Te­mor de re­ces­são dei­xa mer­ca­do mais vo­lá­til

De­pois de cair cer­ca de 3%, Wall Stre­et se recupera no fi­nal

Valor Econômico - - FINANÇAS - Ro­ber­ta Cos­ta, Jo­sé de Cas­tro e An­dré Mi­zu­ta­ni

Os mer­ca­dos glo­bais so­fre­ram on­tem mais uma on­da de li­qui­da­ção de ati­vos de ris­co, que atin­giu de ações de paí­ses de­sen­vol­vi­dos a mo­e­das emer­gen­tes, pas­san­do pe­las com­mo­di­ti­es, co­mo o pe­tró­leo. Em Wall Stre­et, no en­tan­to, per­to do fim do pre­gão as bol­sas de va­lo­res re­cu­pe­ra­ram boa par­te das per­das do dia, fe­chan­do dis­tan­te das mí­ni­mas. Além de mui­tas ações atin­gi­rem pre­ços con­si­de­ra­dos baixos de­mais pa­ra elas, o tom mais cau­te­lo­so de mem­bros do Fe­de­ral Re­ser­ve (Fed, o banco central ame­ri­ca­no) em re­la­ção a no­vas al­tas de juros deu im­pul­so fi­nal ao mer­ca­do.

A pri­são de uma exe­cu­ti­va de al­to escalão e her­dei­ra da em­pre­sa chi­ne­sa Hu­awei de­fla­grou as ven­das de on­tem. O even­to foi vis­to no mer­ca­do co­mo um ele­men­to que po­de­ria co­lo­car mais le­nha na guer­ra co­mer­ci­al en­tre Es­ta­dos Uni­dos e Chi­na.

No pi­or mo­men­to do dia, o S&P 500 caiu 2,91%, o Dow Jo­nes ce­deu 3,14% e o Nas­daq per­deu 2,43%. Es­se pon­to coin­ci­diu com o tom­bo das bol­sas na Europa. O ín­di­ce Stoxx 600, que reú­ne um am­plo con­jun­to de ações do con­ti­nen­te, caiu 3,09%, na mai­or que­da em dois anos e meio. O ín­di­ce DAX, da bol­sa de Frank­furt, fe­chou em bai­xa de 3,48%, en­quan­to em Lon­dres o FTSE 100 des­ceu 3,15%. Em Paris, o CAC 40 re­cu­ou 3,31%. No fim do pre­gão em Wall Stre­et, o que se viu foi o ín­di­ce S&P 500 com le­ve que­da de 0,15%, aos 2.695,95 pon­tos. O Dow Jo­nes ce­deu 0,32%, aos 24.947,67 pon­tos. E o Nas­daq Com­pos­to aca­bou por fe­char em al­ta, de 0,42%, aos 7.188,26 pon­tos.

“A ques­tão co­mer­ci­al en­tre EUA e Chi­na es­tá to­tal­men­te em aber­to, e o que pa­re­ce cer­to é que os mer­ca­dos vão co­me­çar 2019 en­fren­tan­do mais vo­la­ti­li­da­de”, alerta Gus­ta­vo Rangel, eco­no­mis­ta no banco ING em No­va York.

A re­cu­pe­ra­ção de No­va York não atin­giu to­dos os se­to­res da mes­ma for­ma. Seg­men­tos mais sen­sí­veis aos ci­clos de cres­ci­men­to econô­mi­co con­ti­nu­a­ram em bai­xa, evi­den­ci­an­do o grau de an­si­e­da­de e in­cer­te­za do mer­ca­do. Al­gu­mas mé­tri­cas ado­ta­das por eco­no­mis­tas já in­di­cam pe­lo me­nos 20% de pro­ba­bi­li­da­de de re­ces­são nos EUA den­tro de 12 me­ses.

A re­a­ção do mer­ca­do eu­ro­peu — que deve se re­cu­pe­rar na aber­tu­ra de ho­je, em res­pos­ta ao de­sem­pe­nho fi­nal de No­va York — veio de­pois de um dia já bas­tan­te ne­ga­ti­vo na Ásia, após a notícia da pri­são da exe­cu­ti­va chi­ne­sa. O ín­di­ce Nik­kei 225, da bol­sa de Tó­quio, per­deu 1,91%. A que­da nas bol­sas chi­ne­sas foi ain­da mais for­te. O ín­di­ce Shenzhen Com­pos­to caiu 2,44%, e o Hang Seng, de Hong Kong, de­cli­nou 2,47%.

Em ou­tro si­nal de que in­ves­ti­do­res es­tão em bus­ca de ati­vos mais se­gu­ros em meio à pi­o­ra das ex­pec­ta­ti­vas, as ta­xas de juros de tí­tu­los so­be­ra­nos de­sa­ba­ram, mo­vi­men­to co­e­ren­te com pers­pec­ti­va de en­fra­que­ci­men­to da ati­vi­da­de econô­mi­ca. A taxa do Tre­a­sury de dez anos, re­fe­rên­cia pa­ra o mer­ca­do glo­bal de ren­da fi­xa, che­gou a cair pa­ra 2,845% ao ano, mí­ni­ma des­de agos­to. No fe­cha­men­to, fi­cou em 2,872%, an­te 2,921% do dia an­te­ri­or.

A di­re­to­ra fi­nan­cei­ra da Hu­awei, Meng Wanzhou, foi de­ti­da por au­to­ri­da­des ca­na­den­ses em Van­cou­ver. A pri­são, ocor­ri­da em 1 de de­zem­bro, só ago­ra foi no­ti­ci­a­da. Meng é fi­lha do fun­da­dor da Hu­awei, Ren Zheng­fei. A notícia jo­gou uma pá de cal no já frá­gil oti­mis­mo vis­to no co­me­ço da se­ma­na, lo­go de­pois de os pre­si­den­tes ame­ri­ca­no e chi­nês te­rem che­ga­do a uma tré­gua de 90 di­as na tensão co­mer­ci­al. O me­do é que a re­a­ção negativa e vo­lá­til dos mer­ca­dos aca­be ge­ran­do aper­to adi­ci­o­nal de con­di­ções fi­nan­cei­ras, o que ame­a­ça ti­rar ain­da mais fô­le­go da eco­no­mia.

