A eco­no­mia es­tá sob o do­mí­nio da po­lí­ti­ca

Valor Econômico - - BRASIL - Clau­dia Sa­fa­tle

Aa­ti­vi­da­de econô­mi­ca es­tá sob o do­mí­nio da po­lí­ti­ca. O in­qui­e­tan­te qua­dro elei­to­ral do país é par­te im­por­tan­te da re­vi­são ge­ne­ra­li­za­da das es­ti­ma­ti­vas de cres­ci­men­to pa­ra es­te ano. O pró­prio go­ver­no re­du­zi­rá seus prog­nós­ti­cos de 3% pa­ra cer­ca de 2,3% a 2,5% na se­ma­na que vem, quando da di­vul­ga­ção do re­la­tó­rio bi­mes­tral de re­cei­tas e des­pe­sas com os no­vos pa­râ­me­tros ma­cro­e­conô­mi­cos.

No mer­ca­do, a mu­dan­ça de rota in­di­ca que a ex­pan­são do PIB de­ve­rá se si­tu­ar en­tre 1,5% e 2,5%. Con­su­mo e in­ves­ti­men­to es­tão fra­cos e não mais se vis­lum­bra o ce­ná­rio que a área econô­mi­ca ima­gi­na­va pa­ra os pró­xi­mos me­ses do ano — com sig­ni­fi­ca­ti­va me­lho­ra no mer­ca­do de tra­ba­lho e na pro­du­ção.

Os si­nais da fra­gi­li­da­de na re­to­ma­da do cres­ci­men­to se con­fir­ma­ram no Ín­di­ce de Ati­vi­da­de Econô­mi­ca do Ban­co Cen­tral (IBC-Br), que te­ve que­da de 0,13% no pri­mei­ro tri­mes­tre des­te ano em re­la­ção ao úl­ti­mo tri­mes­tre de 2017.

O PIB do pri­mei­ro tri­mes­tre de­ve fi­car na ca­sa de 0,2% em com­pa­ra­ção com igual pe­río­do do ano an­te­ri­or e, no ano, em 2,3%, se­gun­do Silvia Ma­tos, eco­no­mis­ta do Ibre/FGV. Pe­lo me­nos dois fa­to­res di­fe­ren­ci­am a mo­des­ta per­for­man­ce do con­su­mo nes­te ano da ex­pan­são do ano pas­sa­do: a de­sin­fla­ção que te­ve im­pac­to po­si­ti­vo na mas­sa de ren­di­men­tos em 2017; e a li­be­ra­ção das con­tas ina­ti­vas do FGTS, que in­je­tou al­gu­mas de­ze­nas de bi­lhões de re­ais na eco­no­mia. A mas­sa am­pli­a­da de ren­di­men­tos, que cres­ceu 5,4% no ano pas­sa­do, de­ve ter acrés­ci­mo de ape­nas 0,4% nes­te exer­cí­cio.

Síl­via Ma­tos es­ti­ma um au­men­to de 2,8% no con­su­mo das fa­mí­li­as e de 0,3% no con­su­mo do go­ver­no. Pa­ra os in­ves­ti­men­tos, a si­tu­a­ção tam­bém não é ani­ma­do­ra. Ela pro­je­ta ex­pan­são de 4,3%. Os ven­tos in­ter­nos e ex­ter­nos es­tão in­ver­ten­do a di­re­ção.

Por ati­vi­da­de, as pro­je­ções são de ex­pan­são de 2,9% pa­ra a in­dús­tria, 1,9% pa­ra a agro­pe­cuá­ria e de 1,8% pa­ra o se­tor de ser­vi­ços. Não há cla­re­za, por en­quan­to, em re­la­ção ao im­pac­to da cri­se na Ar­gen­ti­na so­bre a in­dús­tria au­to­mo­bi­lís­ti­ca bra­si­lei­ra.

Con­tra­ri­an­do a apos­ta dos mer­ca­dos nu­ma can­di­da­tu­ra de cen­tro pa­ra on­de con­ver­gi­ri­am os mai­o­res par­ti­dos, Jair Bol­so­na­ro (PSL) e Ci­ro Go­mes (PDT) são os dois can­di­da­tos que, no mo­men­to, ame­a­çam dis­pu­tar o se­gun­do tur­no das elei­ções.

O pri­mei­ro qu­er ar­mar to­da a po­pu­la­ção e o se­gun­do dis­se, até ago­ra, que vai des­fa­zer tu­do o que o go­ver­no Te­mer fez e que tan­to agra­dou o se­tor re­al da eco­no­mia. “Nes­sa pers­pec­ti­va, fi­ca a per­gun­ta: Quem vai bo­tar a mão no bol­so pa­ra in­ves­tir no país?”, in­da­gou uma al­ta fon­te ofi­ci­al.

Sem cres­ci­men­to da ofer­ta de em­pre­go de boa qua­li­da­de — o que au­men­ta é o em­pre­go in­for­mal — e sem crédito a de­man­da não cres­ce e, sem se­gu­ran­ça no fu­tu­ro, não se au­men­ta o in­ves­ti­men­to. Por­tan­to, não há ele­men­tos pa­ra es­ti­mu­lar a in­ci­pi­en­te re­cu­pe­ra­ção.

