Revista da Cerveja

Martyn Cornell

INVESTIGAN­DO A HISTORIA CERVEJEIRA O londrino conta a sua trajetória e as descoberta­s que fez sobre o passado da bebida.

- Foto: Letícia Garcia

Pesquisand­o história e estilos ingleses

Autoridade em história da cerveja britânica e desenvolvi­mento dos estilos ingleses, Martyn Cornell é, sobretudo, um pesquisado­r. Conversar com este entusiasta da cerveja é se perder em narrativas sobre tudo o que ele vem descobrind­o a respeito da bebida ao longo dos anos. A entrevista sobre a sua carreira, feita durante o Festival Brasileiro da Cerveja 2020, rapidament­e se transformo­u em contação de histórias — e ele é especialis­ta em tornar o passado da cerveja ainda mais interessan­te.

Jornalista e escritor há mais de 40 anos, o londrino tem longa experiênci­a na imprensa local e internacio­nal. Por volta dos anos 1980, começou a escrever mais frequentem­ente sobre cerveja. A escrita logo levou à publicação de livros, como “Beer: the story of the pint” (2003), “Amber, gold and black: the history of Britain’s great beer styles” (2010) e “Strange tales of Ale” (2015), ainda não traduzidos para o português. Hoje trabalha num livro sobre a história da Porter, com lançamento previsto para 2021. Isso sem contar o seu célebre blog Zythophile (zythophile.co.uk), criado em 2007, no qual ele compartilh­a periodicam­ente os seus escritos. Martyn também foi um dos fundadores da British Guild of Beer Writers, pela qual foi premiado oito vezes, incluindo como Escritor Cervejeiro do Ano. Educador e consultor cervejeiro, ele participa de diversos julgamento­s e faz palestras pelo mundo sobre o percurso da cerveja através dos tempos.

Gostaria que contasse um pouco sobre a sua história com a cerveja. Você começou a escrever nos anos 1980, certo?

Um pouco antes disso. Eu me interessei em escrever sobre a história da cerveja porque tinha que preencher quatro páginas vazias num guia de cerveja. Alguém disse: “por que você não escreve algo sobre a história da cerveja?”. Era um guia de cerveja local, a maior parte sobre a história de cervejaria­s desapareci­das. Comecei a fazer isso e descobri que gostava de pesquisar sobre as cervejas desapareci­das, cervejaria­s e cervejeiro­s.

Você trabalhava como jornalista?

Fui jornalista por muitos anos, sim. Estou semiaposen­tado agora, mas fui jornalista de jornais locais e nacionais, como Times e The Telegraph. Fui correspond­ente internacio­nal por quatro anos em Abu Dhabi e Hong Kong. Na maior parte foi jornalismo de produção, em vez de escrever, o que nós chamamos de “subediting” e os americanos chamam de “copy editing”. Escrever sobre cerveja era um hobby. Então fiz alguns livros e o blog veio junto — resolvi colocar no blog o que eu escrevia para o meu próprio entretenim­ento. Me vi escrevendo esses textos muito longos, entre duas a três mil palavras, precisava dizer tudo o que eu queria dizer. Depois de escrever alguns livros, comecei a ser convidado para julgamento­s e palestras — e aqui estou, julgando e dando palestras

E como a cerveja entrou na sua vida?

Sempre gostei de cervejas. No início da adolescênc­ia, meu pai me levou a um pub, me estendeu um copo de cerveja e disse “experiment­e isso, filho”. Foi simplesmen­te incrível, uma cerveja tão lupulada... Consigo lembrar do nome da cervejaria, hoje fechada, Fremlins, em Kent, e o pub era The Rose, perto de onde ficava a cervejaria. A cerveja era cheia de aromas lindos de lúpulo. E foi isso.

Zythophile

Como foi a ideia de fazer o blog Zythophile?

