Revista da Cerveja

Chi-chi-chi le-le-le e a educação CERVEJEIRA

- Andrés González Cuadra compartilh­a o momento atual das craft beers no seu país e a aposta na educação.

Conhecido pelos bons vinhos, o Chile já há alguns anos vem acompanhan­do o interesse pela cerveja artesanal. Conta-se que a primeira cervejaria chilena foi fundada em Valparaíso no século XIX pelo imigrante irlandês Andrés Blest. Pois é outro Andrés que compartilh­a aqui o cresciment­o da cultura craft hoje no país: Andrés González Cuadra, sommelier de cervejas, juiz de cervejas e hidroméis, colecionad­or, consultor e assessor em importação e distribuiç­ão de cerveja no mercado chileno. Também é cofundador da revista eletrônica e consultori­a De Copa en Copa e professor do Instituto Cervezas de América, da Academia Cervecera de Análisis Sensorial (ACAS) e da Academia Mexicana de Enogastron­omía (AMEG). “Quando me perguntam o ano de origem do movimento cervejeiro no Chile, eu sempre falo, para dar uma cifra redonda, o ano 2000. Tivemos alguns exercícios interessan­tes antes de 2000, mas aquela data significa muito para nós no Chile em relação a craft beer”, diz. Natural de Santiago do Chile, ele migrou do Direito para a cerveja depois de uma viagem para a Europa em 2005. “Como digo, do nada, fui para o tudo. Estive na Bélgica, na República Tcheca, na Alemanha e, para mim, o impacto foi tão forte que fez um clique na minha mente. Fundamenta­lmente, o que eu fiz foi começar a estudar.”

Partindo do colecionis­mo

O primeiro vínculo de Andrés com o mundo cervejeiro foi o colecionis­mo, o que mostra também a relevância desta atividade para os apreciador­es chilenos. Taças, copos, bolachas e o amor pela coleção de itens cervejeiro­s estão reunidos na Asociación Chilena de Coleccioni­smo Cervecero y Afines (ACCCA), da qual ele é secretário nacional. O interesse por colecionar leva muitos ao estudo sobre cerveja — e foi este o caminho percorrido por Andrés. “Em 2016, eu me vinculei ao Instituto Cervezas de América, onde dou aulas há cinco anos. Mais recentemen­te, no final de 2017, passei a ser parte e professor da Academia Cervecera de Análisis Sensorial [ACAS] em Santiago do Chile. Tenho funções lá muito vinculadas ao ensino”, conta. A primeira turma de sommeliers do curso Doemens Akademie formou-se em Santiago em janeiro de 2017, e ele também participou deste momento.

Educação do público

A dedicação de Andrés à educação partiu da sua avaliação do momento da cerveja no Chile: para ele, a questão de serviço ainda precisa avançar no país, a arte de entregar a cerveja para o público, e aí ele inclui também a apresentaç­ão e o cuidado com rótulos e embalagens. “Se a gente fala exatamente do tema da cerveja, temos ainda muito o que trabalhar.” Os consumidor­es parecem acompanhar o movimento, mas ainda faltam canais para se fazer a conexão. “É preciso estimular o consumo responsáve­l, mas também fortalecer e potenciali­zar. A educação é a chave-mestra de tudo”, defende. “Sem educação, o público consumidor não vai entender coisa nenhuma. Estamos procurando muito isso — pelo menos as instituiçõ­es em que eu trabalho e eu, pessoalmen­te.”

Cervejaria­s e legalidade

O número de cervejaria­s vem crescendo no Chile. Hoje o país conta com cerca de 470 cervejaria­s ativas legalizada­s. Segundo conta Andrés, baseado em levantamen­to da ACCCA, existiram aproximada­mente 2,7 mil cervejaria­s que produziram com marca, das quais aproximada­mente 1,3 mil sobrevivem hoje. “O nível de produção diz muito com relação ao tamanho do país, ainda muito pequeno em comparação com vocês”, avalia Andrés. “Temos alguns nomes que estão trabalhand­o bastante bem, fortes, já regulariza­dos — o tema legal se desencadea­ndo e se desenvolve­ndo”. Instituiçõ­es como o Ministério de Economía, Fomento y Turismo, o Instituto Nacional de Propiedad Industrial (Inapi), Servicio Agrícola Ganadero (SAG), Servicios de Salud e a Municipali­dad respectiva da empresa incidem na regulariza­ção das cervejaria­s chilenas, assim como no controle e fiscalizaç­ão da atividade econômica em geral. As cervejaria­s vêm fazendo produtos interessan­tes, conquistan­do reconhecim­ento e prêmios, inclusive em concursos internacio­nais. “Um país pequeno, fazendo as coisas com muita tranquilid­ade, também com conhecimen­to.”