“Fal­ta tra­ção na eco­no­mia”, re­su­miu o pre­si­den­te do BNDES, Dyo­go Oli­vei­ra, em en­tre­vis­ta re­cen­te ao Va­lor. Ele atri­bui par­te do ar­re­fe­ci­men­to da ati­vi­da­de ao fra­cas­so da re­for­ma da previdência. As ex­pec­ta­ti­vas mu­da­ram, se­gun­do Dyo­go, quando fi­cou cla­ro que não ha­ve­ria mais vo­ta­ção da pro­pos­ta de re­for­ma nes­te ano.

A in­fla­ção, em con­tra­par­ti­da, es­tá sob con­tro­le, bai­xa e até bem pou­co tem­po ha­via o ris­co de o IPCA re­pe­tir 2017 e fu­rar o pi­so da me­ta. Es­se con­for­to per­mi­tiu ao Ban­co Cen­tral re­du­zir a Se­lic por 12 ve­zes con­se­cu­ti­vas.

Os ju­ros saí­ram de 14,25% ao ano em ou­tu­bro de 2016 pa­ra 6,5%. Pe­lo ní­vel de ati­vi­da­de e pe­la in­fla­ção, po­de­ri­am cair mais.

O Co­mi­tê de Po­lí­ti­ca Mo­ne­tá­ria (Co­pom), no en­tan­to, en­cer­rou na quar­ta-fei­ra o ci­clo de cor­te da ta­xa Se­lic, em uma de­ci­são sur­pre­en­den­te pa­ra a mai­o­ria do mer­ca­do, mas muito cor­re­ta, na vi­são de vá­ri­os eco­no­mis­tas da área fi­nan­cei­ra.

Há um cho­que cam­bi­al vin­do da mu­dan­ça do ce­ná­rio ex­ter­no, oriun­do da nor­ma­li­za­ção da po­lí­ti­ca mo­ne­tá­ria ame­ri­ca­na. O au­men­to dos ju­ros nos Es­ta­dos Uni­dos di­mi­nui o ape­ti­te ao ris­co e atrai in­ves­ti­do­res que es­ta­vam apli­ca­dos em eco­no­mi­as emer­gen­tes. On­tem os ju­ros dos tí­tu­los ame­ri­ca­nos de dez anos atin­gi­ram 3,1%. Há uma mu­dan­ça do pa­ra­dig­ma de ju­ros re­al no mun­do, no­tou uma fon­te.

O dó­lar, que se for­ta­le­ce fren­te às de­mais mo­e­das, acu­mu­la apre­ci­a­ção de 18% so­bre o re­al em do­ze me­ses, com im­pac­to so­bre a in­fla­ção do­més­ti­ca.

As ex­pec­ta­ti­vas de in­fla­ção pa­ra es­te ano, se­gun­do a pes­qui­sa Focus do BC, en­con­tram-se em tor­no de 3,5%. O co­mu­ni­ca­do do Co­pom res­sal­tou, po­rém, que no ce­ná­rio com ju­ros cons­tan­tes a 6,50% ao ano e a ta­xa de câm­bio cons­tan­te a R$ 3,60 por dó­lar, as pro­je­ções de in­fla­ção so­bem pa­ra cer­ca de 4,0% nes­te e no pró­xi­mo ano. On­tem o dó­lar en­cer­rou o dia co­ta­do a R$ 3,70.

O ris­co de ter­mi­nar 2018 com a in­fla­ção me­di­da pe­lo IPCA abai­xo do pi­so da me­ta, por­tan­to, se dis­si­pa di­an­te das no­vas con­di­ções ex­ter­nas. A me­ta é de um IPCA de 4,5% com mar­gem de to­le­rân­cia de 1,5 pon­to per­cen­tu­al, com pi­so de 3% e te­to de 6%.

O Co­pom mos­trou-se pre­o­cu­pa­do e foi con­ser­va­dor, tra­tan­do de pre­ser­var as con­quis­tas da po­lí­ti­ca de de­sin­fla­ção con­du­zi­da nos úl­ti­mos dois anos até aqui.

O co­mi­tê re­co­nhe­ceu no co­mu­ni­ca­do que, di­an­te dos cho­ques ex­ter­nos, há ris­co de su­bi­da da in­fla­ção e foi fir­me no pro­pó­si­to de não to­le­rar pres­sões in­fla­ci­o­ná­ri­as.

A Se­lic de 6,50% ao ano de­ve­rá per­ma­ne­cer inal­te­ra­da nas pró­xi­mas reu­niões do Co­pom. O co­mi­tê sa­li­en­tou, po­rém, que “os pró­xi­mos pas­sos da po­lí­ti­ca mo­ne­tá­ria con­ti­nu­a­rão de­pen­den­do da evo­lu­ção da ati­vi­da­de econô­mi­ca, do ba­lan­ço de ris­cos e das pro­je­ções e ex­pec­ta­ti­vas de in­fla­ção”.

Fi­ca cla­ro que o Co­pom não he­si­ta­rá em ele­var os ju­ros se es­ti­ver em ris­co uma de­san­co­ra­gem das ex­pec­ta­ti­vas de in­fla­ção, as­sim co­mo tam­bém es­tá cla­ro que é pre­ci­so mais do que a que­da da ta­xa bá­si­ca de ju­ros pa­ra pro­du­zir cres­ci­men­to e pros­pe­ri­da­de no país.

É pre­ci­so mais do que a que­da da Se­lic pa­ra o país cres­cer

Newspapers in Portuguese

Newspapers from Brazil

© PressReader. All rights reserved.