3.2. Pla­tão

Superguia Enem - Sociologia e Filosofia - - Filosofia -

3.2.1. Vi­da

Pla­tão nas­ceu em Ate­nas, em 427 a.C., no seio de uma fa­mí­lia da an­ti­ga no­bre­za da Áti­ca. Aos vin­te anos co­me­çou a fre­quen­tar os en­si­na­men­tos de Só­cra­tes, que só fi­na­li­za­ri­am com a mor­te do mes­tre. Ten­do pen­sa­do se de­di­car à po­lí­ti­ca, des­de jo­vem Pla­tão se de­cep­ci­o­nou com os trin­ta ti­ra­nos, que con­de­na­ram Só­cra­tes à

mor­te. Após o re­gres­so da de­mo­cra­cia, nos­so au­tor par­ti­ci­pou ati­va­men­te na vi­da po­lí­ti­ca ate­ni­en­se, vi­ven­do, con­tu­do, gran­de frus­tra­ção com o jul­ga­men­to e mor­te de Só­cra­tes.

Dos anos de ju­ven­tu­de, Pla­tão man­te­ve ao lon­go da vi­da o en­si­na­men­to de que só a fi­lo­so­fia po­de­ria fun­dar uma co­mu­ni­da­de hu­ma­na ba­se­a­da na jus­ti­ça.

Pla­tão vi­a­jou a Ci­re­ne, ao Egi­to, ao Sul da Itá­lia e à Si­cí­lia. De re­gres­so a Ate­nas (cer­ca de 387 a.C.), Pla­tão co­me­çou a en­si­nar, pri­mei­ro em público, num ter­re­no que per­ten­cia a Aka­de­mos. Nas­cia, as­sim, a Aca­de­mia platô­ni­ca, uma co­mu­ni­da­de de edu­ca­ção li­vre. Pla­tão ad­qui­riu, por 30.000 drac­mas, um ter­re­no nas pro­xi­mi­da­des da Aca­de­mia ori­gi­nal. Aí foi ci­a­da uma bi­bli­o­te­ca, ten­do pas­sa­do a exis­tir ou­tros re­cur­sos di­dá­ti­cos. A Aca­de­mia platô­ni­ca é a ins­ti­tui­ção mais an­ti­ga des­te gê­ne­ro. Ela ser­viu de mo­de­lo ao Mu­seu, de Ale­xan­dria.

Pla­tão mor­reu em 347 a.C.

3.2.2. Re­fle­xões Con­tra os So­fis­tas

O pri­mei­ro pe­río­do da obra platô­ni­ca é aque­le que cor­res­pon­de à de­fe­sa de Só­cra­tes e à po­lê­mi­ca con­tra os so­fis­tas.

Re­la­ti­va­men­te àque­les que sus­ten­ta­vam, co­mo Pro­tá­go­ras, que as vir­tu­des são mui­tas e a ci­ên­cia ape­nas uma de­las, Só­cra­tes afir­ma­va que a vir­tu­de de que ele fa­la­va não era uma Ci­ên­cia, mas um con­jun­to de ha­bi­li­da­des ad­qui­ri­das aci­den­tal­men­te atra­vés da ex­pe­ri­ên­cia sen­do, por­tan­to, um pa­trimô­nio pri­va­do que não po­dia ser trans­mi­ti­do a qual­quer ou­tra pes­soa. Co­mo nós já sa­be­mos, a par­tir do es­tu­do de Só­cra­tes a ci­ên­cia é en­ten­di­da, por ele, co­mo o cál­cu­lo dos pra­ze­res, ou se­ja, co­mo uma re­gra de con­du­ta pa­ra a vi­da.

