O Estado de S. Paulo

Ainda é janeiro, acredita?

- É REPÓRTER DO ‘ESTADÃO’ E OBSERVADOR DA VIDA URBANA Gilberto Amendola

Parece que já se passaram muitos meses. Mas ainda é janeiro.

O ano tem duas semanas e uma eternidade nas costas. É certo que 2020 inaugurou uma franquia, um filme catástrofe, que chegou em sua terceira e surrada sequência.

Ninguém aguenta mais, e isso é fato. Já queimamos a largada – e apontamos na curva do burnout em menos de vinte dias. Parece que vivemos sob o mesmo negacionis­mo, o mesmo revanchism­o, a mesma ignorância, o mesmo presidente desde priscas eras.

E ainda tem ômicron, influenza, inflação, eleição e seleção. Pega bem usar a palavra “exausto” se ainda estamos em janeiro?

Sou esse meme cansado sonhando com 2023. Sou o carnaval do ano que vem. Sou um punhado de planos para quando a chuva passar.

Vai passar. Mas ainda é janeiro. E janeiro é o mês das promessas.

E eu prometo frequentar academia, parar de beber, iniciar aquela pós em História da Arte ou rascunhar o romance que um dia eu disse que iria escrever.

Ainda é janeiro e eu prometo arrumar as gavetas. E me livrar de tudo aquilo que não me serve mais. Que tal começar por essas peças de roupa? Pra que essa regata no armário? Os anos 80 não voltam mais. Vai para o lixo essa camiseta da banda de rock que hoje apoia vocês sabem quem. Já devia ter virado pano de chão. Pijama? Acho que não. Vai me provocar insônia e pesadelos terríveis. Eu sei, eu sei, o primeiro disco é bom… Mas depois só gravaram porcaria. Fora que agora estão abraçados aos terraplani­stas e antivacina.

Ainda é janeiro e eu prometo me livrar desses panfletos de pizzaria. Algumas delas estão fechadas desde o início do governo Dilma. Qual seria o meu plano? Um memorial de pizzas nunca pedidas? Alguma instalação artística?tem Bienal esse ano?

E que mania besta é essa de acumular tanto papel? E essas contas de luz do século passado? Esses comprovant­es servem pra quê? Eu me defendo e digo que é para a declaração do imposto de renda. Será? É que eu sempre deixo para o finzinho do prazo – e acabo tendo que retificar tudo. Um dia a Receita Federal vai bater na minha porta.

Ainda é janeiro e eu vou correr atrás. Um ano melhor não vai cair do céu. Estou ficando velho. Já sei como a banda toca. Daqui a pouco, se eu não me coçar, vou perder esse jogo com o “zap” na mão. Não quero isso pra mim. Não quero isso pra ninguém. Não vamos deixar para fevereiro.

Janeiro é o mês para virar a mesa. Se ainda é janeiro, ainda dá tempo. Por que não?

Ainda é janeiro e eu vou correr atrás. Um ano melhor não vai cair do céu. Estou ficando velho.

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