NÃO BE­BAM CER­VE­JA, PEDE DO­NA DA BAC­KER

Ró­tu­lo era o prin­ci­pal de fá­bri­ca in­ter­di­ta­da; em MG, em­pre­sa tem me­ta­de da pro­du­ção do se­tor

O Estado de S. Paulo - - Primeira página - Le­o­nar­do Au­gus­to ESPECIAL PA­RA O ES­TA­DO BE­LO HO­RI­ZON­TE

Só­cia da fa­bri­can­te lí­der de ven­das de cer­ve­ja ar­te­sa­nal em MG, Paula Leb­bos fez um ape­lo: “Não be­bam a Be­lo­ri­zon­ti­na. Se­ja de que lo­te for”. Uma mu­lher de 60 anos po­de ser a se­gun­da pes­soa mor­ta por in­to­xi­ca­ção por di­e­ti­le­no­gli­col, subs­tân­cia acha­da na Be­lo­ri­zon­ti­na, prin­ci­pal mar­ca da Bac­ker.

Acer­ve­ja­ria Bac­ker apos­tou al­to exa­ta­men­te no ró­tu­lo que é res­pon­sá­vel pe­lo seu mai­or re­vés. A mar­ca Be­lo­ri­zon­ti­na, que con­for­me a Po­lí­cia Ci­vil de Mi­nas te­ve pe­lo me­nos três lo­tes con­ta­mi­na­dos, é o car­ro-che­fe da Bac­ker. A cer­ve­ja sus­pei­ta res­pon­de por pe­lo me­nos 60% da ca­pa­ci­da­de de pro­du­ção da em­pre­sa, es­ti­ma­da em 1 mi­lhão de li­tros por mês. A po­lí­cia apu­ra o elo en­tre a con­ta­mi­na­ção da be­bi­da e 17 ca­sos de in­to­xi­ca­ção no Es­ta­do.

A Be­lo­ri­zon­ti­na é a gran­de res­pon­sá­vel pe­lo sal­to da Bac­ker nos úl­ti­mos anos. A fá­bri­ca é ho­je lí­der de ven­das no se­tor ar­te­sa­nal no Es­ta­do. O ró­tu­lo foi cri­a­do no fim de 2017 em co­me­mo­ra­ção pe­los 120 anos da fun­da­ção de Be­lo Ho­ri­zon­te. A pro­du­ção ini­ci­al foi de 10 mil li­tros. Após pou­co mais de dois anos, o me­te­o­ro Be­lo­ri­zon­ti­na, an­tes dos ca­sos de con­ta­mi­na­ção pe­lo di­e­ti­le­no­gli­col, atin­gia o vo­lu­me apro­xi­ma­do de 600 mil li­tros, se­gun­do es­ti­ma­ti­va do se­tor.

A em­pre­sa não re­ve­la da­dos de fa­bri­ca­ção da Be­lo­ri­zon­ti­na. O pre­ço da gar­ra­fa da cer­ve­ja nos su­per­mer­ca­dos da ca­pi­tal che­ga a R$ 5,28. Em meio às ar­te­sa­nais, não há na­da pa­re­ci­do na re­de va­re­jis­ta da ci­da­de. O Re­ser­va do Pro­pri­e­tá­rio, ou­tro ró­tu­lo da Bac­ker, mais ela­bo­ra­do, por exem­plo, cus­ta R$ 80.

Mal co­me­çou 2020 e o ce­ná­rio mu­dou ra­di­cal­men­te. O go­ver­no de Mi­nas já re­gis­tra 17 pes­so­as com sus­pei­ta de con­ta­mi­na­ção, in­cluin­do um óbi­to. Ou­tra mor­te sus­pei­ta, ain­da fo­ra do balanço da pas­ta, foi no­ti­fi­ca­da no in­te­ri­or (leia mais nes­ta pá­gi­na). O go­ver­no fe­de­ral já fe­chou a fá­bri­ca e man­dou re­co­lher to­da a pro­du­ção des­de ou­tu­bro – a Bac­ker pe­diu na Jus­ti­ça pra­zo mai­or pa­ra es­sa co­le­ta.

