Bre­xit dei­xa acor­do UE-Mer­co­sul mais dis­tan­te, afir­ma es­pe­ci­a­lis­ta

Pa­ra Ve­ra Thors­ten­sen, área fi­nan­cei­ra de­ve ser mais afe­ta­da que co­mér­cio

Valor Econômico - - BRASIL - Fran­cis­co Góes

A saí­da do Rei­no Uni­do da União Eu­ro­peia (UE) te­rá efei­tos de cur­to pra­zo so­bre o mer­ca­do fi­nan­cei­ro e de­ve re­tar­dar a re­cu­pe­ra­ção econô­mi­ca da Eu­ro­pa, afir­ma Ve­ra Thors­ten­sen, di­re­to­ra do Cen­tro do Co­mér­cio Glo­bal e In­ves­ti­men­to da Fun­da­ção Ge­tú­lio Var­gas (FGV). As re­per­cus­sões do “Bre­xit” so­bre o co­mér­cio de­vem ser sen­ti­das em um se­gun­do mo­men­to, ava­li­ou a es­pe­ci­a­lis­ta, que foi as­ses­so­ra econô­mi­ca da Mis­são do Bra­sil em Ge­ne­bra e pre­si­den­te do Co­mi­tê de Re­gras de Ori­gem da OMC. Dou­to­ra pe­la FGV e com pro­gra­mas de pós-dou­to­ra­men­to em Har­vard (EUA), CEPS (Bru­xe­las) e BID (Washing­ton), Ve­ra an­te­ci­pa que, após o Bre­xit, a ne­go­ci­a­ção Mer­co­sul-União Eu­ro­peia (UE) dei­xa de ser pri­o­ri­da­de pa­ra os eu­ro­peus. Leia a se­guir os prin­ci­pais tre­chos da en­tre­vis­ta.

Va­lor: Qual é sua ava­li­a­ção so­bre o sig­ni­fi­ca­do da saí­da do Rei­no Uni­do da União Eu­ro­peia?

Ve­ra Thors­ten­sen: Quem es­tu­dou a his­tó­ria [da in­te­gra­ção] da Eu­ro­pa sa­be que a en­tra­da do Rei­no Uni­do sem­pre foi pro­ble­má­ti­ca. A Eu­ro­pa se for­mou por cau­sa da Ale­ma­nha e da Fran­ça, o nú­cleo, mas te­ve pro­ble­mas. Os in­gle­ses sem­pre fo­ram mem­bros re­lu­tan­tes da União Eu­ro­peia.

Va­lor: A se­nho­ra se sur­pre­en­deu com a de­ci­são?

Ve­ra: Quan­do li o jor­nal de ma­nhã le­vei aque­le cho­que pois es­ta­va se es­pe­ran­do o con­trá­rio. Mas no fun­do não sur­pre­en­de. É [a saí­da] um pro­ces­so lon­go, de dois anos, ne­go­ciá­vel. O Rei­no Uni­do po­de in­te­grar o Es­pa­ço Econô­mi­co Eu­ro­peu [EEE], de que Suí­ça e No­ru­e­ga fa­zem par­te. Em eco­no­mia e co­mér­cio sem­pre se dá um jei­to.

Va­lor: Quais se­to­res de­vem ser mais atin­gi­dos?

Ve­ra: O se­tor que mais se­rá atin­gi­do ago­ra é o se­tor fi­nan­cei­ro. Os ban­cos, pro­va­vel­men­te, vão que­rer ter su­as se­des em Frank­furt, que se­ria o no­vo cen­tro fi­nan­cei­ro da Eu­ro­pa. O im­pac­to se­rá no mer­ca­do fi­nan­cei- ro e nos ban­cos, que es­tão com ex­po­si­ção gran­de. Ha­ve­rá um mo­men­to de cri­se econô­mi­ca e po­lí­ti­ca na Eu­ro­pa. Aí é re­cu­pe­rar. O tem­po é a me­lhor cu­ra. Va­lor: E o co­mér­cio? Ve­ra: O Rei­no Uni­do vai ter que re­ne­go­ci­ar to­dos os acor­dos aos quais per­ten­ce jun­to com a Eu­ro­pa. En­tão, te­o­ri­ca­men­te, se o Rei­no Uni­do sai e não tem acor­do ne­nhum com a Eu­ro­pa tem que pa­gar a Ta­ri­fa Ex­ter­na Co­mum [TEC] da Eu­ro­pa, que é o que a gen­te [Bra­sil] pa­ga. Cer­ta­men­te vai fa­zer acor­do ti­po Es­pa­ço Econô­mi­co Eu­ro­peu. O Es­pa­ço Econô­mi­co Eu­ro­peu foi fei­to anos atrás, lo­go de­pois do alar­ga­men­to da União Eu­ro­peia, e tem pre­ço. Tem que par­ti­ci­par do or­ça­men­to, não é de gra­ça que par­ti­ci­pa. É uma ne­go­ci­a­ção com­pli­ca­da de dois anos e mui­ta coi­sa po­de acon­te­cer.

Va­lor: O mes­mo va­le pa­ra a Amé­ri­ca La­ti­na?

Ve­ra: A Eu­ro­pa tem acor­dos co­mer­ci­ais com to­da a Amé­ri­ca La­ti­na. O que vai acon­te­cer com ca­da país que ne­go­ci­ou com a Eu­ro­pa co­mo blo­co? A ta­ri­fa ex­ter­na da UE se­rá igual à do Rei­no Uni­do? Nin­guém sa­be.

Va­lor: Hou­ve um con­jun­to de fa­to­res que fa­vo­re­ceu a saí­da?