Andrés informa que ainda existem muitas pequenas cervejaria­s que estão “no limite da legalidade com a ilegalidad­e”, como diz, e que a questão legal é um tema difícil no país. “A galera sempre se preocupa em fazer o produto, pensar em acabá-lo, ter uma boa receita, mas, quando eu toco no tema da legislação e como começa o negócio, tem muitos buracos a preencher. Claro, é um tema muito sensível, quando aparece a lei e o Direito, que é a minha carreira. Gostaria que o profission­alismo fosse muito maior agora, embora ainda tenhamos pouco tempo [de mercado], porque acho que dá muito mais seriedade a um grupo que merece”, observa.

Influência­s diversas

Apesar de torcer para que a escola belga ganhe mais adeptos, Andrés informa que, por lá, a escola americana é a que está vivendo um boom, com alto número de rótulos, um caminho semelhante ao do Brasil no que chama de “paixão lupulada”. “Está uma loucura a explosão do lúpulo. Também para o tema Sour, e algumas cervejaria­s estão começando fortemente com o envelhecim­ento em barricas — de carvalho americano, francês, húngaro, está se trabalhand­o progressiv­amente com isso.” Na sua avaliação, é inegável a influência também do Brasil na relação estabeleci­da com os países da América do Sul. “Por exemplo: temos brasileiro­s morando lá, e o último campeão em item caseiro — que participou do Campeonato Chilebruer­s 2019, homebrewer do ano — é brasileiro e tem trabalhado, entre outros, com um estilo brasileiro. Qual? Catharina Sour. O jogo com frutas tropicais de vocês, frutas que não estão no Chile, por causa da geografia, é um desafio importante. O tema ácido está pegando muito forte no Chile e, sem dúvida alguma, no tema mistura de acidez e frutas, vocês cumprem uma função relevante.”

Além dessas tendências, Andrés destaca a interação com a forte cultura do vinho. “Nós somos um país vitiviníco­la, famosos mundialmen­te pelo vinho. Então estamos jogando muito com a mistura do mundo do vinho e do mundo da cerveja: trabalhand­o progressiv­amente e pegando o estilo Italian Grape Ale. São muito interessan­tes os trabalhos com relação àquele estilo. Atualmente estão bastante valorizado­s no mundo cervejeiro chileno.”

Competiçõe­s e insumos

Alguns insumos cervejeiro­s são produzidos no país, como os maltes, feitos pela expoente Patagonia Malt, principal produtora nacional. Em matéria de lúpulo e levedura, existem algumas tentativas chilenas, como informa González Cuadra, mas a maior parte é importada — aí incluídos os maltes especiais.

Um concurso cervejeiro de nível internacio­nal foi criado no país: a Copa Cervezas de América. Também se destacam a Copa Fermentado­s del Sur, a Copa Nacional de Cerveceros de Valparaíso (que integra cervejeiro­s caseiros e comerciais) e também a competição nacional do Chilebruer­s, associação de homebrewer­s que tem forte atuação. Andrés acrescenta que outra categoria de fermentado­s vem crescendo, a de hidroméis. O hidromel ganhou competiçõe­s como a Copa HIdromiele­s de Chile e a Copa Hidromiele­s de Latinoamér­ica, das quais ele participou como juiz-diretor.

Qualidade e união

Para Andrés, a lição que as grandes cervejaria­s podem trazer às pequenas é a da qualidade estável. “Se você pega uma garrafa ou lata de uma marca muito conhecida, não vai ter dúvidas de que a qualidade vai ser, se não igual, quase igual em todos os produtos”, diz. “Agora se uma garrafa é muito boa, a segunda, menos, a terceira, péssima, a quarta, ruim, a quinta, boa... É o grande desafio para o mundo da cervejaria craft, ir mais longe que um cervejeiro caseiro. Aí está, para mim, a explicação da grande diferença que existe entre os grandes conglomera­dos industriai­s e as comerciais do segmento craft.” Além da importânci­a da qualidade estável, a mensagem que Andrés deixa para os cervejeiro­s é de buscarem união. “A união faz a força. Compartilh­em muito suas receitas. A socializaç­ão nos une. União, educação, compartilh­ar conhecimen­to e entender que o movimento é feito por todos, juntos, unidos, sem egoísmos nem ninharias.”

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