A obra de Pla­tão, Pro­tá­go­ras, é um diá­lo­go que re­cu­sa ver no en­si­no dos so­fis­tas qual­quer va­lor edu­ca­ti­vo e for­ma­ti­vo, exis­tin­do na pró­pria so­fís­ti­ca a au­sên­cia de qual­quer con­teú­do hu­ma­no. Há, no en­tan­to, ou­tros as­pec­tos da so­fís­ti­ca que, em ou­tras obras, Pla­tão vai fa­zer a ca­ri­ca­tu­ra e, ao mes­mo tem­po, vai re­jei­tar. Eu­ti­de­mo se di­ri­ge con­tra a erís­ti­ca; Crá­ti­lo cri­ti­ca o ver­ba­lis­mo; Gór­gi­as com­ba­te a re­tó­ri­ca.

De acor­do com Eu­ti­de­mo, a erís­ti­ca era a ar­te de lu­tar com pa­la­vras e de re­fu­tar tu­do aqui­lo que se vai di­zen­do, se­ja fal­so ou ver­da­dei­ro. O er­ro não é pos­sí­vel e se o que for aqui­lo que se dis­se, se diz que a coi­sa é. Lo­go, a coi­sa-di­ta é a coi­sa-ver­da­dei­ra.

Quan­to ao ver­ba­lis­mo, Pla­tão nos per­gun­ta, no Crá­ti­lo, se de­ve­mos ve­ri­fi­car se ele se li­ga à erís­ti­ca, pre­ten­den­do sa­ber se a lin­gua­gem é ver­da­dei­ra­men­te um meio pa­ra en­si­nar a na­tu­re­za das coi­sas, co­mo pen­sa­va Crá­ti­lo, os so­fis­tas e tam­bém An­tís­te­nes. Pla­tão não con­si­de­ra­va que a lin­gua­gem fos­se um pro­du­to das con­ven­ções, co­mo tam­bém não de­fen­dia que os no­mes fos­sem im­pos­tos de ma­nei­ra ar­bi­trá­ria. O no­me, de­fen­de Pla­tão, de­ve ter uma cer­ta exa­ti­dão, ou se­ja, de­ve imi­tar e ex­pri­mir, na me­di­da do pos­sí­vel, por meio de le­tras e de sí­la­bas, a na­tu­re­za da coi­sa sig­ni­fi­ca­da. As­sim:

Su­jei­to ___________________ Ob­je­to

No­me

(in­ter­lo­cu­tor en­tre o que se diz e o que é di­to)

No que se re­fe­re à re­tó­ri­ca, Pla­tão ex­põe, no Gór­gi­as, o de­se­jo de a re­tó­ri­ca pre­ten­der ser uma téc­ni­ca de con­ven­ci­men­to, à qual pa­re­cia ser com­ple­ta­men­te in­di­fe­ren­te a te­se a de­fen­der ou o as­sun­to a ser tra­ta­do. Pla­tão ar­gu­men­ta que, pelo con­trá­rio, to­da a ar­te ou ci­ên­cia só con­se­gue ser ver­da­dei­ra­men­te per­su­a­si­va a res­pei­to de um as­sun­to que lhe se­ja pró­prio. A re­tó­ri­ca não tem, por­tan­to, um ob­je­to pró­prio: ela fa­la acer­ca de tu­do, mas não con­se­gue con­ven­cer se­não os ig­no­ran­tes. Se­gun­do nos­so au­tor, a re­tó­ri­ca não é uma ar­te, mas sim uma prá­ti­ca adu­la­tó­ria.

A po­lê­mi­ca de Pla­tão com os so­fis­tas fez com que vi­es­sem à su­per­fí­cie os pro­ble­mas que es­te ti­po de en­si­no apre­sen­ta­va. Se a vir­tu­de é uma ci­ên­cia, en­tão ela po­de ser apren­di­da e po­de ser en­si­na­da. Mas o que é apren­der? O que é a ci­ên­cia em que a vir­tu­de exis­te? Qual é o ob­je­to des­ta ci­ên­cia, o ser ou a subs­tân­cia so­bre o qual ela se de­bru­ça?

