Após 75 anos, EUA vol­tam a ser ex­por­ta­dor lí­qui­do de pe­tró­leo

Com ex­plo­ra­ção do xisto, país re­duz de­pen­dên­cia de im­por­ta­ção

Valor Econômico - - INTERNACIONAL - Ja­vi­er Blas Com­pra de pe­tró­leo pe­los EUA

Os Es­ta­dos Uni­dos pas­sa­ram a ser ex­por­ta­do­res lí­qui­dos de pe­tró­leo na se­ma­na pas­sa­da, rom­pen­do 75 anos de de­pen­dên­cia con­tí­nua do pe­tró­leo es­tran­gei­ro e atin­gin­do um mar­co im­por­tan­te — ain­da que por um bre­ve pe­río­do — em di­re­ção ao que o pre­si­den­te ame­ri­ca­no, Do­nald Trump, clas­si­fi­cou de “in­de­pen­dên­cia ener­gé­ti­ca”.

A mu­dan­ça pa­ra as ex­por­ta­ções lí­qui­das é o re­sul­ta­do de um bom de­sem­pe­nho sem pre­ce­den­tes da pro­du­ção de pe­tró­leo dos EUA, com a ex­plo­ra­ção de mi­lha­res de po­ços em uma área que vai da ba­cia de Per­mi­an, no oeste dos Es­ta­dos do Te­xas e do No­vo Mé­xi­co, às for­ma­ções ge­o­ló­gi­cas de Bak­ken na Da­ko­ta do Nor­te e Mar­cel­lus na Pen­sil­vâ­nia.

Os EUA há anos vi­nham ca­mi­nhan­do nes­sa di­re­ção, mas o da­do da se­ma­na pas­sa­da mos­trou uma gran­de que­da nas im­por­ta­ções e um sal­to nas ex­por­ta­ções, que atin­gi­ram um pa­ta­mar re­cor­de.

Da­da à vo­la­ti­li­da­de dos in­di­ca­do­res se­ma­nais, os EUA pro­va­vel­men­te con­ti­nu­a­rão sen­do um pe­que­no im­por­ta­dor lí­qui­do na mai­or par­te do tem­po. “Es­ta­mos nos tor­nan­do a mai­or po­tên­cia ener­gé­ti­ca do mun­do”, dis­se Mi­cha­el Lyn­ch, pre­si­den­te da Stra­te­gic Energy & Eco­no­mic Re­se­ar­ch. “Mas, co­mo a mu­dan­ça é gra­du­al ao lon­go do tem­po, não acho que ela se­rá mo­ti­vo de uma gran­de re­vo­lu­ção. É pre­ci­so pen­sar que a Or­ga­ni­za­ção dos Paí­ses Ex­por­ta­do­res de Pe­tró­leo (Opep) te­rá de le­var is­so em con­si­de­ra­ção qu­an­do pen­sar em cor­tar a pro­du­ção.”

A re­vo­lu­ção do xisto trans­for­mou pe­que­nos pros­pec­to­res de pe­tró­leo em bi­li­o­ná­ri­os e os EUA no mai­or produtor mundial da com­mo­dity, su­pe­ran­do a Rússia e a Arábia Sau­di­ta. O po­der da OPEP foi re­du­zi­do, en­fra­que­cen­do uma das mai­o­res for­ças ge­o­po­lí­ti­cas do úl­ti­mo meio sé­cu­lo.

O car­tel e seus ali­a­dos es­tão reu­ni­dos em Vi­e­na nes­ta se­ma­na, ten­tan­do fa­zer uma du­ra es­co­lha de cor­tar a pro­du­ção pa­ra apoi­ar os pre­ços, ar­ris­can­do com is­so per­der mais participação de mer­ca­do pa­ra os EUA.

Na se­ma­na pas­sa­da, os EUA ven­de­ram no mer­ca­do in­ter­na­ci­o­nal um to­tal lí­qui­do de 211.000 bar­ris de pe­tró­leo por dia e re­fi­na­ram pro­du­tos co­mo ga­so­li­na e óleo di­e­sel, em com­pa­ra­ção com as im­por­ta­ções lí­qui­das mé­di­as de mais de 2 milhões de bar­ris/dia em 2018, até ago­ra. O pi­co anu­al de mais de 12 milhões de bar­ris/dia ocor­reu em 2005, se­gun­do a Energy In­for­ma­ti­on Ad­mi­nis­tra­ti­on (EIA), dos EUA.

Se­gun­do da­dos da EIA, os EUA vêm sen­do um im­por­ta­dor lí­qui­do de pe­tró­leo des­de 1991, se­gun­do da­dos se­ma­nais, e des­de 1973, se­gun­do da­dos men­sais. His­to­ri­a­do­res do pe­tró­leo que com­pi­la­ram da­dos anu­ais ain­da mais an­ti­gos, usan­do estatísticas do Ame­ri­can Pe­tro­leum Ins­ti­tu­te, dis­se­ram que o país é um im­por­ta­dor lí­qui­do de pe­tró­leo des­de 1949, qu­an­do Har­ry Tru­man ocu­pa­va a Ca­sa Bran­ca.

No papel, a mu­dan­ça pa­ra ex­por­ta­dor lí­qui­do de pe­tró­leo sig­ni­fi­ca que os EUA são ho­je in­de­pen­den­tes em ener­gia, al­can­çan­do uma as­pi­ra­ção re­tó­ri­ca de ge­ra­ções de po­lí­ti­cos ame­ri­ca­nos, de Jimmy Car­ter a George W. Bush. Mes­mo as­sim, tra­ta-se de uma conquista frá­gil: na ver­da­de, os EUA se­guem ex­pos­tos aos pre­ços mun­di­ais de ener­gia e con­ti­nu­am sen­do afe­ta­dos pe­la ve­lha ge­o­po­lí­ti­ca do Ori­en­te Mé­dio.

Em­bo­ra o sal­do lí­qui­do mostre que os EUA es­tão ven­den­do mais pe­tró­leo do que com­pran­do, as re­fi­na­ri­as ame­ri­ca­nas con­ti­nu­am com­pran­do milhões de bar­ris de pe­tró­leo bru­to e com­bus­tí­veis nos mer­ca­dos in­ter­na­ci­o­nais to­dos os di­as. Os EUA im­por­tam mais de 7 milhões de bar­ris/dia de to­das as par­tes do mun­do, pa­ra aju­dar a su­prir su­as re­fi­na­ri­as, que con­so­mem mais de 17 milhões de bar­ris por dia. Em tro­ca, os EUA se tor­na­ram o prin­ci­pal for­ne­ce­dor de com­bus­tí­veis do mun­do.

“Os EUA são ago­ra um gran­de con­cor­ren­te no mer­ca­do ex­por­ta­dor”, diz Bri­an Kes­sens, que ajuda a ge­ren­ci­ar US$ 16 bi­lhões na Tor­toi­se de Le­awo­od, no Kan­sas. “Con­ti­nu­a­mos re­for­mu­lan­do nos­sa in­fra­es­tru­tu­ra de exportação ao lon­go da Cos­ta do Gol­fo [do Mé­xi­co] pa­ra am­pli­ar a ca­pa­ci­da­de, e a de­man­da glo­bal por pe­tró­leo con­ti­nua vi­go­ro­sa.”

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