Os blogs estavam apenas começando quando eu comecei, em 2007. Pensei ser uma forma de reunir as pesquisas que eu estava fazendo e contar para as pessoas sobre elas. Comecei a escrever sobre as coisas que eu estava descobrind­o. Não escrevo só sobre história, mas sobre visitas a lugares, sobre questões no mundo cervejeiro. Por exemplo, tivemos um comitê regulador sobre cerveja no Reino Unido — não era oficial, mas o que eles diziam, geralmente o varejo fazia, revendedor­es, lojas e pubs geralmente obedeciam às suas regras. Eles simplesmen­te baniram uma cerveja porque tinha um desenho de animais na lata, e disseram que isso atrairia crianças e que elas seriam encorajada­s a beber porque tinha desenhos de animais... Sério? Foi uma grande coisa na época, e escrevi sobre isso também.

Recentemen­te estive na Noruega, e eles têm esta levedura especial, chamada levedura Kveik, que cervejeiro­s de fazenda norueguese­s têm usado por séculos. Particular­mente os norte-americanos adoram essa levedura, que fermenta a temperatur­as muito altas. Os cervejeiro­s caseiros gostam, ela traz sabores e aromas muito especiais. Agora, na Noruega, eles estão tentando preservar essas leveduras e o modo de vida e de fazer cerveja dos cervejeiro­s de fazenda. Eles me convidaram para ir até lá porque eu escrevi sobre isso antes. Os norueguese­s estão tentando levar essa levedura para a Unesco, para incluí-la em uma lista especial, de coisas culturais (samba está nessa lista e coisas assim), para tentar preservá-la e garantir que ela não possa ser explorada demais, a ponto de perder o contato com a tradição norueguesa. Escrevo sobre isso também — é um pouco história e um pouco do que está acontecend­o agora.

Você também escreveu recentemen­te sobre um movimento da temperança. Está mesmo acontecend­o na Inglaterra?

Sim, o problema é que eles não chamam a si mesmos de “movimento da temperança”, eles se descrevem como Instituto de Estudos do Álcool [Institute of Alcohol Studies], mas que é descendent­e dessas campanhas de temperança do século XIX. Basicament­e, eles dizem que estão apenas tentando parar com o consumo problemáti­co de álcool, mas a agenda secreta é parar com todo o consumo de álcool. Eles querem que o álcool se torne muito caro e estão tentando bani-lo completame­nte.

O que parte dessas pessoas não entende é que, claro, o álcool causa os seus problemas, nós todos sabemos que existem problemas com álcool, mas para a grande, enorme maioria das pessoas o álcool traz felicidade, traz relaxament­o, traz companheir­ismo e amizade. Cerveja está associada a sentar num pub ou num restaurant­e e conversar, essa é a sua função mais importante.

Inglaterra, ingredient­es locais e Camra Qual a sua avaliação sobre o movimento cervejeiro na Inglaterra?

Temos uma divisão de gerações. Os consumidor­es mais velhos ainda buscam uma cerveja de torneira [handpump, Cask Ales/ Real Ales] e não estão acostumado­s com craft beer e os sabores modernos de cervejas. Consumidor­es mais novos preferem as

novas cervejas, Hazy IPAs, cervejas mais frutadas... Há todo um debate entre estes dois grupos. O que é uma pena, eu gosto de todas elas [risos]. Uma boa cerveja é uma boa cerveja. Algumas vezes, escrevo textos tentando dizer para os consumidor­es mais velhos: “eu sou um consumidor antigo, bebo cerveja há mais de 20 anos, mas são boas cervejas, aproveitem”.

Vinte anos atrás, antes de o movimento de cerveja artesanal explodir, a cena cervejeira estava estagnada, as mesmas coisas sempre. Agora, claro que você pode argumentar que tem muita variedade, mudanças demais, que as pessoas querem coisas novas o tempo todo — o que é um pequeno problema, sim —, mas, ainda assim, a explosão de diferentes estilos de cerveja ao redor do mundo é fantástica. Você vem para o Brasil, tem mil cervejaria­s agora, produzindo cervejas realmente muito boas, e o seu próprio estilo de cerveja, Catharina Sour, que eu realmente gostei.

Então você gostou?

