ALE­GRIA JUNINA

Ho­je cris­tãs, as fes­tas ce­le­bra­das em ju­nho, tão apre­ci­a­das no Bra­sil, têm ori­gem pa­gã. De­ri­vam de an­ti­gos ri­tos da fer­ti­li­da­de pra­ti­ca­dos pe­los an­ti­gos europeus

Planeta - - SUMARIO - Por Luis Pel­le­gri­ni

Ho­je cris­tãs, as fes­tas ce­le­bra­das em ju­nho, tão apre­ci­a­das no Bra­sil, têm ori­gem pa­gã. De­ri­vam de an­ti­gos ri­tos da fer­ti­li­da­de pra­ti­ca­dos na Eu­ro­pa

As fes­tas ju­ni­nas es­tão pro­fun­da­men­te gra­va­das no ima­gi­ná­rio de to­dos os bra si­lei­ros. Quem, nu­ma noi­te de ju­nho, não pu­lou fo­guei­ra, co­meu can­ji­ca ou be­beu quen­tão? Quem não dan­çou qua­dri­lha, sol­tou ro­jão e, so­bre­tu­do no Nor­des­te, não su­biu num pau-de-se­bo? Es­sas fes­tas são as mais ale­gres e po­pu­la­res ce­le­bra­ções de fun­do re­li­gi­o­so do nos­so país, so­bre­tu­do em ci­da­des do in­te­ri­or e zo­nas ru­rais.

Or­ga­ni­za­das ao re­dor de três san­tos ben­fa­ze­jos – San­to Antô­nio, São João, São Pe­dro –, as fes­tas ju­ni­nas cons­ti­tu­em um pe­río­do úni­co no qual ru­as, clu­bes, igrejas, pra­ças e es­co­las são en­fei­ta­das com ban­dei­ro­las mul­ti­co­lo­ri­das e mas­tros com retratos dos san­tos co­lo­ca­dos no al­to. No Nor­des­te, ju­nho é um mês vi­vi­do ao som de can­ções ser­ta­ne­jas, baião, xa­xa­do e for­ró. Du­as ci­da­des não me­dem es­for­ços pa­ra promover o me­lhor São João do mun­do: a per­nam­bu­ca­na Ca­ru­a­ru e a pa­rai­ba­na Cam­pi­na Grande.

É ao Su­des­te, po­rém, que es­tão mais li­ga­das as ori­gens das nossas fes­tas ju­ni­nas. Aque­le per­so­na­gem de cha­péu de pa­lha, den­te ca­ri­a­do, cal­ça re­men­da­da e ca­mi­sa xa­drez é um tí­pi­co cai­pi­ra pau­lis­ta ou mi­nei­ro. As co­mi­das ca­rac­te­rís­ti­cas tam­bém são da re­gião: pé-de-mo­le­que (ra­pa­du­ra com amen­doim), can­ji­ca, curau e pa­mo­nha (ti­pos de pudim de mi­lho), pi­po­ca e ba­ta­ta-do­ce as­sa­da. E tam­bém há o quen­tão (in­fu­são de ca­cha­ça ou vi­nho com gen­gi­bre, li­mão, cra­vo e ca­ne­la).

Tra­zi­das ao Bra­sil por je­suí­tas e por­tu­gue­ses, as fes­tas ju­ni­nas ra­pi­da­men­te fo­ram ado­ta­das pe­los ín­di­os, cu­ja in­fluên­cia na cu­li­ná­ria tra­di­ci­o­nal des­sas oca­siões é ní­ti­da. A can­ji­ca de mi­lho ver­de, por exemplo, de­ri­va da pa­pa de água e mi­lho. Amen­doim co­zi­do, ca­na-mi­rim, ba­ta­ta-do­ce, inha­me, je­ni­pa­po, ai­pim têm a mes­ma ori­gem. Com o tem­po, in­gre­di­en­tes das culturas afri­ca­na e eu­ro­peia

en­ri­que­ce­ram os pra­tos de ba­se in­dí­ge­na: açú­car, lei­te de co­co, er­va-do­ce, cra­vo e ca­ne­la, sal.

SAN­TOS ABRASILEIRADOS

A ca­da um dos san­tos pa­tro­nos das fes­tas ju­ni­nas são atri­buí­das vir­tu­des e ca­pa­ci­da­des bem es­pe­cí­fi­cas. Pa­ra os ca­tó­li­cos, San­to Antô­nio, co­me­mo­ra­do a 13 de ju­nho, aju­da na re­cu­pe­ra­ção de ob­je­tos perdidos. No Bra­sil, po­rém, es­se dou­tor da Igre­ja – que nas­ceu de fa­mí­lia nobre em Lis­boa, em 1195, fez-se mon­ge fran­cis­ca­no e mor­reu em Pá­dua (Itá­lia), em 1231 – vi­rou san­to ca­sa­men­tei­ro de po­der qua­se in­fa­lí­vel. “Tal­vez por­que en­con­trar noivo é tam­bém um mi­la­gre que exi­ge pa­ci­ên­cia de san­to”, brin­cou o fol­clo­ris­ta Câ­ma­ra Cas­cu­do.

