Após lei­lões fra­cos, re­gra do pré-sal po­de mu­dar

De cin­co blo­cos ofe­re­ci­dos, só um foi ar­re­ma­ta­do pe­la Pe­tro­brás, em as­so­ci­a­ção com es­ta­tal chi­ne­sa; mi­nis­tro da Eco­no­mia afir­ma que ‘en­ten­deu re­ca­do’ da fal­ta de con­cor­rên­cia e que po­de re­ver pre­ços e tam­bém mo­de­lo de con­ces­são nas pró­xi­mas li­ci­ta­ções

O Estado de S. Paulo - - Primeira página - De­ni­se Lu­na Fer­nan­da Nu­nes Ma­ri­a­na Du­rão / RIO

A au­sên­cia das gran­des pe­tro­lei­ras estrangeir­as pe­lo se­gun­do dia con­se­cu­ti­vo foi en­ten­di­da pe­lo go­ver­no co­mo si­nal de que o re­gi­me de par­ti­lha nos lei­lões de pe­tró­leo se es­go­tou. A in­ten­ção ago­ra, se­gun­do o mi­nis­tro Pau­lo Gu­e­des (Eco­no­mia), é ado­tar nas áre­as de pe­tró­leo do pré-sal o re­gi­me de con­ces­são, uti­li­za­do des­de 1999 pa­ra cam­pos lo­ca­li­za­dos no pós-sal. On­tem, a Pe­tro­brás com­prou ape­nas um blo­co, com chi­ne­ses.

Pe­lo se­gun­do dia con­se­cu­ti­vo, as gran­des pe­tro­lei­ras estrangeir­as su­mi­ram do lei­lão de áre­as de pe­tró­leo pro­mo­vi­do pe­lo go­ver­no bra­si­lei­ro. A au­sên­cia foi en­ten­di­da por au­to­ri­da­des e ana­lis­tas co­mo um re­ca­do de que o atu­al mo­de­lo se es­go­tou. Os lei­lões des­ta se­ma­na se­gui­ram o re­gi­me de par­ti­lha, que foi du­ra­men­te cri­ti­ca­do pe­lo mi­nis­tro da Eco­no­mia, Pau­lo Gu­e­des. A in­ten­ção, se­gun­do ele, é ado­tar tam­bém nas áre­as de pe­tró­leo do pré-sal o re­gi­me de con­ces­são, uti­li­za­do no Bra­sil des­de 1999 pa­ra a ven­da de blo­cos lo­ca­li­za­dos na ca­ma­da pós-sal.

“En­ten­de­mos o re­ca­do e podemos pen­sar em re­ver pre­ços ou mu­dar pa­ra con­ces­são”, dis­se. No mo­de­lo de par­ti­lha, a Pe­tro­brás tem di­rei­to de pre­fe­rên­cia em to­das as áre­as no li­mi­te de até 30% de par­ti­ci­pa­ção e vence a dis­pu­ta quem ofe­re­cer um por­cen­tu­al de óleo mai­or pa­ra a União. Já no re­gi­me de con­ces­são, a es­ta­tal per­de es­se pri­vi­lé­gio e ga­nha quem ofe­re­cer o mai­or lan­ce em di­nhei­ro.

Mes­mo ten­do exer­ci­do on­tem seu di­rei­to de pre­fe­rên­cia no lei­lão em três dos cin­co blo­cos ofer­ta­dos, a Pe­tro­brás com­prou, em con­jun­to com a chi­ne­sa CNODC, ape­nas o blo­co de Aram, o mai­or e mais ca­ro da ro­da­da. As du­as em­pre­sas vão pa­gar R$ 5,05 bi­lhões pe­la área e fo­ram as úni­cas, das 17 ha­bi­li­ta­das, a par­ti­ci­par da 6.ª Ro­da­da de Par­ti­lha de Pro­du­ção.

Sur­pre­sa.

A fal­ta de con­cor­rên­cia sur­pre­en­deu o di­re­tor-ge­ral da ANP, Dé­cio Od­do­ne, que da­va co­mo cer­ta a ven­da de pe­lo me­nos três dos cin­co blo­cos. “Que­ria que o lei­lão ti­ves­se ti­do mais com­pe­ti­ti­vi­da­de. Fui sur­pre­en­di­do pe­lo fa­to de a Pe­tro­brás não ter exer­ci­do seu di­rei­to de pre­fe­rên­cia em três áre­as? Sim”, afir­mou, re­for­çan­do o co­ro pa­ra mu­dan­ças nas re­gras pa­ra atrair mais con­cor­rên­cia.

