Do­cu­men­tos em­ba­sam acu­sa­ção

Valor Econômico - - POLÍTICA - An­dré Guilherme Vieira

Além do de­poi­men­to de An­to­nio Pa­loc­ci so­bre su­pos­ta ne­go­ci­a­ção do ex-pre­si­den­te Luiz Iná­cio Lu­la da Silva com o lobista Mau­ro Mar­con­des pa­ra re­pas­sar milhões a Luis Cláu­dio, filho ca­çu­la do pe­tis­ta, o Mi­nis­té­rio Pú­bli­co Fe­de­ral (MPF) con­ta com do­cu­men­tos — que­bras de si­gi­lo, pe­rí­ci­as e emails — pa­ra sus­ten­tar a acu­sa­ção.

De­la­tor, Pa­loc­ci foi ou­vi­do on­tem co­mo tes­te­mu­nha de acu­sa­ção em ação pe­nal que tra­mi­ta na 10 Va­ra Fe­de­ral Criminal de Bra­sí­lia. So­men­te o re­la­to de­le po­de­rá ser le­va­do em con­ta. Nes­ta fa­se pro­ces­su­al, a de­la­ção pre­mi­a­da no ex-mi­nis­tro não po­de­rá ser adi­ci­o­na­da aos au­tos co­mo pro­va.

Lu­la é acu­sa­do de acer­tar pro­pi­na de R$ 2,5 milhões da Ca­oa (Hyun­dai) e da MMC Au­to­mo­to­res (Mit­su­bishi) a seu filho, em tro­ca de isen­ções fis­cais a mon­ta­do­ras.

A in­ves­ti­ga­ção re­ve­lou que a LFT Mar­ke­ting Es­por­ti­vo, em­pre­sa da qual Luis Clau­dio é do­no, te­ve evo­lu­ção patrimonial de 770% em no­ve me­ses, “sem ex­pli­ca­ção lí­ci­ta”.

“Lu­la re­ce­beu di­nhei­ro por in­ter­mé­dio do filho Luis Cláu­dio, tor­nan­do-o um mi­li­o­ná­rio num in­ter­va­lo de ape­nas no­ve me­ses (ju­nho de 2014 a mar­ço de 2015), va­len­do-se de uma or­ga­ni­za­ção cri­mi­no­sa que for­mou com o ca­sal Mau­ro Mar­con­des e Cris­ti­na Mau­to­ni”, afir­ma o MPF na denúncia.

O di­nhei­ro na con­ta cor­ren­te da LFT au­men­tou de R$ 160,4 mil, em 2011, pa­ra R$ 3,9 milhões em 2015, apon­ta re­la­tó­rio de análise da Corregedoria-Ge­ral do Mi­nis­té­rio da Fa­zen­da (Co­ger) jun­ta­do ao pro­ces­so.

De ju­nho de 2014 a mar­ço de 2015, a em­pre­sa Mar­con­des & Mau­to­ni (M&M) realizou 9 trans­fe­rên­ci­as ban­cá­ri­as à em­pre­sa de Luis Clau­dio, to­ta­li­zan­do R$ 2,552 milhões. De acor­do com os pro­cu­ra­do­res da Re­pú­bli­ca, a ex­pec­ta­ti­va era de re­ce­bi­men­to de R$ 4 milhões, além de R$ 300 mil anu­ais a se­rem pa­gos pe­la Ca­oa, en­tão cli­en­te do es­cri­tó­rio e in­te­res­sa­da na pror­ro­ga­ção dos be­ne­fí­ci­os fis­cais, se­gun­do a acu­sa­ção.

Mas a pro­cu­ra­do­ria dis­se que o to­tal de R$ 4,3 milhões não foi al­can­ça­do, por­que a Ope­ra­ção Ze­lo­tes foi de­fla­gra­da em 26 de mar­ço de 2015 e “ini­biu os acu­sa­dos” de dar pros­se­gui­men­to aos pla­nos.

Em com­pu­ta­do­res de Mau­ro Mar­con­des e Cris­ti­na apre­en­di­dos com au­to­ri­za­ção ju­di­ci­al pe­la Po­lí­cia Fe­de­ral (PF), os in­ves­ti­ga­do­res en­con­tra­ram mi­lha­res de e-mails.

Há re­gis­tros de que Luis Cláu­dio foi quatro vezes à se­de da M&M e que Lu­la, seu filho e Mau­ro Mar­con­des tam­bém man­ti­ve­ram en­con­tros em quatro opor­tu­ni­da­des no Ins­ti­tu­to Lu­la, em São Paulo.

Pa­ra o MPF, as reu­niões ser­vi­ram pa­ra com­bi­nar a for­ma do pa­ga­men­to das su­pos­tas van­ta­gens in­de­vi­das. Uma das pro­vas apon­ta­das é a cons­ta­ta­ção de que as mi­nu­tas dos con­tra­tos fo­ram ela­bo­ra­das qua­se dois me­ses após a da­ta in­for­ma­da co­mo sen­do a da as­si­na­tu­ra dos do­cu­men­tos.

Um dos e-mails re­la­ci­o­na com­pro­mis­sos de Lu­la e a mar­ca­ção de uma reu­nião do ex-pre­si­den­te e de seu filho com Mau­ro Mar­con­des, em 18 de mar­ço de 2014 no Ins­ti­tu­to Lu­la.

“Des­se en­con­tro, na pre­sen­ça fí­si­ca de Lu­la, saí­ram as di­re­tri­zes dos pa­ga­men­tos ao filho e a for­ma de ocul­ta­ção da na­tu­re­za des­ses re­pas­ses”, afir­mou a acu­sa­ção.

Se­gun­do o MPF, o pri­mei­ro contrato fal­so de con­sul­to­ria da M&M com a LFT Mar­ke­ting foi fir­ma­do em 2 de ju­nho de 2014, no va­lor de R$ 1 mi­lhão a pre­tex­to de “ela­bo­ra­ção de análise de mar­ke­ting es­por­ti­vo pa­ra a in­dús­tria au­to­mo­bi­lís­ti­ca na­ci­o­nal, vi­san­do a Co­pa do Mun­do de 2014 e as Olim­pía­das de 2016”.

Os pro­cu­ra­do­res ale­gam não ha­ver dú­vi­das de que, ao me­nos des­de se­tem­bro de 2012, Lu­la ti­nha co­nhe­ci­men­to da es­tra­té­gia uti­li­za­da por Mau­ro Mar­con­des — de con­ven­cer as em­pre­sas cli­en­tes do es­cri­tó­rio M & M de que o em­pre­sá­rio man­ti­nha re­la­ção de proximidade com ex-pre­si­den­te. Pa­ra o MPF, Lu­la te­ria vis­lum­bra­do a opor­tu­ni­da­de de ga­ran­tir o en­ri­que­ci­men­to do filho, va­len­do-se do tra­ba­lho de fun­ci­o­ná­ri­os do Ins­ti­tu­to Lu­la que, por meio de ligações te­lefô­ni­cas e e-mails, ‘fil­tra­vam’ as con­ver­sas.

“As­sim, ele [Lu­la] não subs­cre­via men­sa­gens e os in­te­res­sa­dos num con­ta­to di­re­to ti­nham que agen­dar en­con­tro pes­so­al”.

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