Se­gun­do afir­mam os so­fis­tas, não se po­de apren­der nem o que se sa­be, nem o que não se sa­be. Des­te mo­do, co­mo eles de­fen­dem, nin­guém pro­cu­ra sa­ber se não sa­be o que pro­cu­rar. A es­te prin­cí­pio Pla­tão opõe o mi­to da anam­ne­se, ou re­mi­nis­cên­cia: a al­ma é imor­tal, nas­ceu mui­tas ve­zes e já viu to­das as coi­sas, quer nes­te mun­do, quer no do­mí­nio de Ha­des, o deus do mun­do in­fe­ri­or e dos mor­tos. Não é, pois, de es­pan­tar que a al­ma pos­sa re­lem­brar aqui­lo que an­tes sa­bia. Uma vez que a al­ma já apren­deu tu­do, na­da im­pe­de que, quan­do ela se re­cor­da de uma úni­ca coi­sa – pa­ra Pla­tão, apren­der é re­cor­dar – ela vai en­con­trar tu­do o mais, des­de que não se can­se e te­nha âni­mo.

O mi­to da anam­ne­se ex­pri­me o prin­cí­pio da uni­da­de da na­tu­re­za. A na­tu­re­za do mun­do é uma só e é tam­bém uma com a na­tu­re­za da al­ma. Des­te mo­do, as­si­na­la Pla­tão, se o ho­mem par­tir de uma coi­sa sin­gu­lar, apren­di­da num ato sin­gu­lar, ele po­de pro­cu­rar apren­der ou­tras coi­sas que es­tão li­ga­das àque­la, me­di­an­te su­ces­si­vos atos de apren­di­za­gem que es­tão sem­pre li­ga­dos ao pri­mei­ro ato. Se se co­lo­car a hi­pó­te­se de que a vir­tu­de é uma ci­ên­cia de­ve­mos ad­mi­tir que ela po­de ser apren­di­da e en­si­na­da. Co­mo se en­ten­de, en­tão, que não ha­ja mes­tres e dis­cí­pu­los de vir­tu­de?

Nem os so­fis­tas, nem os ho­mens mais cé­le­bres da Gré­cia sou­be­ram trans­mi­tir a vir­tu­de a seus fi­lhos. Nes­ses ho­mens, a vir­tu­de era uma es­pé­cie de ins­pi­ra­ção di­vi­na, e não a ver­da­dei­ra sa­ge­za. A sa­ge­za, em seu grau mais ele­va­do, é a ci­ên­cia; em seu grau mais bai­xo, a sa­ge­za é a opi­nião ver­da­dei­ra. A opi­nião ver­da­dei­ra se dis­tin­gue da ci­ên­cia por lhe fal­tar uma ga­ran­tia de ver­da­de. As opi­niões aca­bam por se di­luir en­quan­to não fo­rem li­ga­das por meio de um ra­ci­o­cí­nio.

O pro­ble­ma da va­lo­ri­za­ção do co­nhe­ci­men­to sen­sí­vel e do ob­je­to do apren­der vai le­var Pla­tão a for­mu­lar a te­o­ria das idei­as. É no Fé­don que nós en­con­tra­mos al­gu­mas das de­ter­mi­na­ções fun­da­men­tais atri­buí­das por Pla­tão às idei­as:

a) As idei­as são os ob­je­tos es­pe­cí­fi­cos do co­nhe­ci­men­to ra­ci­o­nal;

b) As idei­as são os cri­té­ri­os, ou os prin­cí­pi­os de juí­zo, acer­ca das coi­sas na­tu­rais (exem­plo: pa­ra jul­gar­mos se du­as coi­sas são iguais nós nos ser­vi­mos do con­cei­to de “igual”);

c) As idei­as são as cau­sas das coi­sas na­tu­rais. A imor­ta­li­da­de da al­ma, em Pla­tão, po­de ser de­mons­tra­da com ba­se na te­o­ria das idei­as. Tal co­mo as idei­as, a al­ma é in­vi­sí­vel e, pre­su­mi­vel­men­te, in­des­tru­tí­vel. Além dis­so, a anam­ne­se é ou­tra pro­va da imor­ta­li­da­de da al­ma, uma vez que ela ga­ran­te sua pre­e­xis­tên­cia.