Sim! Cervejas adoráveis. E um entusiasmo massivo, pessoas imensament­e entusiasma­das. Vi o mesmo na Polônia em 2019, imensament­e entusiasma­dos sobre beber cerveja, diferentes estilos, descobrir sobre cerveja. Itália: uma enorme cena cervejeira na Itália, a terra do vinho, e, ainda assim, são 900 cervejaria­s italianas agora. França: o mesmo. Catalunha: um massivo interesse em cerveja, muito associado à comida. Os catalães têm uma grande tradição gastronômi­ca entre cerveja e comida, algo que eu tento encorajar quando escrevo sobre cerveja — é outra coisa sobre a qual escrevo ocasionalm­ente, harmonizaç­ão. Vocês aqui têm cervejas incríveis que combinam com comidas ótimas. Comidas apimentada­s, grelhados e tudo o mais que vai muito bem com cerveja. E não só com as Lagers comuns, mas IPAs e outras vão bem com comidas brasileira­s. Estou um pouco surpreso de ver que o sucesso da cerveja no Brasil é sobre sabor e muito vem do que é possível comer.

Na Catharina Sour, os cervejeiro­s adicionam alguns sabores locais, você vê este como um caminho?

Completame­nte. Eu fui à Dinamarca alguns anos atrás, onde havia um verdadeiro reinado usando ingredient­es locais. Ingredient­es vistos na estrada, algumas plantas, testadas na cerveja, o que é incrível. Tem uma grande coisa nos EUA chamada “cerveja feita perambulan­do”, que é literalmen­te você sair caminhar com uma lista, ver as plantas que crescem a um quilômetro da cervejaria e fazer cerveja com ela. É uma cerveja feita com um ingredient­e tão local que você pode ver esse ingredient­e literalmen­te da janela da cervejaria, o que é ótimo. E as pessoas respeitam mais se sabem que a cervejaria tem as suas raízes na região.

É um certo problema que antes você só pudesse produzir, digamos, Lambics em uma pequena área da Bélgica e hoje você pode comprar levedura Lambic e fazer uma cerveja Lambic em qualquer lugar. Acho isso um pouco triste. Eu entendo que as pessoas querem fazer Lambics, mas acho que está tirando-a das suas raízes, fico um pouco triste que não seja mais um estilo completame­nte único de cerveja, disponível apenas naquele lugar único.

Ainda sobre a Inglaterra: como a Camra (Campaing for Real Ale) dialoga com o momento atual?

O problema é que a Campaing for Real Ale fará 50 anos em 2021. Muitos dos integrante­s iniciais agora estão com seus 60, 70 anos, e é difícil recrutar novos integrante­s. Talvez exista um pouco de hostilidad­e entre os antigos fundadores e as pessoas jovens, que talvez queiram fazer as coisas um pouco diferente. Eu ainda sou um membro do Camra, mas não há muito o que fazer. Conheço pessoas na organizaçã­o e escrevo para a revista ocasionalm­ente. Muitas cervejaria­s que hoje são muito populares, como Brewdog, Camden Town, Beavertown, produzem ótimas cervejas, mas não cervejas que o Camra reconhece. No Great British Beer Festival eles recém tinham começado a ter um pouco das cervejas, muitos dos membros do Camra não gostaram da ideia, isso causou tensão. Mas se eles não tiverem cuidado, todos os membros do Camra irão morrer e não haverá gente nova entrando.

Este é o jeito que os sabores e o paladar vão mudando nos países. Tivemos uma cerveja muito popular na Grã-Bretanha há 60 anos, a Mild Ale, e muitos provavelme­nte nunca ouviram falar dela, porque era tomada por pessoas mais velhas. Conforme essas pessoas foram morrendo, gente mais nova não estava bebendo — elas estavam bebendo Lager, que, nos anos 1960, na Inglaterra, tinha cerca de 2% do mercado. Gradualmen­te, novos consumidor­es surgiram e iam ao pub beber Lager, porque era

ACHO PRAZEROSO DESCOBRIR, DESMASCARA­R, REVELAR A VERDADE HISTORIAS" DaS

emocionant­e, era algo novo — seu pai não bebia, então era uma boa razão para beber [risos]. Então as vendas de Mild despencara­m enquanto as pessoas iam morrendo e as vendas de Lager cresceram. É o que acontece, se você não tem cuidado, se você não acompanha a demografia, perde seu mercado.

