No co­man­do do bun­ker

Valor Econômico - - POLÍTICA - Ma­ria Cris­ti­na Fernandes

Com a saí­da do ex-pre­si­den­te Luiz Iná­cio Lu­la da Silva do pá­reo, o se­na­dor Ci­ro No­guei­ra (PP-PI) ain­da não tem can­di­da­to, mas a in­de­fi­ni­ção do qua­dro elei­to­ral é a úl­ti­ma de su­as pre­o­cu­pa­ções. À fren­te da se­gun­da mai­or le­gen­da do país, de­pois de 15 no­vas fi­li­a­ções, o PP se­rá po­der se­ja quem for o pre­si­den­te elei­to.

O se­na­dor des­co­nhe­ce o ru­mo a ser to­ma­do pe­las prin­ci­pais cam­pa­nhas, mas, des­de já, não faz ob­je­ções a quais­quer can­di­da­tos. Tem cer­te­za de que o grau de pul­ve­ri­za­ção é ta­ma­nho que o elei­to, se­ja quem for, se­rá pra lá de mi­no­ri­tá­rio e não po­de­rá pres­cin­dir do seu apoio. Não exa­ta­men­te por­que o PP te­rá uma ban­ca­da gi­gan­tes­ca. Con­ta com 54 ho­je. Espera che­gar a 60.

No dis­cur­so com o qual se co­lo­ca co­mo o fi­a­dor do pró­xi­mo pre­si­den­te da Re­pú­bli­ca, o PP não me­de re­le­vân­cia pe­lo ta­ma­nho. Seu do­cu­men­to é ou­tro. Tor­nar-se um gran­de par­ti­do e não um par­ti­do gran­de. A dan­ça da ad­je­ti­va­ção dis­tin­gue um e ou­tro pe­la uni­da­de.

Ci­ro No­guei­ra te­me gen­te de­mais. Não quer ou­tro MDB. De­sem­bes­ta­da, a le­gen­da do pre­si­den­te da Re­pú­bli­ca per­de va­lor de fa­ce. Des­de a elei­ção, fi­cou des­pro­vi­da de dez ca­dei­ras, uma a mais que o des­fal­que do PT.

O PP não quer lan­çar can­di­da­to a pre­si­den­te e tem can­di­da­tu­ras re­si­du­ais a go­ver­na­dor. O exer­cí­cio do po­der por eme­de­bis­tas e pe­tis­tas en­si­na que ter res­tau­ran­te tal­vez não se­ja o me­lhor ne­gó­cio. Mais van­ta­jo­so é ser mai­tre de equi­pes bem ades­tra­das no par­la­men­to. No­guei­ra es­tá mais pa­ra co­men­sal, mas ser­viu, co­mo nin­guém, aos de­se­jos da­que­les a quem se ali­ou nos úl­ti­mos anos.

O se­na­dor en­tre­gou de ban­de­ja o im­pe­a­ch­ment da ex-pre­si­den­te Dil­ma Rous­seff, de quem foi mi­nis­tro e ali­a­do até a véspera. In­te­gra­va o Cen­trão, blo­co for­ma­do ain­da pe­lo PR, de Val­de­mar Cos­ta Ne­to e o PSD, de Gil­ber­to Kas­sab. Es­te­ve tam­bém na li­nha de fren­te de um Con­gres­so que bar­rou as du­as vo­ta­ções que po­de­ri­am ter cus­ta­do o man­da­to do su­ces­sor, Mi­chel Te­mer.

Com o país nas mãos de um go­ver­no con­gres­su­al, bus­cou uma no­va con­fi­gu­ra­ção com a qual pre­ten­de co­man­dar o Le­gis­la­ti­vo até o fim dos tem­pos. No dia em que o ex-as­ses­sor pre­si­den­ci­al Ro­dri­go Ro­cha Lou­res apa­re­ceu cor­ren­do com uma ma­la de di­nhei­ro, um ca­ci­que do DEM do Nor­des­te bai­xou em Bra­sí­lia. Qu­e­ria o par­ti­do na li­de­ran­ça do im­pe­a­ch­ment de Te­mer.