Se­gun­do Od­do­ne, che­gou ao

fim a “era dos bô­nus bi­li­o­ná­ri­os”, já que as áre­as no­bres do pré-sal es­tão se es­go­tan­do e os lei­lões te­rão de par­tir pa­ra no­vas fron­tei­ras, on­de o ris­co do pro­du­tor é mai­or e, por is­so, o va­lor co­bra­do (bô­nus de as­si­na­tu­ra) te­rá de ser me­nor.

Pa­ra Gu­e­des, o re­gi­me de par­ti­lha é uma “he­ran­ça ins­ti­tu­ci­o­nal ruim” de go­ver­nos pas­sa­dos. “Con­ver­sa­mos cin­co anos so­bre ces­são one­ro­sa e, no fim,

deu “no show”, ven­de­mos pa­ra nós mes­mos”, re­cla­mou, re­fe­rin­do-se ao fa­to de a Pe­tro­brás ter si­do a úni­ca com­pra­do­ra ex­pres­si­va nos dois lei­lões re­a­li­za­dos es­ta se­ma­na: do Ex­ce­den­te da Ces­são One­ro­sa e a 6ª Ro­da­da de Par­ti­lha de Pro­du­ção.

“Com es­se mo­de­lo de par­ti­lha não tem lei­lão. O que a Pe­tro­brás quer, ela le­va. O que so­bra, fi­ca com as de­mais. As con­cor­ren­tes só le­vam se fi­ze­rem con­sór­cio

(com a Pe­tro­brás)”, dis­se o ex-di­re­tor-ge­ral da Agên­cia Na­ci­o­nal do Pe­tró­leo, Gás Na­tu­ral e Bi­o­com­bus­tí­veis (ANP) e con­sul­tor Da­vid Zyl­bers­tajn.

Pa­ra ana­lis­tas, os R$ 5,050 bi­lhões do lei­lão de on­tem so­ma­dos aos R$ 69,9 bi­lhões do me­ga­lei­lão de quar­ta-fei­ra são um sal­do po­si­ti­vo, mas que po­de­ria ter si­do mui­to me­lhor. So­men­te es­te ano, o go­ver­no já ar­re­ca­dou R$ 85 bi­lhões em lei­lões de pe­tró­leo, o que vai le­var à re­du­ção ex­pres­si­va do dé­fi­cit fis­cal.

Gu­ru in­for­mal de Pau­lo Gu­e­des, o pro­fes­sor Car­los Lan­go­ni, di­re­tor do Cen­tro de Eco­no­mia Mun­di­al (CEM) da Fun­da­ção Getúlio Var­gas (FGV) e ex­pre­si­den­te do Ban­co Cen­tral (BC), tam­bém atri­buiu a ques­tões re­gu­la­tó­ri­as o fra­cas­so dos lei­lões.

“Pa­ra os me­gain­ves­ti­men­tos, co­mo são es­ses do ex­ce­den­te da ces­são one­ro­sa, faz di­fe­ren­ça, sim, a ques­tão de con­ces­são ver­sus par­ti­lha. Tal­vez (a fal­ta de lan­ces) te­nha si­do um si­nal in­te­res­san­te pa­ra cha­mar a aten­ção de que pre­ci­sa­mos con­ti­nu­ar avançando. As­sim co­mo fle­xi­bi­li­za­mos a ques­tão do ope­ra­dor úni­co (na re­gra ori­gi­nal, só a Pe­tro­brás po­dia ope­rar) e do con­teú­do lo­cal, fal­ta re­ver es­sa ques­tão da par­ti­lha, que é um mo­de­lo ine­fi­ci­en­te”, afir­mou Lan­go­ni.

A mu­dan­ça re­gu­la­tó­ria pa­ra o pré-sal já era al­vo de aná­li­se no Con­gres­so Na­ci­o­nal an­tes mes­mo da re­a­li­za­ção dos dois lei­lões do pré-sal. Com o re­sul­ta­do ne­ga­ti­vo, ga­nhou for­ça a ideia de al­te­rar as re­gras. / CO­LA­BO­RA­RAM VINICIUS NEDER E EDU­AR­DO RO­DRI­GUES

TANIA RE­GO / AGENCIA BRA­SIL

Lei­lão. Na 6ª Ro­da­da de Par­ti­lha do pré-sal, 17 em­pre­sas fo­ram ha­bi­li­ta­das a par­ti­ci­par pe­la dis­pu­ta por cin­co blo­cos

Newspapers in Portuguese

Newspapers from Brazil

© PressReader. All rights reserved.