Ve­ra: É um qu­a­dro on­de tem mui­ta coi­sa ne­ga­ti­va acon­te­cen­do jun­to. Fa­zer in­te­gra­ção econô­mi­ca no que se re­fe­re a bens vai bem, mas é mais di­fí­cil quan­do en­vol­ve ser­vi­ços, se­tor fi­nan­cei­ro. E quan­do che­ga na mo­e­da, a In­gla­ter­ra nun­ca en­trou no eu­ro e nem no es­pa­ço de Schen­gen [acor­do so­bre cir­cu­la­ção de pes­so­as en­tre paí­ses eu­ro­peus]. Eu mo­rei anos na Eu­ro­pa. Li­vre cir­cu­la­ção de pes­so­as é mui­to com­pli­ca­do. En­tão jun­tou tu­do, a cri­se e a in­va­são de imi­gran­tes. É mui­to tris­te. Eu sem­pre achei a his­tó­ria da in­te­gra­ção da Eu­ro­pa fas­ci­nan­te, mas tem con­sequên­ci­as. Por que os mais ve­lhos vo­ta­ram con­tra? Que­rem a tal so­be­ra­nia de vol­ta, tem um pre­ço de per­ten­cer ao ‘clu­be’. Ca­da país pa­ga em re­la­ção à sua po­pu­la­ção e ao seu PIB. A In­gla­ter­ra é ri­ca, pa­ga­va mui­to e re­ce­bia [da UE] mui­to di­nhei­ro da agri­cul­tu­ra. Mas di­zia que pa­ga­va mais do que re­ce­bia. Exis­te ani­mo­si­da­de do in­glês con­tra a Eu­ro­pa, sem­pre exis­tiu, en­tão não é sur­pre­sa que is­so acon­te­ça.

Va­lor: A re­cu­pe­ra­ção econô­mi­ca da Eu­ro­pa po­de de­mo­rar mais?

Ve­ra: Sim, apro­fun­da a cri­se econô­mi­ca e fi­nan­cei­ra da Eu­ro­pa que es­tá pen­san­do em re­cu­pe­rar. Es­tá lá o Ban­co Cen­tral Eu­ro­peu [BCE] fa­zen­do um es­for­ço gran­de. Ago­ra [o Bre­xit] cria cli­ma de in­cer­te­za que afe­ta tu­do, in­ves­ti­men­to e co­mér­cio. Ha­ve­rá um mo­men­to de gran­de in­cer­te­za e vo­la­ti­li­da­de e de­pois as coi­sas vão se acal­man­do de no­vo. Não exis­te his­tó­ria [pre­gres­sa] de país sair da Eu­ro­pa, o que eles cha­mam de ‘ad­qui­ri­do co­mu­ni­tá­rio’, o aqui co­mu­ni­tá­rio, é bar­ba­ri­da­de. São le­gis­la­ções so­bre to­dos os as­pec­tos da vi­da econô­mi­ca. É um di­rei­to co­mu­ni­tá­rio que é mais im­por­tan­te que o di­rei­to de ca­da país. A In­gla­ter­ra vai que­rer ser di­fe­ren­te em tu­do? Não ve­jo as­sim por­que [a In­gla­ter­ra] não con­se­gui­ria ex­por­tar. A saí­da [do Rei­no Uni­do] é lon­ga, dois anos pa­ra sair. Tem que ser apro­va­do no par­la­men­to in­glês. E se acon­te­ce al­gu­ma mu­dan­ça? Is­so não es­tá cla­ro.

Va­lor: O acor­do Mer­co­sul-União Eu­ro­peia vai pa­ra o fim da fi­la?

Ve­ra: A ne­go­ci­a­ção [pa­ra a UE] já não era pri­o­ri­tá­ria. Es­tá na fi­la dos in­te­res­ses, re­co­me­çou a ne­go­ci­a­ção. Mas, com uma cri­se des­sas, sin­to mui­to. Mais im­por­tan­te pa­ra eles [UE] é a ne­go­ci­a­ção com os Es­ta­dos Uni­dos [o Acor­do de Par­ce­ria Tran­sa­tlân­ti­ca de Co­mér­cio e In­ves­ti­men­to]. A Eu­ro­pa vai con­ti­nu­ar a fa­zer o [acor­do] tran­sa­tlân­ti­co com os Es­ta­dos Uni­dos sem o Rei­no Uni­do? Tem o acor­do com a Ín­dia que já es­ta­va an­dan­do. Qual era o pa­pel da In­gla­ter­ra nos acor­dos pre­fe­ren­ci­ais que a Eu­ro­pa es­ta­va fa­zen­do? Vá­ri­os acor­dos es­ta­vam mais pró­xi­mos que o Mer­co­sul. En­ten­do que o Rei­no Uni­do até qu­e­ria [o acor­do com o Mer­co­sul], mas a Ir­lan­da era con­tra. Ago­ra, não sei.

Va­lor: Po­de ha­ver efei­tos ne­ga­ti­vos pa­ra os es­for­ços do Bra­sil de au­men­tar as ex­por­ta­ções?

Ve­ra: Ou­vi [na sex­ta-fei­ra] o pre­si­den­te [Te­mer] fa­lan­do de uni­ver­sa­li­za­ção, que a po­lí­ti­ca ex­ter­na do Bra­sil se­rá uni­ver­sal. O Bra­sil vai vol­tar a olhar par­cei­ros e de­fi­nir no­vas pri­o­ri­da­des. Não ve­jo o Bra­sil sen­do afe­ta­do, tal­vez mais na área fi­nan­cei­ra do que o co­mér­cio.

SILVIA ZAMBONI/VA­LOR

Ve­ra Thors­ten­sen, di­re­to­ra do Cen­tro de Co­mér­cio Glo­bal da FGV: “Em eco­no­mia e co­mér­cio, sem­pre se dá um jei­to”

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