Par­ti­ci­pan­te ne­ces­sá­ria da vi­da, a al­ma não po­de mor­rer: quan­do se apro­xi­ma a mor­te do cor­po, a al­ma não fi­ca sua ví­ti­ma, afas­tan­do-se do cor­po sem so­frer qual­quer da­no, con­ser­van­do sua in­te­li­gên­cia.

3.2.3. O Eros

Pa­ra Pla­tão, o amor ( eros) é o de­se­jo de be­le­za. A be­le­za é de­se­ja­da por­que é o bem que tor­na o ho­mem fe­liz. O ho­mem, mor­tal, ten­de a ge­rar na be­le­za e a se per­pe­tu­ar atra­vés da ge­ra­ção, dei­xan­do atrás de si ou­tro eu que se as­se­me­lhe a ele.

No en­tan­to, diz Pla­tão, a be­le­za tem graus di­fe­ren­tes a que o ho­mem só po­de che­gar por apro­xi­ma­ções su­ces­si­vas, ao lon­go de uma ca­mi­nha­da len­ta. Es­se per­cur­so tem as se­guin­tes eta­pas:

1ª – A be­le­za cor­pó­rea, que atrai e pren­de o ho­mem.

2ª – Re­co­nhe­ci­men­to da be­le­za co­mo sen­do igual em to­dos os cor­pos.

3ª – De­se­jo e von­ta­de de amar to­da a be­le­za cor­pó­rea.

4ª – In­tui­ção da be­le­za da al­ma.

5ª – Be­le­za das ins­ti­tui­ções e das leis.

6ª – Be­le­za das ci­ên­ci­as.

7ª – Be­le­za em si, eter­na e imu­tá­vel, su­pe­ri­or ao de­vir e à mor­te.

O ca­mi­nho da al­ma, des­de o pla­no sen­sí­vel até o pla­no in­te­li­gí­vel, nos diz que a al­ma é imor­tal, se mo­ve por ela e, de ma­nei­ra hu­ma­na e mais bre­ve, po­de­mos ex­pri­mir sua na­tu­re­za por in­ter­mé­dio da ale­go­ria dos ca­va­los ala­dos. Es­cre­ve Pla­tão, no Fe­dro:

A al­ma se as­se­me­lha a uma for­ça na­tu­ral com­pos­ta de um par de ca­va­los ala­dos e do seu co­chei­ro. No nos­so ca­so, o co­chei­ro di­ri­ge um par de­si­gual: um dos ca­va­los do par é be­lo e no­bre e oriun­do de ra­ça tam­bém no­bre, en­quan­to o ou­tro é o con­trá­rio dis­so. Es­sa a ra­zão de ser en­tre nós tarefa di­fi­cí­li­ma a di­re­ção das ré­de­as.

Sem­pre é a al­ma to­da que di­ri­ge o que não tem al­ma e, per­cor­ren­do a to­ta­li­da­de do uni­ver­so atrás do cor­te­jo dos deu­ses, as­su­me for­mas di­fe­ren­tes, de acor­do com os lu­ga­res. Quan­do é per­fei­ta e ala­da, ca­mi­nha nas al­tu­ras e go­ver­na o mun­do em uni­ver­sal. Vin­do a per­der as asas, é ar­ras­ta­da até ba­ter nal­gu­ma coi­sa só­li­da, on­de fi­xa mo­ra­dia.