No dia con­sa­gra­do a ele, mais de uma mo­ça faz pro­mes­sa pa­ra o san­to lhe ar­ru­mar noivo. Mui­tas sub­me­tem sua ima­gem a vá­ri­os su­plí­ci­os, à es­pe­ra de uma res­pos­ta mais rá­pi­da e efe­ti­va. Al­gu­mas mo­ças do in­te­ri­or, se­gun­do Câ­ma­ra Cas­cu­do, “che­gam até mes­mo a ti­rar o Menino Jesus dos bra­ços de San­to Antô­nio pa­ra res­ti­tuí-lo so­men­te de­pois de re­a­li­za­do o mi­la­gre; vi­ram o san­to de ca­be­ça pa­ra bai­xo, ti­ram-lhe o res­plen­dor e co­lo­cam so­bre a ton­su­ra uma mo­e­da pre­ga­da com ce­ra; e, por fim, quan­do tar­da a gra­ça, can­sa­das já de tan­to es­pe­rar, atam o san­to com uma cor­da e dei­tam­no den­tro de um po­ço”.

Cha­ma­do de “San­to de To­do o Mun­do” em 1895 pe­lo pa­pa Leão XI­II, por sua sa­be­do­ria, bon­da­de e to­le­rân­cia, San­to Antô­nio pa­re­ce não se im­por­tar com tais afron­tas. Se pu­des­se, tal­vez pe­dis­se a es­sas mo­ças mais pru­dên­cia. E as lem­bra­ria da­que­le sá­bio pro­vér­bio: “Cui­da­do com o que pe­des, pois teu de­se­jo po­de ser aten­di­do”...

Co­me­mo­ra­do a 24 de ju­nho, São João Batista ga­nhou fa­ma de ser se­ve­ro e mui­to sé­rio. Fi­lho de Za­ca­ri­as e Isa­bel, foi vi­ver no de­ser­to tão lo­go saiu da adolescência, pra­ti­can­do a ora­ção e o je­jum. No ano 29, foi pre­gar nas mar­gens do Rio Jor­dão e ali ba­ti­zou Jesus, apon­tan­do-o co­mo “Cor­dei­ro de Deus”, o Mes­si­as. João Batista foi de­ca­pi­ta­do no ano 31, a pe­di­do de

Salomé, es­po­sa do te­trar­ca da Ga­li­leia, He­ro­des An­ti­pas.

No Bra­sil, o su­plí­cio do san­to é es­que­ci­do. João Batista tor­na-se um ra­paz bo­ni­to e sa­dio, ca­be­los en­ca­ra­co­la­dos, ves­ti­do com pe­le de carneiro, se­gu­ran­do nu­ma mão um ca­ja­do e le­van­do nos bra­ços um car­nei­ri­nho.

A fes­ta de­di­ca­da a São Pe­dro ocor­re em 29 de ju­nho. Co­mo o san­to é considerado pro­te­tor das viú­vas, até ho­je po­de-se ver, nes­sa noi­te, em fren­te às ca­sas des­sas se­nho­ras no in­te­ri­or do país, uma fo­guei­ra de­di­ca­da a ele. Por­ta­dor sim­bó­li­co das cha­ves da Igre­ja Ca­tó­li­ca, São Pe­dro é tam­bém de­no­mi­na­do “Por­tei­ro do Céu”.

ORI­GEM PA­GÃ

As fes­tas ju­ni­nas são he­ran­ça, as­si­mi­la­da pe­la Igre­ja Ca­tó­li­ca, de fes­ti­vi­da­des pré-cris­tãs li­ga­das a cul­tos da fer­ti­li­da­de. No he­mis­fé­rio nor­te, ju­nho mar­ca a che­ga­da do verão, da abun­dân­cia e da ale­gria. Nes­sa épo­ca, os pa­gãos europeus co­me­mo­ra­vam o sols­tí­cio de verão (o dia mais lon­go e a noi­te mais cur­ta do ano, o que ocor­re no he­mis­fé­rio nor­te por vol­ta de 21 de ju­nho) com rituais li­ga­dos às co­lhei­tas, dos quais fa­zi­am par­te sa­cri­fí­ci­os aos deu­ses da ter­ra e da fer­ti­li­da­de. Es­sa tradição já exis­tia nas culturas egíp­cia e gre­ga, que a pas­sa­ram aos ro­ma­nos.

