De­si­gual­da­de per­sis­te, mes­mo com a re­a­ção da eco­no­mia

Valor Econômico - - OPI­NIÃO -

Mes­mo com a ex­pan­são da eco­no­mia em 2017, a de­si­gual­da­de se­guiu ele­va­da e aju­da a ex­pli­car em par­te por­que a po­pu­la­ção quei­xa-se de não sen­tir os be­ne­fí­ci­os da re­cu­pe­ra­ção. De­pois de dois anos de re­tra­ção, a ati­vi­da­de econô­mi­ca re­a­giu e cres­ceu 1% no ano pas­sa­do, pu­xa­da es­pe­ci­al­men­te pe­la agri­cul­tu­ra. Mas a de­si­gual­da­de do ren­di­men­to mé­dio men­sal re­al per ca­pi­ta nos do­mi­cí­li­os me­di­da pe­lo ín­di­ce de Gi­ni fi­cou em 0,549 res­pec­ti­va­men­te – qu­an­to mais per­to de 1, pi­or –, o mes­mo pa­ta­mar de 2016, de acor­do com da­dos da Pes­qui­sa Na­ci­o­nal por Amos­tra de Do­mi­cí­li­os (Pnad) Con­tí­nua, do IB­GE. Se­gun­do o le­van­ta­men­to, os 10% mais ri­cos da po­pu­la­ção abo­ca­nha­ram 43,3% da mas­sa de ren­di­men­tos do país, ou R$ 113,9 bi­lhões dos R$ 263,1 bi­lhões men­sais, en­quan­to os 10% mais po­bres fi­ca­ram com ape­nas 0,7%, ou R$ 1,8 bi­lhão. Em ou­tras pa­la­vras, 12,4 mi­lhões de pes­so­as con­cen­tram a ren­da equi­va­len­te à de 99,6 mi­lhões.

Se os nú­me­ros fo­rem olha­dos a fun­do, o qua­dro é ain­da mais ne­ga­ti­vo. A de­si­gual­da­de so­men­te fi­cou es­tá­vel por­que caiu no Su­des­te, mas não pe­lo mo­ti­vo de­se­já­vel de uma re­du­ção da po­bre­za, e sim por­que os mais ri­cos ga­nha­ram me­nos, en­cur­tan­do li­gei­ra­men­te a dis­tân­cia em re­la­ção aos mais po­bres. Is­so acon­te­ceu mais in­ten­sa­men­te no Rio, por con­ta da cri­se fis­cal do Es­ta­do, que atin­giu os fun­ci­o­ná­ri­os pú­bli­cos e tra­ba­lha­do­res da in­dús­tria do pe­tró­leo; e em São Pau­lo, pe­la re­tra­ção in­dus­tri­al. Em ou­tras re­giões do país, a de­si­gual­da­de até au­men­tou, com des­ta­que pa­ra Bra­sí­lia e Ama­zo­nas, que apre­sen­ta­ram ín­di­ce de Gi­ni de 0,604 e 0,602 não mui­to dis­tan­te de Bot­su­a­na (0,605). Se­gun­do a pes­qui­sa do IB­GE, o ín­di­ce de Gi­ni cres­ceu em 15 das 27 uni­da­des da fe­de­ra­ção no ano pas­sa­do, em re­la­ção ao ano an­te­ri­or.

Com ba­se nos mi­cro­da­dos da Pnad Con­tí­nua e cri­té­ri­os do Ban­co Mun­di­al, a LCA Con­sul­to­res cal­cu­lou que o nú­me­ro de pes­so­as em si­tu­a­ção de ex­tre­ma po­bre­za no país pas­sou de 13,34 mi­lhões em 2016 pa­ra 14,83 mi­lhões no ano pas­sa­do, o que sig­ni­fi­ca au­men­to de 11,2% (Va­lor 12/4). Em ou­tras pa­la­vras, mais 1,49 mi­lhão de bra­si­lei­ros mer­gu­lha­ram na mi­sé­ria em um ano, um nú­me­ro que vi­nha di­mi­nuin­do no iní­cio da dé­ca­da. São le­va­das con­si­de­ra­ção to­das as fon­tes de ren­da: tra­ba­lho, pre­vi­dên­cia, pro­gra­mas so­ci­ais, alu­guéis e ou­tras.