A vir­tu­de na­tu­ral das asas con­sis­te em le­var o que é pe­sa­do pa­ra as al­tu­ras on­de ha­bi­ta a ge­ra­ção dos deu­ses, sen­do ela, de tu­do o que se re­la­ci­o­na com o cor­po, o que em mais alto grau par­ti­ci­pa do di­vi­no. Ora, o di­vi­no é be­lo, sá­bio, bom e tu­do o mais do mes­mo gê­ne­ro, pois é is­so o que ali­men­ta e faz cres­cer as asas da al­ma, ao pas­so que o feio, o mal e tu­do o mais que se opõe àque­las qua­li­da­des a fa­zem mur­char e pe­re­cer.

Zeus, o guia su­pre­mo, abre a mar­cha no céu com o seu car­ro ala­do, or­de­nan­do tu­do e de tu­do cui­dan­do, se­gui­do por um exér­ci­to de deu­ses e es­pí­ri­tos, re­par­ti­dos em on­ze gru­pos. Só fi­ca Hés­tia na mo­ra­da dos deu­ses; os de­mais, que in­te­gram o nú­me­ro dos 12 deu­ses do­mi­na­do­res, se­guem à fren­te do gru­po pa­ra que fo­ram de­sig­na­dos. In­fi­ni­tos e aben­ço­a­dos são os es­pe­tá­cu­los des­sas re­vo­lu­ções do in­te­ri­or do céu, exe­cu­ta­das pe­la fe­liz ra­ça dos deu­ses, ca­da um na sua es­fe­ra par­ti­cu­lar e acom­pa­nha­do dos que que­rem e po­dem sem­pre se­gui-los (PLA­TÃO, Fe­dro).

Em Pla­tão, o mun­do sen­sí­vel é on­to­lo­gi­ca­men­te de­pen­den­te do mun­do in­te­li­gí­vel. Aqui­lo que nós in­tuí­mos, nes­te mun­do, são as apa­rên­ci­as, ou si­mu­la­ções, da­qui­lo que exis­te em ple­ni­tu­de. Se, co­mo já vi­mos, co­nhe­cer é re­cor­dar, o ato de co­nhe­cer exi­ge, de ca­da um

de nós, um es­for­ço de au­ten­ti­ci­da­de e de per­sis­tên­cia. Nós só con­se­gui­re­mos ul­tra­pas­sar a ilu­são (o mun­do sen­sí­vel) se­guin­do as dis­po­si­ções da al­ma, des­de que ela se oriente pelo amor, ou de­se­jo, da sa­be­do­ria.

3.2.4. A Jus­ti­ça

Pla­tão es­cre­ve em A Re­pú­bli­ca:

Se os fi­ló­so­fos não go­ver­na­rem a ci­da­de ou se aque­le a qu­em ago­ra cha­ma­mos reis ou governantes não cul­ti­va­rem ver­da­dei­ra e se­ri­a­men­te a Fi­lo­so­fia, se o po­der po­lí­ti­co e a Fi­lo­so­fia não coin­ci­di­rem nas mes­mas pes­so­as e a mul­ti­dão dos que ago­ra se ocu­pam ex­clu­si­va­men­te de uma ou de ou­tra não for ri­go­ro­sa­men­te im­pe­di­da de o fa­zer, é im­pos­sí­vel que ces­sem os ma­les da ci­da­de e até os do gê­ne­ro hu­ma­no (PLA­TÃO, A Re­pú­bli­ca, V, 473d).

Dois pro­ble­mas se le­van­tam à co­mu­ni­da­de go­ver­na­da pe­los fi­ló­so­fos, tal co­mo Pla­tão a pro­põe. Eles são aque­les que pas­sa­mos a enun­ci­ar:

1º – Qual é o fun­da­men­to des­ta co­mu­ni­da­de?

2º – Qu­em são os fi­ló­so­fos?

