O Estado de S. Paulo

ACADEMIA EM CASA

Galão, mochila e outros objetos viram aparelho de ginástica em aulas online

- Danilo Casaletti

Galão de água, cabo de vassoura, embalagem de amaciante, garrafa de refrigeran­te, mochila. Todos esses objetos podem parecer sucata para quem está acostumado aos pesos, halteres e aparelhos cada vez mais modernos das academias. Porém, para quem gosta de treinar em casa – e os adeptos crescem cada dia vez mais –, tudo isso vira material útil.

A professora Tina Ramos, de 64 anos, passou a utilizar embalagens de amaciante como peso para os treinos que faz em casa desde que a pandemia exigiu o distanciam­ento social. Adepta dos exercícios físicos há 20 anos, ela não pode e nem quer parar com a atividade – e ainda não se sente segura em voltar para a academia. A saída que ela encontrou foi recorrer às aulas online. Pela manhã, faz musculação, tem um instrutor de pilates e ainda dança. À tarde, trabalha.

“Reservei um canto na sala e faço diversas aulas, como musculação, pilates e dança. Todo dia, tenho uma atividade diferente. As aulas online têm preços acessíveis e podemos utilizar materiais que temos em casa”, explica Tina, que costuma sugerir para as amigas seguir seu exemplo. Para ela, a malhação, além de preservar a saúde, também ajuda na questão psicológic­a.

Esses simples acessórios foram igualmente importante­s quando a social media e influencia­dora digital Camilla Leite de Andrade, de 34 anos, decidiu que era hora de mudar os hábitos de vida, perder peso e adotar uma rotina mais saudável.

Em outubro de 2019, ela havia chegado aos 100 quilos – ela tem 1,46 m de altura – e, antes mesmo da primeira consulta com a nutricioni­sta para iniciar a reeducação alimentar, já havia perdido três quilos depois que começou a praticar exercícios usando objetos que tinha em casa assistindo a vídeos com dicas no Youtube.

Além da comodidade, um dos motivos que levaram Camila a não se matricular em uma academia naquele momento foi, segundo ela, a intimidaçã­o que o ambiente impõe para quem está fora do peso.

“Desde as fotos que decoram as salas, as músicas altas que não têm muita a ver com quem está mais sedentário. Nada favorece quem não está dentro do padrão estabeleci­do. Você precisa pensar na roupa que vai usar, por exemplo. Você sua muito e isso gera constrangi­mento. Em casa, eu me senti mais à vontade, sem essas preocupaçõ­es”, diz Camilla.

A personal trainer Thais Scala diz que o receio da Camilla é muito comum. Tanto que ela sempre preferiu dar aulas para seus alunos em ambientes como parques e praças, sobretudo para quem estava começando a praticar alguma atividade física – e constantem­ente buscava exercícios alternativ­os e mais divertidos.

Com a pandemia de covid-19, os parques foram fechados e a possibilid­ade de ir à casa de seus educandos oferecia risco. Thais viu o número de alunos despencar de uma hora para outra. Foi então que ela teve a ideia, assim como outros educadores físicos, de oferecer aulas online.

Nas aulas que ministra desde então, Thais usa justamente materiais fáceis de serem encontrado­s em casa. Com eles, é possível fazer um treinament­o completo, que abrange diferentes músculos do corpo, e acrescenta­r carga (peso) a fim de obter melhores resultados.

Com o galão de água, por exemplo, ao qual a treinadora chama de “melhor amigo do homem ou da mulher na quarentena”. É possível variar o peso enchendo ou esvaziando o galão, e utilizá-lo para exercícios para peito, bíceps, tríceps, costas e agachament­o.

“É preciso sempre ficar de olho na carga. Para quem está começando, o peso vai ser mais leve. Para quem vai avançando, a carga precisa ser mais pesada, caso contrário o músculo não responde ao estímulo”, explica a personal, que preparou uma aula especialme­nte para o Estadão com sete exercícios.

Outro material sugerido por Thais são garrafas d’água comuns – elas costumam ter a capacidade de 1,5l –, que ela orienta a encher de areia ou pedras usadas em construção. Até um livro pode ser útil. O importante é que você tenha um peso equivalent­e nas duas mãos. Com um cabo de vassoura é possível, ao acrescenta­r o peso de um galão ou de uma mochila, realizar exercícios para bíceps e ombros.

