Lu­cros so­bem com mar­gem aper­ta­da

Ga­nho lí­qui­do das em­pre­sas cres­ce 15,8% no tri­mes­tre; re­cei­tas em­pa­tam com os cus­tos

Valor Econômico - - EMPRESAS - Pau­la Sel­mi e Mar­cel­le Gutierrez Mar­cha len­ta

Os re­sul­ta­dos das com­pa­nhi­as aber­tas no pri­mei­ro tri­mes­tre fo­ram melhores do pon­to de vis­ta ope­ra­ci­o­nal, mas com mar­gens de lu­cro pra­ti­ca­men­te es­tá­veis, o que de­sa­pon­tou em al­guns ca­sos. O com­por­ta­men­to con­fir­mou a ex­pec­ta­ti­va de re­cu­pe­ra­ção econô­mi­ca mais len­ta no pe­río­do. Ain­da as­sim, por con­ta de uma ba­se de com­pa­ra­ção muito fra­ca, o lu­cro lí­qui­do agre­ga­do das em­pre­sas cres­ceu 15,8% em ter­mos no­mi­nais, na com­pa­ra­ção anu­al.

Pa­ra es­te tri­mes­tre e os de­mais, o te­mor dos es­pe­ci­a­lis­tas é quan­to à re­to­ma­da tí­mi­da dos ne­gó­ci­os e, so­bre­tu­do, o im­pac­to da al­ta do dó­lar so­bre as dí­vi­das em mo­e­da es­tran­gei­ra.

O levantamento do Va­lor Da­ta in­cluiu 263 com­pa­nhi­as de ca­pi­tal aber­to e não fi­nan­cei­ras, to­ta­li­zan­do um lu­cro fi­nal, atri­buí­do aos con­tro­la­do­res, de R$ 20,3 bi­lhões de ja­nei­ro a mar­ço. A re­por­ta­gem op­tou por des­con­si­de­rar os nú­me­ros das gi­gan­tes Pe­tro­bras, Va­le e Ele­tro­bras, pa­ra não dis­tor­cer a vi­são ge­ral da si­tu­a­ção das ou­tras em­pre­sas. Se fos­sem in­cluí­das, a evo­lu­ção do lu­cro se­ria subs­tan­ci­al­men­te me­nor, de ape­nas 3,7%.

Hou­ve um avan­ço de 10,6% da re­cei­ta lí­qui­da, pa­ra R$ 350,2 bi­lhões, no com­pa­ra­ti­vo anu­al. Em ter­mos anu­a­li­za­dos, as ven­das au­men­tam 2,4% an­te o quar­to tri­mes­tre de 2017. Na­que­le pe­río­do, no en­tan­to, a re­cei­ta ha­via su­bi­do 3,3% con­tra o tri­mes­tre ime­di­a­ta­men­te an­te­ri­or.

A de­sa­ce­le­ra­ção ocor­reu en­tre as em­pre­sas di­re­ta­men­te li­ga­das ao con­su­mo do­més­ti­co e fi­cou ní­ti­da nas mar­gens es­tá­veis, ava­li­ou Ka­rel Lu­ke­tic, che­fe da área de aná­li­se da XP In­ves­ti­men­tos. “Em li­nhas ge­rais, os re­sul­ta­dos de­cep­ci­o­na­ram com mar­gens mais fra­cas do que o es­pe­ra­do pe­lo mer­ca­do, prin­ci­pal­men­te dos no­mes li­ga­dos à ati­vi­da­de econô­mi­ca”, afir­mou.

Pe­lo acom­pa­nha­men­to do Va­lor, a mar­gem bru­ta do to­tal das em­pre­sas ana­li­sa­das fi­cou es­tá­vel em 27,5% no pri­mei­ro tri­mes­tre, e a mar­gem Ebitda (lu­cro an­tes de ju­ros, im­pos­tos, de­pre­ci­a­ção e amor­ti­za­ção) su­biu ape­nas 0,3 pon­to per­cen­tu­al, pa­ra 18,6%.

De acor­do com ana­lis­tas, os da­dos mais fra­cos da in­dús­tria, co­mér­cio e ser­vi­ços já se re­fle­tem no Pro­du­to In­ter­no Bru­to (PIB) do pri­mei­ro tri­mes­tre. O Ín­di­ce de Ati­vi­da­de Econô­mi­ca do Ban­co Cen­tral (IBC-BR), uma es­pé­cie de pré­via do PIB, re­gis­trou re­tra­ção de 0,13% en­tre ja­nei­ro e mar­ço em re­la­ção ao quar­to tri­mes­tre de 2017. É o pri­mei­ro re­sul­ta­do ne­ga­ti­vo des­de o úl­ti­mo tri­mes­tre de 2016. Outro si­nal de per­da de im­pul­so no cres­ci­men­to do con­su­mo veio da pi­o­ra no ín­di­ce de em­pre­gos, co­mo re­fle­xo da ra­ci­o­na­li­za­ção de cus­tos pe­las com­pa­nhi­as. O de­sem­pre­go no país foi de 13,1%, em mé­dia, no pri­mei­ro tri­mes­tre, de acor­do com da­dos do IB­GE. É a mai­or ta­xa de de­sem­pre­go tri­mes­tral do Bra­sil des­de maio do ano pas­sa­do, quando o ín­di­ce foi um pou­co su­pe­ri­or e atin­giu 13,3%.

