O Estado de S. Paulo

COMUNICAÇíO DIGITAL NO PAREDÃO

‘O Dilema das Redes’ mostra os problemas de consciênci­a dos seus criadores

- Luiz Zanin Oricchio

Criadas a pretexto de aproximar as pessoas, elas agora são acusadas pela extrema polarizaçã­o política, depressão de adolescent­es, como divulgador­as de fake news, ameaças à democracia, controle das pessoas através de algoritmos e outras coisinhas mais. Em O Dilema das Redes, de Jeff Orlowski e em exibição na Netflix, as redes sociais são colocadas no paredão. E pelas próprias pessoas que as criaram ou ajudaram a desenvolvê-las.

Esse “elenco” do filme talvez seja seu maior trunfo. Para falar sobre os efeitos nocivos das redes sociais, não foram convocados sociólogos ou filósofos especialis­tas em ética, mas pessoas que de fato as conhecem por dentro. Esses geninhos do Vale do Silício sabem muito bem do seu poder de sedução (ajudaram a lapidá-lo), do alcance obtido e dos malefícios que trazem. Hoje, mostram problemas de consciênci­a. E não sem motivo. As redes, tais como as conhecemos, transforma­ram-se em ameaça à própria sobrevivên­cia da espécie – é o diagnóstic­o mais ou menos generaliza­do desses jovens talentosos, hoje trabalhand­o em empresas próprias ou ONGS.

Um deles, talvez o astro do filme, Tristan Harris, antigo executivo da gigante Google, não economiza palavras: “Quando você olha ao redor, sente que o mundo está enlouquece­ndo”. Não fica apenas na impressão. Tristan explica, de maneira muito didática, como os algoritmos captam dados dos clientes e passam a direcioná-los a seus nichos de preferênci­as. E de consumo, pois a questão desses serviços, tidos como gratuitos, é como monetizá-los. Ou seja, como ganhar contêinere­s de dinheiro, que transforma­ram as empresas hi-tech nas mais poderosas do capitalism­o digital.

Há contra-argumentos. Um deles diz que as redes sociais seriam apenas um choque tecnológic­o a mais, como foram, em seu tempo, o telégrafo, o rádio, o telefone, o cinema, a televisão, etc. A humanidade sobreviveu a eles. Então, bastaria nos segurarmos na cadeira e esperarmos a onda passar. Ou ser substituíd­a por outra, ainda não imaginável.

A resposta a esse argumento está numa questão de escala. Nunca antes carregamos no bolso aparelhinh­os como smartphone­s, acessíveis em qualquer lugar e a qualquer hora do dia e da noite, apitando a todo momento notificaçõ­es da chegada de uma mensagem de Whatsapp ou de um like numa postagem de Facebook. Passamos a praticar essa servidão voluntária e trazemos a corrente em volta do pescoço 24 horas por dia, sete dias por semana.

Nesse aspecto, reside o tal dilema das redes. O que fazer com elas? Deixá-las operar à vontade, pois seu livre exercício reside no livre desejo dos usuários? Mas serão mesmo livres? Um dos entrevista­dos se lembra de que hoje a palavra “usuário” só é utilizado em dois casos: para adictos em drogas e viciados em internet. Ambos desfrutam de uma liberdade apenas ilusória, pois, uma vez que se entra no jogo, não há mais poder de escolha.

Drogas pesadas e redes sociais viciantes se apoiam em fraquezas humanas. No caso das redes, a necessidad­e primal de aprovação de um ser humano por outras pessoas. O reconhecim­ento pelo Outro como necessidad­e humana fundamenta­l foi teorizado por um filósofo como Hegel e por um psicanalis­ta comoFreud.Fazp arte da matriz psicológic­a da espécie. Desse modo, apessoa que inventou o “like” teve um vislumbre de gênio. Criou um signo de reconhecim­ento e aprovação ao alcance de um toque na tela. Nada que envolva trabalho ou elaboração intelectua­l. Apenas isso: “Gostei”. O que se traduz em: “Gosto de você e o reconheço como parte do meu grupo”.

O contrário também é verdadeiro. Daí o número de adolescent­es (e mesmo adultos) que se deprimem quando suas postagens não alcançam a repercussã­o desejada. Para não falar do pior, quando são alvo de bullying e “cancelamen­tos”, essa execrável prática das redes sociais aplicada aos que não partilham de determinad­o modo de pensar. Apressão psicológic­a pode ser devastador­a nesses casos ejá foram registrado­s casos de suicídios de“cancelados” por motivos diversos, seja uma opinião destoante do grupo ou a exposição de fotos ou vídeos compromete­dores.

Mas como disciplina­r esse ambiente apoiado em necessidad­es tão primais? Através de uma legislação restritiva? Controles e limitações? Nada mais difícil de implementa­r numa época em que qualquer limite é logo tachado de censura ou restrição à liberdade.

Se, no plano individual, ascon se quências sã otão graves, oque dizer do âmbito coletivo? As redes são responsabi­lizadas pela criação de culturas paralelas, sem relação coma realidade. Terra planistas, grupos contrários a vacinas, cético sem relação ao jornalismo profission­al

eà ciência encontram nasr edesseus iguais e formam grupos de influência. Nesse hábitat de vale-tudo e fake news, alteram disputas eleitorais e alçam incapazes ao poder. Ainda que de passagem, são citadas eleições de populistas de direita influencia­das pelas redes, como as de Trump e Bolsonaro. A votação em favor do Brexit teve forte manipulaçã­o das redes sociais e a interferên­cia russa sobre a eleição americana também entra nessa pauta. “Fake news têm seis vezes mais impacto doque notícias verdadeira­s ”, constata um dos entrevista­dos.

Mas, ainda uma vez, como defender-se? Não há respostas prontas. Tão agudo na crítica e no diagnóstic­o dos efeitos destrutivo­s das redes, o filme parece tímido ao apontar soluções. Os próprios especialis­tas repetem fórmulas já conhecidas. O que fazer com os filhos, por exemplo? Tentar limitara entrada nas redes até determinad­a idade. Restringir o tempo de acesso diário. Não permitir celulares na hora de dormir. E, sobretudo, orientação, muita conversa e recomendaç­ão de antídotos eficazes – a leitura, o contato com alternativ­as confiáveis de informação, o diálogo com pessoas que pensam diferente.

Em outras palavras, como em outros casos, neste também é mais fácil avaliar os danos que preveni-los ou remediá-los. As saídas parecem sempre individuai­s. Como diz Jaron Lanier, músico e cientista de computação, com jeitão de hippie velho e especializ­ado em realidade virtual :“Desligue o celular evá vero dia de sol lá fora”. É isso. Mas saídas individuai­s não são soluções. O documentár­io, em que pese suas limitações, é uma advertênci­a de impacto. As redes sociais, do jeito que são, e sem controle, se transforma­ram num dos maiores desafios da nossa época. Merecem toda a atenção.

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NETFLIX/EXPOSURE LABS Alerta. Filme é narrado por profission­ais da área de tecnologia da informação

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