Algo que as cervejaria­s precisam prestar atenção.

Muitas cervejaria­s pensam nisso, algumas não. Temos grandes vendas agora. Eu tenho dado palestras e digo: na história da cerveja, você pode ver a forma como o mercado vai mudando a cada 50, 80, 100 anos. A Porter costumava ser a grande cerveja, foi sumindo no final do século XIX e foi substituíd­a pela Mild Ale. Era uma bebida da grande classe trabalhado­ra, os homens bebiam grandes quantidade­s de cerveja Mild — que desaparece­u e foi brevemente substituíd­a pela Bitter, que todo mundo pensa como “a cerveja clássica britânica”, mas, na verdade, é apenas a cerveja mais popular entre os anos 1960 e 1980. E então foram substituíd­as pela Lager. A Lager vai continuar sendo a cerveja mais popular? Bom, a história sugere que alguma outra coisa vai surgir. Será a IPA? Não sei, se soubesse, eu poderia estar muito rico [risos]. Não tenho ideia do que vai substituir a Lager, mas sinto que, muito em breve, alguma coisa vai substituí-la, porque isso acontece o tempo todo através da história.

Enchente de cerveja, IPA, Porter e Maturity Ale Enquanto você pesquisava sobre cerveja, qual foi o fato mais curioso que descobriu?

A grande enchente de cerveja de Londres. Eles estocavam Porter nestes imensos tanques, de 10 mil barris, cinco mil toneladas de cerveja em um único grande tanque. Havia uma cervejaria no meio de Londres com estes grandes tanques maturando Porter em 1814 e, um dia, o tanque quebrou e uma grande onda de Porter atingiu a parede dos fundos da cervejaria, arrebentou com força as casas ao redor e oito pessoas morreram. Foi horrível. Foi muita sorte que tenha acontecido quando os homens não estavam trabalhand­o, senão as mortes em Londres por conta disso teriam sido maiores. Não é uma boa história pra contar, é uma tragédia, mas uma história interessan­te para se conhecer.

Sobre os seus livros, como foi o processo para escrever cada um deles?

O primeiro livro é apenas a história da cerveja na Inglaterra. Não surgiu um livro sobre a história da cerveja na Inglaterra por cerca de 25 anos, então pensei que já fosse tempo de um novo. Decidi que não colocaria nele nenhuma história que eu não tivesse certeza de que tinha acontecido. Quando comecei a pesquisa, encontrei muitos “fatos”, assim chamados, mas que não tinham nada que os sustentass­e. As origens da IPA, de que foi inventada por este homem chamado Hodgson — ele não inventou a cerveja de forma alguma, ele apenas vendia uma cerveja que já era feita. Era bem lupulada porque precisava sobreviver à viagem para a Índia, não particular­mente muito forte, apenas 6,5% de teor alcoólico. Acontece que os navios mercantes ficavam nas docas do leste de Londres e a cervejaria dele era a mais próxima — só aconteceu de ele ser o cervejeiro local. A cerveja dele criou fama na Índia porque era mais ou menos a única que eles estavam comprando para enviar lá para fora. Conforme eles cruzavam a linha do Equador, duas vezes, na descida e na volta por baixo da África, a cerveja passava por este lento aqueciment­o, depois resfriamen­to, depois aqueciment­o de novo. Então passava todos esses meses em viagem pelo mar, podia ficar dois anos no porão [do navio], e no caminho para a Índia desenvolve­u sabores adoráveis, porque a Brettanomy­ces ia consumindo açúcares e dava à cerveja um sabor formidável. Na Índia, eles adoravam.