O levantamento do Va­lor mos­trou ain­da que o Ebitda, ge­ral­men­te usa­do pa­ra me­dir o de­sem­pe­nho ope­ra­ci­o­nal das com­pa­nhi­as, cres­ceu 12%, pa­ra R$ 62,1 bi­lhões no tri­mes­tre. Os ana­lis­tas ob­ser­va­ram que as ven­das e o de­sem­pe­nho ope­ra­ci­o­nal fo­ram po­si­ti­va­men­te im­pac­ta­dos por me­lho­ri­as co­mer­ci­ais e ini­ci­a­ti­vas de mar­ke­ting.

Car­los Edu­ar­do Ro­cha, só­cio e res­pon­sá­vel pe­la as­set do Bra­sil Plu­ral, afir­mou que co­mo “não há um gran­de cres­ci­men­to no Bra­sil”, o de­sem­pe­nho po­si­ti­vo es­tá muito es­pe­cí­fi­co na es­tra­té­gia das em­pre­sas. “Al­gu­mas com­pa­nhi­as têm cres­ci­men­to pró­prio e es­tão me­nos de­pen­den­tes de in­fluên­ci­as ex­ter­nas”, afir­mou. Pa­ra ele, is­so é im­por­tan­te pa­ra ga­ran­tir a so­bre­vi­vên­cia, es­pe­ci­al­men­te em ano elei­to­ral co­mo em 2018.

Ro­cha men­ci­o­nou, por exem­plo, a ges­tão da lo­ca­do­ra de au­to­mó­veis Lo­ca­li­za, que pri­o­ri­zou o cres­ci­men­to or­gâ­ni­co an­te fu­são e aqui­si­ções e bus­cou di­ver­si­fi­car cli­en­tes, e a es­tra­té­gia do Ma­ga­zi­ne Lui­za de in­te­gra­ção de lo­jas fí­si­cas e in­ter­net. No ca­so da lo­ca­do­ra de au­to­mó­veis, hou­ve um au­men­to de 36% na re­cei­ta, 34% no Ebitda e de 46% no lu­cro. Já a va­re­jis­ta, apre­sen­tou re­cei­ta 29% mai­or, Ebitda com al­ta de 33% e avan­ço de 152% no ga­nho lí­qui­do.

Outro exem­plo é a Es­tá­cio, que en­con­trou di­fi­cul­da­des com a re­du­ção do fi­nan­ci­a­men­to es­tu­dan­til (Fi­es) e bus­cou cri­ar um pro­gra­ma de par­ce­la­men­to de men­sa­li­da­des pa­ra atrair alu­nos, além da ex­pan­são de en­si­no a dis­tân­cia (EAD). A com­pa­nhia de edu­ca­ção apu­rou in­cre­men­to de 14% da re­cei­ta, 54% no Ebitda e de 62% no lu­cro.

Pa­ra os pró­xi­mos me­ses, no en­tan­to, as pre­o­cu­pa­ções ge­rais quan­to ao rit­mo da re­to­ma­da econô­mi­ca ga­nha­ram um com­po­nen­te im­por­tan­te: o câm­bio. En­quan­to a mo­e­da ame­ri­ca­na su­biu ape­nas 0,5% de ja­nei­ro a mar­ço, a al­ta ve­ri­fi­ca­da do iní­cio abril até o dia 16 de maio era de 10,7%. Em mar­ço, a co­ta­ção era de R$ 3,32. O pa­ta­mar ago­ra é na ca­sa dos R$ 3,60 a R$ 3,70.

Se­gun­do es­pe­ci­a­lis­tas, o dó­lar de­ve se­guir pres­si­o­na­do, prin­ci­pal­men­te em ra­zão das in­cer­te­zas quan­to às elei­ções no país e pe­lo con­tur­ba­do am­bi­en­te ex­ter­no. Na pes­qui­sa Focus do Ban­co Cen­tral, a pro­je­ção máxima é de que o dó­lar che­ga­rá a R$ 3,81 em ou­tu­bro, quando acon­te­ce o pri­mei­ro tur­no elei­to­ral.

A pes­qui­sa do Va­lor re­ve­lou que a dí­vi­da fi­nan­cei­ra lí­qui­da de um uni­ver­so de 228 com­pa­nhi­as au­men­tou 5,6% no fim de mar­ço des­te ano an­te igual mês de 2017, al­can­çan­do R$ 496,2 bi­lhões. Ape­sar do vo­lu­me mai­or, con­fron­tan­do as obri­ga­ções com o Ebitda anu­a­li­za­do, o ní­vel de ala­van­ca­gem das em­pre­sas mos­tra me­lho­ra no com­pa­ra­ti­vo anu­al, pas­san­do de 2,20 ve­zes pa­ra 2,09 ve­zes. O in­di­ca­dor mos­tra que a ge­ra­ção de cai­xa cres­ceu mais que o en­di­vi­da­men­to.

“Pa­ra o se­gun­do tri­mes­tre, a al­ta do dó­lar an­te o re­al de­ve be­ne­fi­ci­ar as ex­por­ta­do­ras de ce­lu­lo­se. Por outro la­do, as com­pa­nhi­as aé­re­as de­vem ser pe­na­li­za­das com o au­men­to do cus­to dos com­bus­tí­veis e al­ta tam­bém do pre­ço do pe­tró­leo”, des­ta­ca Lu­ke­tic, da XP In­ves­ti­men­tos.

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