On­tem, a im­pro­vá­vel men­sa­gem veio da pró­pria di­re­to­ra de Mar­ke­ting da em­pre­sa. “Não be­bam a Be­lo­ri­zon­ti­na. Se­ja de que lo­te for”, dis­se Paula Leb­bos, tam­bém só­cia-pro­pri­e­tá­ria. “Es­tou sem dor­mir. Mui­to tris­te, as­sus­ta­da com tu­do is­so. É pre­ci­so sa­ber a ver­da­de o mais rá­pi­do pos­sí­vel”, acres­cen­tou ela, vi­si­vel­men­te aba­ti­da.

In­ves­ti­men­to frus­tra­do. Dos 70 tan­ques da Bac­ker, 20 fo­ram com­pra­dos em 2019. A po­lí­cia con­cen­tra in­ves­ti­ga­ções em um de­les, de 18 mil li­tros, usa­do ex­clu­si­va­men­te

pa­ra a Be­lo­ri­zon­ti­na. O equi­pa­men­to tem ca­pa­ci­da­de de bras­sa­gem – a mis­tu­ra co­lo­ca­da no tan­que que, após a ma­tu­ra­ção, vi­ra cer­ve­ja – equi­va­len­te a 33 mil gar­ra­fas. A

Bac­ker afir­ma não usar o di­e­ti­le­no­gli­col em seus pro­ces­sos.

Es­ti­ma­ti­vas do se­tor apon­tam que a Bac­ker con­cen­tra­va de 50% a 60% do mer­ca­do mi­nei­ro de cer­ve­jas ar­te­sa­nais, o que tam­bém não pou­pa­va a em­pre­sa de crí­ti­cas pe­la ve­lo­ci­da­de de pro­du­ção. “A pres­sa nes­te se­tor é in­ver­sa­men­te proporcion­al à qua­li­da­de da cer­ve­ja”, diz um con­cor­ren­te. A ava­li­a­ção de­le é que a Bac­ker, com sua es­ca­la, já não po­de mais ser cha­ma­da de ar­te­sa­nal.

Aem­pre­sa­tem600­fun­ci­o­ná­ri­os. Em de­zem­bro, um de­les foi de­mi­ti­do, ame­a­çou o su­per­vi­sor e o ca­so pa­rou até na de­le­ga­cia. A po­lí­cia diz não des­car­tar a pos­si­bi­li­da­de de sa­bo­ta­gem nas li­nhas de in­ves­ti­ga­ção.

O ta­ma­nho atu­al da equi­pe é bem di­fe­ren­te de quan­do o ne­gó­cio, fa­mi­li­ar, co­me­çou. An­tes de se trans­for­mar em Bac­ker, o es­ta­be­le­ci­men­to for­ne­cia cho­pe de mes­mo no­me pa­ra uma ca­sa de shows cha­ma­da Três Lo­bos, no iní­cio dos anos 2000. O lo­cal não exis­te mais. Em 2005, os atu­ais do­nos da em­pre­sa ini­ci­a­ram a pro­du­ção da cer­ve­ja Bac­ker, uma das pri­mei­ras ar­te­sa­nais de Mi­nas. Ho­je Três Lo­bos é o no­me de um dos 21 ró­tu­los da fá­bri­ca – que de­vem ra­re­ar em ba­res e su­per­mer­ca­dos, ao me­nos en­quan­to du­rar a in­ves­ti­ga­ção.

LE­O­NAR­DO AU­GUS­TO/ESTADÃO

Re­co­men­da­ção. ‘Não be­bam a Be­lo­ri­zon­ti­na. Se­ja de qual lo­te for’, dis­se Paula Leb­bos, só­cia-pro­pri­e­tá­ria da Bac­ker

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