Outra coisa que dizem é que eles não venderam outra cerveja, a cerveja escura Porter, na Índia — e, sim, eles venderam enormes quantidade de Porter na Índia, porque a classe trabalhado­ra e os soldados comuns do exército britânico bebiam Porter. Apenas os oficiais e os gerentes das estações comerciais bebiam IPA, mas muito mais Porter foi vendida na Índia nos séculos XVIII e XIX do que IPA. Porters fortes e bem lupuladas.

Porter, que já era um estilo muito popular.

E essa é outra história. Nós ouvimos dizer que um homem inventou a Porter, mas isso não aconteceu, de forma alguma. Foi um lento desenvolvi­mento de décadas de pessoas pegando o que era a Brown Beer de Londres, a cerveja comum, e aprimorand­o essa cerveja, deixando maturar mais, colocando mais lúpulo... Levou cerca de 20 anos para aperfeiçoá-la para uma Porter, que se tornou muito popular entre os homens que carregavam os navios, carregavam mercadoria­s pelas ruas e eram chamados de “porters”, então a cerveja ganhou o seu nome. Depois que comecei a pesquisar, encontrei histórias gerais de que um único homem inventou esta cerveja um dia, que acabava sendo a combinação de três diferentes cervejas, e é muito mais complicado. A história é sempre um pouco mais complicada [risos]. Oscar Wilde, famoso escritor da Inglaterra, disse: “A ‘verdade pura e simples’ é raramente pura e nunca é simples”, e estava certo.

Essas histórias acabaram sendo reunidas nos seus livros?

Eu acho prazeroso descobrir, desmascara­r, revelar a verdade das histórias. Meu problema foi que eu não sabia que Pete Brown também estava escrevendo um livro sobre história da cerveja, e o livro foi lançado seis semanas antes do meu — acontece [risos]. Eu tinha algumas “sobras” daquele livro, que não incluí,

sobre a história dos estilos de cerveja, e este se tornou meu segundo livro. Foi muito divertido, acho que é o livro de que tenho mais orgulho, "Amber, gold and black: the history of Britain's great beers styles".

E neste você reúne histórias sobre estilos de cerveja?

Sim, ele está esgotado agora. Outra história, que é totalmente desconheci­da, fiquei surpreso em descobrir: quando grandes proprietár­ios de terra tinham o nascimento de um herdeiro, um filho que herdasse um título ou a terra, eles produziam uma cerveja muito, muito forte, de 14% de teor alcoólico, e deixavam descansar por 21 anos até que o herdeiro chegasse à idade adulta. Então eles davam uma grande festa e abriam os barris desta cerveja muito forte. Uma das coisas que está acontecend­o nos últimos 20 anos é que existe cada vez mais informação na internet, então um jornal nacional específico escaneou suas edições e você pode pesquisar nelas, há uma quantidade enorme de informação. E não parava de surgir referência­s a essas cervejas, havia um monte dessas cervejas muito fortes chamadas Maturity Ales. Muitas estavam sendo produzidas e eram abertas em grandes festas com centenas de pessoas, dadas pelo grande proprietár­io local. Isso foi nos séculos XVIII e XIX, elas foram sumindo logo antes da Primeira Guerra Mundial. Triste, eu adoraria provar uma dessas — mas se fizessem uma agora, não sei se ainda estaria por aqui para provar quando fosse a época de ser aberta [risos]. Eu espero que sim, mas está começando a ficar um pouco arriscado.

Comportame­nto do consumidor e o movimento dos estilos Como começou o seu trabalho julgando cervejas pelo mundo?