Uma das prin­ci­pais cau­sas pa­ra a de­si­gual­da­de per­sis­tir ele­va­da é a si­tu­a­ção do mer­ca­do de tra­ba­lho. O de­sem­pre­go con­ti­nu­ou cres­cen­do até o pri­mei­ro tri­mes­tre do ano pas­sa­do e di­mi­nuiu li­gei­ra­men­te a par­tir daí, de­pois de ter atin­gi­do o pi­co de 13 mi­lhões de de­so­cu­pa­dos. Além dis­so, os es­cas­sos no­vos pos­tos fo­ram cri­a­dos prin­ci­pal­men­te no mer­ca­do in­for­mal, on­de os sa­lá­ri­os são mais bai­xos, e no tra­ba­lho por con­ta pró­pria. A mas­sa de ren­da re­al cres­ceu 2,3% no ano pas­sa­do, após dois anos de re­tra­ção, mas de mo­do con­cen­tra­do.

Hou­ve per­das tam­bém no ren­di­men­to ga­ran­ti­do pe­los pro­gra­mas so­ci­ais. Dos 69,8 mi­lhões do­mi­cí­li­os exis­ten­tes no país, 9,54 mi­lhões re­ce­bi­am re­cur­sos do Bol­sa Fa­mí­lia em 2017, o que re­pre­sen­ta­va 13,7% do to­tal. No Nor­des­te, na­da me­nos do 28,4% dos do­mi­cí­li­os re­ce­bi­am Bol­sa Fa­mí­lia; e no Nor­te, 25,8%. Em 2016, o nú­me­ro era mai­or com um to­tal de 9,86 mi­lhões de do­mi­cí­li­os, o que re­pre­sen­ta­va 14,3% do to­tal. A pes­qui­sa do IB­GE não ques­ti­o­nou o mo­ti­vo da per­da do be­ne­fí­cio, mas sa­be-se que, no ano pas­sa­do, o go­ver­no pas­sou um “pen­te-fi­no” no pro­gra­ma so­ci­al, o que re­sul­tou na saí­da de 5 mi­lhões de fa­mí­li­as e na en­tra­da de 3 mi­lhões de­las. Os nú­me­ros não coin­ci­dem, mas a re­vi­são das con­ces­sões do Bol­sa Fa­mí­lia cer­ta­men­te ex­pli­ca os nú­me­ros. Além dis­so, o va­lor do be­ne­fí­cio fi­cou sem re­a­jus­te no fi­nal do go­ver­no de Dil­ma Rous­seff e só foi cor­ri­gi­do em 12,5% após a pos­se do pre­si­den­te Mi­chel Te­mer, em 2016.

Os nú­me­ros dão uma boa di­men­são do de­sa­fio do país pa­ra me­lho­rar a dis­tri­bui­ção de ren­da, ta­re­fa que pas­sa pe­la me­lho­ria do mer­ca­do de tra­ba­lho e da edu­ca­ção. Per­se­guir es­ses ob­je­ti­vos é ne­ces­sá­rio não só pa­ra se re­du­zir a de­si­gual­da­de, mas tam­bém se im­pul­si­o­nar o cres­ci­men­to da eco­no­mia. O de­sa­fio po­de ser ain­da mai­or por­que ima­gi­na-se que os nú­me­ros po­dem es­tar su­bes­ti­ma­dos da­do que são ob­ti­dos a par­tir de en­tre­vis­tas. Pes­qui­sas fei­tas an­te­ri­or­men­te com ba­se em in­for­ma­ções pres­ta­das à Re­cei­ta Fe­de­ral mos­tra­ram uma con­cen­tra­ção de ren­da ain­da mai­or.

JU­LIO BIT­TEN­COURT/VA­LOR

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