O de­pu­ta­do Ro­dri­go Maia (DEM-RJ), já na Pre­si­dên­cia da Câ­ma­ra e pri­mei­ro da li­nha su­ces­só­ria, sa­cu­diu-se, mas quis sa­ber a opi­nião de No­guei­ra. O se­na­dor abor­tou a pre­ci­pi­ta­ção dos jo­vens in­ter­lo­cu­to­res. Nun­ca ha­via si­do fla­gra­do ras­gan­do di­nhei­ro. Não se­ria aque­la a pri­mei­ra vez. Aca­ba­ra de der­ru­bar uma pre­si­den­te por­que per­de­ra, em gran­de par­te, seu qui­nhão no go­ver­no. Co­me­ça­va a re­cu­pe­rar o que ti­nha. Ia par­tir pra ci­ma de no­vo a tro­co de que?

O no­vo gol­pe não pros­pe­rou. No­guei­ra e Maia de­ci­di­ram fi­car jun­tos pa­ra o que der e vi­er. Aon­de um vai o ou­tro vai atrás. Se o de­pu­ta­do do DEM vi­er a abrir mão de seus su­per­po­de­res em no­me de uma im­pro­vá­vel Pre­si­dên­cia da Re­pú­bli­ca, o PP não lhe ne­ga­rá o tem­po de te­le­vi­são, ain­da que No­guei­ra, pes­so­al­men­te, pos­sa vir a op­tar por uma can­di­da­tu­ra mais pa­la­tá­vel aos seus elei­to­res. O se­na­dor é can­di­da­to à re­e­lei­ção em ali­an­ça com o go­ver­na­dor de seu Es­ta­do, Wel­ling­ton Di­as (PT).

Jun­tos, PP e DEM têm quase 100 de­pu­ta­dos, que, na me­lhor das hi­pó­te­ses, po­dem che­gar a 120 em ou­tu­bro. Bus­cam se di­fe­ren­ci­ar dos antigos par­cei­ros do Cen­trão com o dis­cur­so de que são mais le­ais ao po­der do que ali­a­dos BBB (boi, ba­la, bí­blia). O dis­cur­so pe­ga, mas é en­fei­ta­do. O Ban­co de Da­dos do Le­gis­la­ti­vo do Ce­brap mos­tra que o par­ti­do com mai­or dis­ci­pli­na par­ti­dá­ria em re­la­ção ao go­ver­no em 2017 foi o MDB. O DEM vem em quar­to e o PP num lon­gín­quo 13 lu­gar.

O ba­lan­ço, pa­ra o PP, tem pou­ca ser­ven­tia. Os nú­me­ros que, pa­ra o par­ti­do, de­mons­tram, de fa­to, seu va­lor de fa­ce são aque­les das du­as vo­ta­ções que im­pe­di­ram a saí­da do atu­al ti­tu­lar. En­tre uma e ou­tra, Te­mer per­deu vo­tos. PR e PSD, cris­tãos-no­vos nes­se ne­gó­cio, re­du­zi­ram seu apoio. O PP e o DEM, de fa­to, au­men­ta­ram sua ade­são ao go­ver­no en­tre os quase três me­ses que se­pa­ra­ram as du­as vo­ta­ções. Mas não fo­ram os úni­cos. O MDB do pre­si­den­te não ape­nas foi o par­ti­do de mai­or sus­ten­ta­ção a Te­mer co­mo fez cres­cer es­se apoio en­tre os dois es­cru­tí­ni­os.