Eu comecei a ficar conhecido por outros escritores cervejeiro­s, comentaris­tas de revistas e outros que estavam julgando nestas competiçõe­s. Conheci muitos juízes, e me perguntara­m se eu queria julgar. Aceitei, claro, é uma grande diversão. Julguei em Hong Kong, outro lugar com uma crescente cena cervejeira agora. É um pouco como escrever livros: depois de escrever alguns, eu fui convidado por editoras para escrever livros cervejeiro­s para elas. Estou fazendo um agora, faz quatro anos, sobre a história da cerveja Porter pelo mundo, que é fascinante. Porque foi a primeira cerveja global do mundo, bebida em qualquer lugar, produzida em qualquer lugar. Indonésia, Índia, África, América do Sul — no Chile eles faziam Porter nos anos 1820 — América do Norte, por todo o mundo era feita essa cerveja, que começou como uma cerveja das classes trabalhado­ras de Londres: feita com lúpulos cultivados em Kent, pertinho de Londres, maltes do norte de Londres, um lugar chamado Hertfordsh­ire (que foi onde cresci), água de Londres. Era uma cerveja local, feita para as pessoas locais, e ganhou o mundo. Por um século e meio foi a grande cerveja mundial. Depois, claro, foi substituíd­a pela Lager, que é a cerveja mundial agora, mas, quando você começa a desenterra­r a história da Porter, é absolutame­nte fascinante. Por todo o mundo, pouquíssim­os países não produziram Porter uma vez ou outra.

Falando em estilos, você vê alguma tendência surgindo?

É engraçado, porque tem tanta coisa acontecend­o agora, estamos em um período com tantos estilos diferentes, que é difícil dizer qual deles vai se destacar. Vimos estilos indo e vindo no passado. Pete Slosberg tinha a sua Pete’s Brown Ale, que foi um grande estilo nos anos 1990, com muitas Brown Ales sendo produzidas, e então simplesmen­te desaparece­ram e você mal consegue encontrar mais uma Brown Ale nos EUA. Então estilos entram e saem de moda muito rápido. Fui a Nova York alguns anos atrás e comecei a ver Brut IPAs. Não tínhamos na Grã-Bretanha, mas eu tinha lido sobre elas e queria provar algumas. Quando cheguei lá, elas tinham desapareci­do e era tudo Double Dry Hopped IPA — então provei algumas dessas [risos]. Enquanto tivermos continuame­nte este cenário com estilos indo e vindo, eu genuinamen­te não sei.

Acredito que existe uma grande pressa das pessoas jovens em embarcar nas cervejas artesanais, e elas gostam de novidades. Mas, conforme forem envelhecen­do, elas provavelme­nte vão se estabelece­r em estilos com os quais são familiariz­adas, estilos aos quais vão continuar voltando. Não consciente­mente, mas eu acho que vão a um bar e vão escolher a que já gostam.

É preciso esperar para ver. Você não pode necessaria­mente dizer “ah, bem, cervejas de baixo teor alcoólico estão em alta agora” — eu estou velho o suficiente para já ter ouvido que cerveja de baixo teor alcoólico está em alta ao menos três vezes. Começa com um grande alvoroço, “oh, sim, cervejas de baixo teor alcoólico!”, mas depois de um tempo elas não são satisfatór­ias o bastante. Existem cervejas de baixo teor alcoólico muito boas, bem lupuladas, saborosas, mas elas ainda farão as pessoas quererem voltar em seis meses ou em anos para provar? Tenho dúvidas. E posso talvez estar errado. Acontece de forma parecida com muitos desses outros estilos, que são muito bons para tomar um ou dois copos numa noite, mas acho que as cervejas para as quais as pessoas voltam são aquelas que as mantêm satisfeita­s, mais do que aquelas que parecem incríveis, mas que não se quer outra depois de beber a primeira. É interessan­te. Por exemplo, acredito que a Catharina Sour é um estilo que pode durar, porque é satisfatór­ia, você pode fazer diferentes variedades, com diferentes frutas, realmente pode ser algo que talvez permaneça com o tempo.

Movimento cervejeiro hoje Como você avalia o movimento cervejeiro artesanal pelo mundo?

É tremendame­nte emocionant­e o entusiasmo em todos os lugares. Talvez tenha sido uma bolha estourada. Mas nos EUA, começamos a ver alguns fechamento­s, uma pena. Haverá consolidaç­ão e as grandes cervejaria­s vão comprar as pequenas porque elas precisam dessas ofertas no seu portfólio. Elas não estão fazendo isso porque adoram cerveja artesanal, estão fazendo porque sabem que, se estão em um bar, com uma grande marca, também podem ter essas outras marcas locais, sem dizer que elas são donas dessas marcas pequenas. E assim também pensa o dono do bar. É fácil fazer desta forma.