O dia 24 de ju­nho as­si­na­la­va tam­bém uma das fes­tas mais importantes dos cel­tas. Acre­di­ta­va­se que, nes­se mo­men­to, abri­am­se as portas en­tre o rei­no da ter­ra e o dos céus. Com is­so, as al­mas dos mor­tos po­di­am vi­si­tar os ve­lhos la­res pa­ra se aque­cer jun­to às fo­guei­ras e se re­con­for­tar com as ho­me­na­gens que lhes eram pres­ta­das. As­sim, quan­do o cel­ta dan­ça­va ao re­dor da fo­guei­ra, co­mia, be­bia e can­ta­va, não o fa­zia ape­nas pa­ra si, mas tam­bém pa­ra to­das as al­mas ami­gas que, acre­di­ta­va, es­ta­vam à sua vol­ta. De­ri­vam da cren­ça na pre­sen­ça de es­pí­ri­tos ami­gos as vá­ri­as ar­tes di­vi­na­tó­ri­as cri­a­das pa­ra tais oca­siões.

Em­bo­ra con­si­de­ras­se es­sas fes­tas pa­gãs, a pri­mi­ti­va Igre­ja cris­tã não con­se­guiu aca­bar com elas. O jei­to foi tra­zer es­sas ce­le­bra­ções pa­ra o ca­len­dá­rio cris­tão e re­ves­ti-las com um sig­ni­fi­ca­do li­túr­gi­co. Es­ta­be­le­ce­ram-se, as­sim, em 24 de ju­nho o ani­ver­sá­rio de João Batista, e em 25 de de­zem­bro (épo­ca do equi­nó­cio de in­ver­no no he­mis­fé­rio nor­te) o nas­ci­men­to de Jesus. De­cla­rou-se en­tão que as fo­guei­ras e a ale­gria ge­ral acon­te­ci­am em re­go­zi­jo pe­lo ani­ver­sá­rio do san­to que ba­ti­za­ra Jesus.

Com a con­ver­são de Ro­ma ao cris­ti­a­nis­mo, a tradição de co­me­mo­rar o sols­tí­cio de verão foi pre­ser­va­da e in­cor­po­ra­da às co­me­mo­ra­ções do ani­ver­sá­rio de São João Batista. Ele pas­sou a ser fes­te­ja­do com me­sa far­ta, dan­ças, música e be­bi­das. As fo­guei­ras (an­tes ace­sas ape­nas pe­los cam­po­ne­ses, que vi­am no fo­go um ele­men­to má­gi­co pa­ra es­pan­tar pes­tes e pra­gas da la­vou­ra, as­sim co­mo a água é vis­ta co­mo sím­bo­lo da far­tu­ra e da pu­ri­fi­ca­ção) fo­ram um cos­tu­me tra­zi­do pe­los por­tu­gue­ses.

“Na Eu­ro­pa, os cul­tos à fer­ti­li­da­de em ju­nho fo­ram re­pro­du­zi­dos até por vol­ta do sé­cu­lo 10”, afir­ma a an­tro­pó­lo­ga Lu­cia He­le­na Ran­gel, da Pon­ti­fí­cia Uni­ver­si­da­de Ca­tó­li­ca de São Pau­lo (PUC-SP). “Co­mo a Igre­ja não conseguia com­ba­tê-los, de­ci­diu cris­ti­a­ni­zá-los, ins­ti­tuin­do di­as de ho­me­na­gens aos três san­tos no mes­mo mês.”

No Bra­sil, país do he­mis­fé­rio sul, as da­tas eu­ro­pei­as des­sas fes­tas fo­ram pre­ser­va­das, em­bo­ra cai­am aqui no mês do iní­cio do in­ver­no. Mas nem o mais ri­go­ro­so aca­dê­mi­co se pre­o­cu­pa­ria com is­so: a épo­ca é de fes­te­jar.

Apre­sen­ta­ção em fes­ta junina de Cam­pi­na Grande (PB), uma das mai­o­res do Bra­sil

Dan­ça na fes­ta de Cam­pi­na Grande: ale­gria as­so­ci­a­da aos an­ti­gos cul­tos das co­lhei­tas

Ca­sa­men­to na fes­ta: pa­ra­le­lo com a ali­an­ça en­tre a ter­ra fér­til e a for­ça fe­cun­dan­te vin­da do céu

Co­mi­das tí­pi­cas das fes­tas ju­ni­nas: cu­li­ná­ria in­dí­ge­na so­ma­da a in­fluên­ci­as afri­ca­nas e eu­ro­pei­as

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