Mas a pro­pa­gan­da é a al­ma des­te ne­gó­cio, a co­me­çar pe­las si­glas. A Are­na de ho­je é li­de­ra­da pe­lo Par­ti­do Pro­gres­sis­ta e pe­lo De­mo­cra­tas. Se o ga­ran­tis­mo es­tá em bai­xa no Su­pre­mo, se­gue a to­do va­por no Le­gis­la­ti­vo. E a re­tri­bui­ção vem a ga­lo­pe.

O PP tem ho­je du­as das pas­tas mais gor­das da Es­pla­na­da, Saú­de e Ci­da­des. O mai­tre não em in­te­res­se em pou­par pa­ra ad­qui­rir res­tau­ran­tes, mas seus gar­çons ra­cham pol­pu­das gor­je­tas. Ci­ro No­guei­ra cons­ti­tuiu uma co­mis­são de cin­co de­pu­ta­dos que vai de­fi­nir os cri­té­ri­os de dis­tri­bui­ção do fun­do par­ti­dá­rio de R$ 134 mi­lhões. Nes­te mo­men­to, a gor­je­ta o blin­da.

Des­de o men­sa­lão, che­fes par­ti­dá­ri­os têm si­do ex­pos­tos à ne­go­ci­a­ção com os fi­nan­ci­a­do­res da po­lí­ti­ca. O fun­do não in­ter­fe­re no va­re­jo da cor­rup­ção, mas re­duz o im­pe­ra­ti­vo des­sa ex­po­si­ção no ata­ca­do da in­dús­tria elei­to­ral. Es­pe­ci­al­men­te num mo­men­to em que a re­la­ção en­tre po­lí­ti­ca e di­nhei­ro es­tá mi­na­da pe­la des­con­fi­an­ça.

Al­vo de de­la­ções, Ci­ro No­guei­ra es­tá de­nun­ci­a­do na La­va-Ja­to. Seu par­ti­do é re­cor­dis­ta em réus na ope­ra­ção. O se­na­dor ado­ta o dis­cur­so de que o país tem que ser pas­sa­do a lim­po e diz não te­mer o efei­to cra­vo-e-fer­ra­du­ra da pri­são de Lu­la. Os ope­ra­do­res do no­vo ei­xo le­gis­la­ti­vo, no en­tan­to, mar­ca­ram o 12 de se­tem­bro da pos­se do mi­nis­tro Di­as Tof­fo­li co­mo o dia em que po­de­rão res­pi­rar mais ali­vi­a­dos.

Es­pe­ram que até lá, a ban­ca­da es­te­ja en­ca­mi­nha­da, com ba­se na en­tre­ga das be­nes­ses elei­to­rais que bons car­gos des­te go­ver­no lhes as­se­gu­ra­ram. Não se pe­ça a No­guei­ra com­pro­mis­so com um pro­gra­ma. De­fen­de a re­du­ção do Es­ta­do, des­de que não lhe cer­quem o quin­tal. E evi­ta se com­pro­me­ter com es­ta ou aque­la re­for­ma da Pre­vi­dên­cia. Não tem dú­vi­das de sua si­gla é de cen­tro-di­rei­ta e iden­ti­fi­ca­da ao agro­ne­gó­cio, mas atri­bui o nor­te à ban­ca­da. É de um de­pu­ta­do do PP, por exem­plo, o re­la­tó­rio que re­pas­sa pa­ra a ta­ri­fa de ener­gia o au­men­to nos cus­tos do gás das usi­nas tér­mi­cas.

O futuro pre­si­den­te, a ser elei­to na era da ca­ça às bru­xas, ten­de a ser mol­da­do pe­lo pren­de-e-ar­re­ben­ta. Por is­so, mais do que nun­ca, o par­ti­do pre­ci­sa se­guir uni­do. É o que man­te­rá seu va­lor de fa­ce, o fio afi­a­do da na­va­lha e os va­lo­res da no­va po­lí­ti­ca.

Úni­ca cer­te­za do PP é que pre­si­den­te elei­to de­le de­pen­de­rá

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