Sin­di­ca­tos per­dem 2 mi­lhões de as­so­ci­a­dos

Em dois anos, au­men­to da in­for­ma­li­da­de le­vou a mu­dan­ças; tra­ba­lho no do­mi­cí­lio tam­bém cres­ceu

Valor Econômico - - BRASIL - Bru­no Vil­las Bôas

A per­da de em­pre­gos com car­tei­ra as­si­na­da no país afe­tou a re­pre­sen­ta­ção sin­di­cal nos úl­ti­mos anos. Da­dos di­vul­ga­dos on­tem pe­lo IBGE mos­tram que os sin­di­ca­tos bra­si­lei­ros ti­nham 16,3 mi­lhões de as­so­ci­a­dos no ano pas­sa­do, qua­se 2 mi­lhões a me­nos do que dois anos an­tes (18,2 mi­lhões em 2015). É o ní­vel mais bai­xo des­de 2012, pri­mei­ro ano de re­a­li­za­ção da pes­qui­sa.

“De 2015 pa­ra 2016, o país per­deu mais 1 mi­lhão de ocu­pa­ções e a per­da foi mai­or en­tre pes­so­as de car­tei­ra as­si­na­da, que cos­tu­mam ter mai­or pe­so de sin­di­ca­li­za­dos. Já no ano pas­sa­do, a recuperação do em­pre­go ocor­reu nas ocu­pa­ções sem car­tei­ra, me­nos sin­di­ca­li­za­das”, dis­se Adriana Be­rin­guy, ana­lis­ta da Co­or­de­na­ção de Tra­ba­lho e Ren­di­men­to do IBGE.

Des­ta for­ma, a ta­xa de sin­di­ca­li­za­ção dos tra­ba­lha­do­res (em­pre­ga­dos e não em­pre­ga­dos) re­cu­ou de 13,1% em 2015 pa­ra 11,5% em 2017. Foi tam­bém o me­nor pa­ta­mar da sé­rie his­tó­ri­ca da pes­qui­sa do IBGE, ini­ci­a­da em 2012. Se con­si­de­ra­dos ape­nas os tra­ba­lha­do­res em­pre­ga­dos, a ta­xa de sin­di­ca­li­za­ção re­cu­ou de 15,8% em 2015 pa­ra 14,4% em 2017, me­nor da sé­rie.

A des­fi­li­a­ção sin­di­cal foi mai­or na in­dús­tria (-547 mil ), na agri­cul­tu­ra (-336 mil) e na ad­mi­nis­tra­ção pú­bli­ca (-175 mil) de 2015 a 2017. To­das as gran­des re­giões do país ti­ve­ram re­du­ção no nú­me­ro de sin­di­ca­li­za­dos, com des­ta­que pa­ra Su­des­te (-682 mil sin­di­ca­li­za­dos), Nor­des­te (-591 mil) e Sul (-551 mil) no pe­río­do ana­li­sa­do.

Pa­ra o IBGE, a re­for­ma trabalhista não te­ve ain­da in­fluên­cia so­bre os re­sul­ta­dos de 2017. A lei afe­tou a ati­vi­da­de sin­di­cal ao de­ter­mi­nar o fim da obri­ga­to­ri­e­da­de do im­pos­to sin­di­cal, en­tre ou­tras me­di­das. A ana­lis­ta lem­brou que lei en­trou em vi­gor no fim de no­vem­bro do ano pas­sa­do e a pes­qui­sa foi a cam­po em di­fe­ren­tes tri­mes­tres de 2017.

A pes­qui­sa mos­trou ain­da que, 3,2 mi­lhões de pes­so­as de­sen­vol­ve­ram su­as ati­vi­da­des na pró­pria re­si­dên­cia no ano pas­sa­do, 443 mil a mais do que em 2016. O cres­ci­men­to es­ta­ria re­la­ci­o­na­do ao mai­or nú­me­ro de tra­ba­lha­do­res por con­ta pró­pria.

Já o nú­me­ro de bra­si­lei­ros que tra­ba­lham em vi­as ou áre­as pú­bli­cas — co­mo ca­melôs, ven­de­do­res de quen­ti­nhas, dis­tri­bui­do­res de pan­fle­tos — tam­bém cres­ceu, em­bo­ra em rit­mo mais modesto. Em 2017, 2,07 mi­lhões de pes­so­as tra­ba­lha­vam em vi­as ou área pú­bli­cas, 15 mil a mais do que no ano an­te­ri­or.

A sur­pre­sa da pes­qui­sa veio do cam­po. Ape­sar da sa­fra re­cor­de de 2017, o to­tal de tra­ba­lha­do­res ocu­pa­dos em fa­zen­das, gran­jas, sí­ti­os ou chá­ca­ras fi­cou me­nor. Eram 8,17 mi­lhões de pes­so­as ocu­pa­das nes­ses lo­cais na­que­le ano, 274 mil pes­so­as a me­nos do que em 2016, con­for­me os da­dos do IBGE.

De acor­do com a téc­ni­ca, a re­du­ção foi mais in­ten­sa no Nor­te e Nor­des­te do país, re­giões ca­rac­te­ri­za­das pe­la exis­tên­cia da agri­cul­tu­ra fa­mi­li­ar. “Não es­ta­mos fa­lan­do do gran­de agro­ne­gó­cio, que ba­teu re­cor­de em 2017, mais con­cen­tra­do no Cen­tro-Oes­te”, dis­se Adriana, lem­bran­do que a re­gião Nor­des­te so­freu com a se­ca ao lon­go do pe­río­do.

Os da­dos do IBGE que mos­tram as mu­dan­ças no mer­ca­do de tra­ba­lho bra­si­lei­ro che­gam um dia após o pre­si­den­te elei­to, Jair Bol­so­na­ro, con­fir­mar que o Mi­nis­té­rio do Tra­ba­lho e Em­pre­go se­rá ex­tin­to. A no­tí­cia con­ti­nu­ou sus­ci­tan­do re­a­ções. O Fó­rum Na­ci­o­nal de Se­cre­ta­ri­as do Tra­ba­lho (Fon­set) ata­cou a pro­pos­ta: “Se­ria um er­ro his­tó­ri­co”. A atu­al equi­pe da pas­ta pre­ten­de apre­sen­tar ar­gu­men­tos e pro­pos­tas pa­ra ten­tar re­ver­ter a de­ci­são. On­tem, ser­vi­do­res do mi­nis­té­rio fi­ze­ram uma manifestação em de­fe­sa da per­ma­nên­cia da pas­ta. Se­gun­do a ad­mi­nis­tra­ção do edi­fí­cio-se­de do mi­nis­té­rio, cer­ca de 600 ser­vi­do­res abra­ça­ram o pré­dio, nu­ma de­mons­tra­ção de re­pú­dio à ex­tin­ção do ór­gão.

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