De­ve­mos re­fe­rir que o Es­ta­do que Pla­tão pro­põe tem a vi­da fa­mi­li­ar abo­li­da. Ne­le, em­bo­ra os governantes e os guer­rei­ros não de­vam pos­suir qual­quer ti­po de pro­pri­e­da­de pa­ra além dos mei­os ne­ces­sá­ri­os à sub­sis­tên­cia, o di­rei­to à pro­pri­e­da­de não é re­ti­ra­do dos ar­te­sãos. Por ou­tro la­do, as uniões en­tre os ho­mens e as mu­lhe­res são es­ta­be­le­ci­das pelo Es­ta­do, com o ob­je­ti­vo de pro­cri­a­rem fi­lhos sãos. O Es­ta­do, tal co­mo Pla­tão o te­o­ri­zou, é de ti­po aris­to­crá­ti­co.

O fi­ló­so­fo é, pa­ra Pla­tão, aque­le que ama o co­nhe­ci­men­to em sua to­ta­li­da­de. O que é, en­tão, o co­nhe­ci­men­to? A ci­ên­cia cor­res­pon­de ao ser, que é o co­nhe­ci­men­to ver­da­dei­ro. Por ou­tro la­do, ao não-ser cor­res­pon­de, se­gun­do Pla­tão, a ig­no­rân­cia. Ao de­vir, que fi­ca en­tre o ser eo não-ser, cor­res­pon­de a opi­nião ( do­xa) que se si­tua, por­tan­to, en­tre o co­nhe­ci­men­to e a ig­no­rân­cia. A opi­nião tem, co­mo do­mí­nio es­pe­cí­fi­co, o co­nhe­ci­men­to sen­sí­vel. Já a ci­ên­cia tem, co­mo âm­bi­to que lhe é pró­prio, o co­nhe­ci­men­to ra­ci­o­nal. Am­bas, opi­nião e ci­ên­cia, se di­vi­dem em du­as par­tes, que se cor­res­pon­dem si­me­tri­ca­men­te:

Pa­ra Pla­tão, o ho­mem de­ve se edu­car gra­du­al­men­te, da opi­nião até a in­te­li­gên­cia fi­lo­só­fi­ca. Es­se per­cur­so é des­cri­to por Pla­tão na ale­go­ria da ca­ver­na, na qual o es­for­ço do aces­so ao co­nhe­ci­men­to é, na ver­da­de, o ca­mi­nho das tre­vas ru­mo à luz. Nes­se ca­mi­nho, além da von­ta­de da­que­le que pre­ten­de se li­ber­tar da ig­no­rân­cia é pre­ci­so ter pre­sen­te a lu­ta con­tra a do­xa, que pre­do­mi­na na opi­nião do­mi­nan­te.

Ima­gi­ne ho­mens que vi­vem nu­ma es­pé­cie de mo­ra­da sub­ter­râ­nea, em for­ma de ca­ver­na, que pos­sui uma en­tra­da que se abre em to­da a lar­gu­ra da ca­ver­na pa­ra a luz; no in­te­ri­or des­sa mo­ra­da eles es­tão, des­de a in­fân­cia, acor­ren­ta­dos pe­las per­nas e pelo pes­co­ço, de mo­do a fi­ca­rem imo­bi­li­za­dos no mes­mo lu­gar, só ven­do o que se pas­sa na sua fren­te, in­ca­pa­zes, em vir­tu­de das ca­dei­as, de vi­rar a ca­be­ça. Quan­to à luz, ela lhes vem de um fo­go ace­so nu­ma ele­va­ção ao lon­ge, atrás de­les. Ora, en­tre es­se fo­go e os pri­si­o­nei­ros, ima­gi­na um ca­mi­nho ele­va­do ao lon­go do qual se er­gue um pe­que­no mu­ro, se­me­lhan­te ao ta­bi­que que os exi­bi­do­res de fan­to­ches co­lo­cam à sua fren­te e por ci­ma dos quais exi­bem seus fan­to­ches ao público.

– Es­tou ven­do, dis­se.

– Fi­gu­ra, ago­ra, ao lon­go des­se pe­que­no mu­ro e ul­tra­pas­san­do-o, ho­mens que trans­por­tam ob­je­tos de to­dos os ti­pos co­mo es­ta­tu­e­tas de ho­mens ou ani­mais de pe­dra, de ma­dei­ra, mo­de­la­dos em to­dos os ti­pos de ma­té­ria; den­tre es­ses con­du­to­res, na­tu­ral­men­te, exis­tem aque­les que fa­lam e aque­les que se ca­lam.