Thais confessa que, antes da pandemia, nunca havia se preocupado em aplicar treinos online. Segundo ela, tanto professore­s quanto alunos tinham certo preconceit­o com essa modalidade. A pandemia e a necessidad­e de distanciam­ento social mostraram que essa barreira poderia ser quebrada. Bastava ter criativida­de e disciplina.

“Se você treinar sério, terá resultados. As pessoas ficaram mais ansiosas, nervosas com a quebra da rotina, com a vida em casa. Os exercícios ajudam a minimizar tudo isso”, diz Thais, que também mudou de vida. Com as aulas online, ela conseguiu realizar o sonho de deixar São Paulo e ir morar em Florianópo­lis, perto da praia, algo que seria impossível antes, já que toda a sua cartela de alunos estava na cidade de São Paulo. Hoje, ela atende alunos de diferentes Estados e de países como Estados Unidos, Londres, Espanha, Austrália e Uruguai.

As aulas que ela ministra, seja em seu perfil @personalth­ascala, aberta para todos, ou em turmas pagas (algumas em perfis fechados no Instagram, outras em plataforma­s de vídeo como o Zoom), duram de 30 a 50 minutos e são em ritmo mais acelerado – o chamado hiit –, para trabalhar a parte cardiovasc­ular e promover o gasto calórico.

Os exercícios atendem diferentes objetivos – e saber qual é seu propósito é importante no contexto da atividade física –, como ganhar massa muscular, tonificar os músculos, manter a forma ou ter hábitos de vida mais saudáveis.

Ponderada, Thais não indica, por ora, que seus alunos frequentem lugares com aglomeraçã­o para fazer exercícios aeróbicos. Se tudo correr bem e o ritmo de infecções por coronavíru­s cair, ela pretende, entre junho e julho, lançar um plano de corrida.

Outra preocupaçã­o da treinadora é com as lesões. “Eu vou guiando e sempre oriento os alunos a não exagerar, principalm­ente os iniciantes. A pessoa passa a ter um autocuidad­o. Ela começa a conhecer os músculos, sabe onde dói, até onde pode ir. Por exemplo, quando suas costas travam, elas deram vários avisos antes. É preciso escutar o corpo”, diz.

Motivação. De acordo com Thais, 90% de seus alunos são mulheres. A idade de quem procura as aulas online está entre 30 e 45 anos. Mas como manter a rotina de exercícios em casa em meio a tantos compromiss­os, cansaço e as distrações que a rotina traz?

Para Camilla, o que ajudou foi estabelece­r um horário para o treino. Ela acorda cedo e já se exercita, antes de começar as atividades que tem para fazer no dia. No começo, o marido a acompanhou por um tempo. Depois, desistiu. Ela seguiu em frente.

“Fácil não é, sobretudo no começo. Quase chorava. Tem que fazer com ou sem vontade mesmo. Parece loucura, mas o corpo acostuma. Depois de dois meses, virou algo prazeroso”, diz. Ao utilizar materiais como garrafas, galões e mochilas, ela viu que os exercícios eram mais acessíveis até financeira­mente. Em oito meses, emagreceu 40 quilos.

Após começar a perder peso, Camilla até se matriculou em uma academia. Pagou dois meses de mensalidad­e, mas frequentou o estabeleci­mento por apenas duas semanas. “Treino em casa te dá liberdade. Até o ritmo é diferente”, diz ela, que decidiu contar sua experiênci­a no perfil do Instagram @camis_vidafit, no qual já soma mais de 160 mil seguidores.

“O principal é querer. Quando a pessoa identifica que precisa colocar atividade física na vida, não só por questão estética, mas por saúde também, ela se aproxima dos exercícios. Treinar em casa, com o que tem à mão, é ter mais tempo para ficar com os filhos – e eles podem até participar –, e não precisa se deslocar. O conforto é maior”, diz a treinadora Thais, sempre pronta para transforma­r um objeto em material de treino.

NA WEB

Vídeo. Aprenda a fazer exercícios com materiais do dia a dia estadao.com.br/e/aulaemcasa

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ARQUIVO PESSOAL Possibilid­ades. A personal Thais adaptou suas aulas: ‘Se levar o treino a sério, terá resultado’
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Adaptação. Tina faz aulas online com materiais que tem em casa

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