cha­mou o co­le­ga no go­ver­no de “mi­nis­tro as­tro­nau­ta” em uma en­tre­vis­ta a jor­na­lis­tas.

Re­per­cus­são. A pro­pos­ta é com­ba­ti­da por ins­ti­tui­ções li­ga­das a ciência, pes­qui­sa e ino­va­ção. Em uma car­ta di­vul­ga­da on­tem, 14 de­las – in­cluin­do Associação Bra­si­lei­ra de Ciência e Associação Na­ci­o­nal de En­ti­da­des Pro­mo­to­ras de Em­pre­en­di­men­tos de Ino­va­ção – afir­mam que a fu­são po­de­ria tra­zer con­sequên­ci­as com­pro­me­te­do­ras pa­ra o sis­te­ma de en­si­no e pes­qui­sa do País. “A fu­são tra­ria con­fu­são pa­ra um sis­te­ma que des­de a dé­ca­da de 1950 tra­ba­lha de for­ma harmô­ni­ca”, afir­mou o presidente da So­ci­e­da­de Bra­si­lei­ra pa­ra o Pro­gres­so da Ciência (SBPC), Ildeu Castro Moreira. Ele observa ain­da que não há es­tu­dos que mos­trem qual se­ria o im­pac­to econô­mi­co da fu­são. “Não ha­ve­ria eco­no­mia.”

O co­mu­ni­ca­do tam­bém de­fen­de a per­ma­nên­cia do FNDCT e sua ges­tão pe­la Fi­nep. O Es­ta­do pro­cu­rou o Mi­nis­té­rio da Eco­no­mia, que não se pro­nun­ci­ou. O mes­mo ocor­reu com a pas­ta da Ciência. Em no­ta, o MEC afir­mou que “aca­ta­rá a de­ci­são que o presidente da Re­pú­bli­ca con­si­de­rar mais con­ve­ni­en­te pa­ra o Bra­sil”.

ANDRE SOU­SA/MEC–17/4/2019

Wein­traub e Pon­tes. Ti­tu­lar da Edu­ca­ção (à esq.) cha­mou co­le­ga de ‘mi­nis­tro as­tro­nau­ta’

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