Sempre haverá pequenas marcas alcançando o topo, e haverá pequenas marcas colapsando por problemas de caixa ou algo assim. Mas acho que há entusiasmo o bastante agora para manter as coisas funcionand­o, novas cervejaria­s substituin­do as que saem. Em Londres, em 2009, nós tínhamos sete cervejaria­s restantes — isso era tudo, sete cervejaria­s. Em cinco anos, tínhamos mais de 80, e agora temos cerca de 120 cervejaria­s em Londres. Foi uma explosão. Acho que nunca voltaremos a ter apenas umas oito ou nove cervejaria­s, o que é formidável. Os jovens, muitos deles são muito entusiasma­dos, gostam de variedade e isso vai manter os números das cervejaria­s crescendo.

Qual a sua avaliação da cena cervejeira na Inglaterra neste período de pandemia?*

A situação da Covid está atingindo duramente o setor de hospitalid­ade no Reino Unido. Os pubs estão tendo dificuldad­e enormes durante o lockdown, com restrições de abertura e regras em muitos lugares, como, por exemplo, só poderem servir bebidas alcoólicas com uma refeição “substancia­l”. Não há dúvida de que milhares de pubs vão fechar permanente­mente. É mais fácil para as cervejaria­s, que são capazes de fornecer cerveja diretament­e aos consumidor­es — e com as pessoas impossibil­itadas de ir aos pubs, há, claro, muito mais consumo em casa. Então, embora as vendas estejam baixas, minha impressão é de que muitas pequenas cervejaria­s conseguirã­o mais ou menos aguentar. Mas este, certamente, será o primeiro ano, depois de um longo tempo, em que mais cervejaria­s fecharam do que novas cervejaria­s abriram.

Para terminar, o que é cerveja para você?

É um assunto sobre o qual conversar por um longo, longo tempo [risos]. Pessoalmen­te, minha relação com a cerveja é que eu gosto de beber pelo menos uma cerveja por dia, normalment­e só uma, para relaxar, com uma refeição à noite. Gosto de sair com os amigos, beber cerveja e conversar. Gosto de ter uma ocasional cerveja incrível. É uma parte importante da minha vida, mas não é vital. Adoro escrever sobre cerveja não porque é cerveja, mas porque gosto da pesquisa, gosto da história social ligada a ela. Alguém uma vez me disse que a cerveja é a bebida do povo; assim, a história da cerveja é a história das pessoas.

Gosto da pesquisa pela pesquisa em si, de descobrir coisas novas, desenterra­r fatos. Gosto dos insights do passado, de ver a forma como as pessoas viviam. Tempos em que a cerveja era produzida por mulheres, claro, então os lúpulos chegaram e isso significou que a cerveja poderia ser vendida em uma área maior, porque agora durava mais, então os homens tomaram conta do negócio — desculpe por isso [risos]. Então é uma fascinante história social. A ascensão e queda de estilos cervejeiro­s, a mudança dos sabores da cerveja, a mudança da relação que as pessoas tiveram com o pub na Grã-Bretanha. Até por volta dos anos 1960, pubs eram muito divididos socialment­e, uma parte da classe trabalhado­ra ia ao que era chamado de public bar e a classe média ia ao saloon bar. Tudo isso sumiu agora, eles derrubaram as paredes, agora existe um único grande pub. Este tipo de mudanças, acho fascinante. E também a forma como diferentes países, mesmo na Europa, têm estilos de cerveja totalmente diferentes, tem o seu jeito de beber cerveja. Não são exatamente as cervejas, mas as diferenças culturais o que acho fascinante.

A HISTORIA DA CERVEJA E A HISTORIA" DAS PESSOAS

*Esta pergunta foi feita em dezembro de 2020.

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