– Fa­zes de tu­do is­so uma es­tra­nha des­cri­ção, dis­se, e teus pri­si­o­nei­ros são mui­to es­tra­nhos!

– É a nós que eles se as­se­me­lham, re­tru­quei. Com efei­to, po­des crer que ho­mens em sua si­tu­a­ção te­nham an­te­ri­or­men­te vis­to al­go de si e dos ou­tros, afo­ra as som­bras que o fo­go pro­je­ta na pa­re­de si­tu­a­da à sua fren­te?

– Evi­den­te­men­te!

– Se, por­tan­to, con­se­guis­sem con­ver­sar en­tre si, não achas que to­ma­ri­am por ob­je­tos re­ais as som­bras que avis­tas­sem?

– For­ço­sa­men­te.

– E se, por ou­tro la­do, hou­ves­se eco na pri­são, pro­ve­ni­en­te da pa­re­de que lhes é fron­tei­ra, não achas que, ca­da vez que fa­las­sem um da­que­les que pas­sam ao lon­go do pe­que­no mu­ro, eles po­de­ri­am jul­gar que os sons pro­vi­ri­am das som­bras pro­je­ta­das?

– Não, por Zeus, dis­se ele.

– Por­tan­to, pros­se­gui, os ho­mens que es­tão nes­ta con­di­ção só po­de­rão ter por ver­da­dei­ro as som­bras pro­je­ta­das pe­los ob­je­tos fa­bri­ca­dos.

– É in­tei­ra­men­te ne­ces­sá­rio.

– Con­si­de­ra ago­ra o que na­tu­ral­men­te lhes so­bre­vi­ria se fos­sem li­ber­tos das ca­dei­as e da ilu­são em que se en­con­tram. Se um des­ses ho­mens fos­se li­ber­ta­do e ime­di­a­ta­men­te for­ça­do a se le­van­tar, a vol­tar o pes­co­ço, a ca­mi­nhar, a olhar pa­ra a luz; ao fa­zer tu­do is­so ele so­fre­ria e, em vir­tu­de do ofus­ca­men­to, não po­de­ria dis­tin­guir os ob­je­tos cu­jas som­bras vi­su­a­li­za­ra até en­tão. Que achas que ele res­pon­de­ria se lhe fos­se di­to que tu­do quan­to vi­ra até en­tão não pas­sa­ra de qui­me­ras, mas que, pre­sen­te­men­te, mas per­to da re­a­li­da­de e vol­ta­do pa­ra ob­je­tos mais re­ais, es­ta­ria ven­do de ma­nei­ra mais jus­ta? E se, ao se lhe de­sig­nar ca­da um dos ob­je­tos que pas­sam ao lon­go do mu­ro, fos­se for­ça­do a res­pon­der às per­gun­tas que se lhe fi­zes­se so­bre o que é ca­da um de­les, não achas que ele se per­tur­ba­ria? Não achas que ele con­si­de­ra­ria mais ver­da­dei­ras as coi­sas que vi­ra ou­tro­ra do que aque­las que ago­ra lhe eram de­sig­na­das?

– Sim, dis­se ele, mui­to mais ver­da­dei­ras!

– E se, por ou­tro la­do, ele fos­se obri­ga­do a fi­tar a pró­pria luz, não achas que seus olhos se res­sen­ti­ri­am e que, vol­tan­do-lhe as cos­tas, fu­gi­ria pa­ra jun­to da­que­las coi­sas que é ca­paz de olhar e que lhes atri­bui­ria uma re­a­li­da­de mai­or do que as ou­tras que lhe são mos­tra­das?

– Exa­to, dis­se ele. (PLA­TÃO, A Re­pú­bli­ca)

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