“Com to­das as in­for­ma­ções de que dis­po­mos até ago­ra e com a re­a­va­li­a­ção dos mer­ca­dos so­bre o acor­do, acre­di­ta­mos que os 90 di­as ter­mi­na­rão com os Es­ta­dos Uni­dos ele­van­do de 10% pa­ra 20% a alí­quo­ta so­bre US$ 200 bi­lhões em pro­du­tos chi­ne­ses”, diz em no­ta Ma­ri­na Grushin, vi­ce­pre­si­den­te de pes­qui­sa glo­bal de investimento do Gold­man Sa­chs.

O epi­só­dio en­vol­ven­do a exe­cu­ti­va da Hu­awei atin­ge os mer­ca­dos num mo­men­to em que in­ves­ti­do­res de­mons­tram ca­da vez mais pre­o­cu­pa­ções com o rit­mo da eco­no­mia mundial. Es­se re­ceio já de­ri­va dos efei­tos do con­fli­to ta­ri­fá­rio en­tre as du­as mai­o­res eco­no­mi­as do mun­do. Já se espera que a eco­no­mia ame­ri­ca­na de­sa­ce­le­re no pró­xi­mo ano, mas o ques­ti­o­na­men­to ago­ra é se a ati­vi­da­de po­de per­der ain­da mais fô­le­go por cau­sa da de­te­ri­o­ra­ção do sen­ti­men­to dos in­ves­ti­do­res.

Pa­ra pi­o­rar, a cur­va de ren­di­men­tos dos bô­nus ame­ri­ca­nos so­freu nes­ta se­ma­na a pri­mei­ra in­ver­são em mais de uma dé­ca­da — ou seja, as ta­xas de al­guns ven­ci­men­tos de lon­go pra­zo caí­ram abai­xo dos yi­elds dos prazos mais cur­tos. Tra­di­ci­o­nal­men­te, es­se mo­vi­men­to é vis­to co­mo uma in­di­ca­ção de que in­ves­ti­do­res ve­em mais ris­co de re­ces­são, o que le­va­ria o Fed a cor­tar os juros no fu­tu­ro pa­ra es­ti­mu­lar a eco­no­mia. Por is­so, a que­da dos juros de lon­go pra­zo pa­ra abai­xo dos pa­ta­ma­res de cur­to pra­zo.

Os prazos mais acom­pa­nha­dos co­mo me­di­do­res dos ris­cos de re­ces­são são os de dez e dois anos. Nes­ta se­ma­na, o spre­ad en­tre os “yi­elds” des­ses dois ven­ci­men­tos che­gou a cair a 9 pon­tos-ba­se, menor pa­ta­mar des­de 2007. A úl­ti­ma vez que es­sa di­fe­ren­ça caiu abai­xo de ze­ro foi em 2006. Em de­zem­bro de 2007, os EUA en­tra­ram em re­ces­são.

Nos cál­cu­los do Ci­ti, a in­ver­são da cur­va de Tre­a­su­ri­es en­tre os vér­ti­ces de cin­co e dois anos in­di­ca 21,5% de pro­ba­bi­li­da­de de que os EUA entrem em re­ces­são nos pró­xi­mos 12 me­ses. Mas Cathe­ri­ne Mann, eco­no­mis­ta-che­fe glo­bal do Ci­ti, pon­de­ra que, no mo­men­to, os da­dos econô­mi­cos dos EUA ain­da não con­fir­mam ris­cos mais al­tos de uma re­ces­são no cur­to pra­zo. Ela ci­ta a for­te lei­tu­ra re­cen­te do ín­di­ce ISM pa­ra o setor ma­nu­fa­tu­rei­ro, de­vi­do ao sal­to em no­vas en­co­men­das — o que deve aju­dar a dar su­por­te à ati­vi­da­de nos pró­xi­mos tri­mes­tres. E mes­mo na zo­na do eu­ro, on­de a ati­vi­da­de agre­ga­da re­cu­ou no­va­men­te em no­vem­bro, há si­nais de alí­vio, so­bre­tu­do na Ale­ma­nha, que viu re­cu­pe­ra­ção em su­as en­co­men­das à in­dús­tria.

A gran­de ques­tão, con­tu­do, vem da si­tu­a­ção co­mer­ci­al en­tre EUA e Chi­na, se­gun­do Cathe­ri­ne, pa­ra quem es­se pro­ble­ma con­ti­nu­a­rá afe­tan­do os mer­ca­dos a me­nos que a Chi­na pro­mo­va mu­dan­ças es­tru­tu­rais. “O ce­ná­rio pa­ra co­mér­cio ex­te­ri­or em 2019 po­de­rá in­cluir no­vas ta­ri­fas por par­te dos EUA e res­tri­ções a in­ves­ti­men­tos nos se­to­res de tec­no­lo­gia, o que po­ten­ci­al­men­te se alas­tra­rá pa­ra ou­tras eco­no­mi­as”, afir­ma a eco­no­mis­ta em no­ta.

E é nes­se con­tex­to de mais me­do de um no­vo declínio econô­mi­co que os agen­tes fi­nan­cei­ros têm re­du­zi­do dras­ti­ca­men­te as apos­tas em al­tas de juros pe­lo Fed até o fim do ano que vem.

Com ba­se em con­tra­tos fu­tu­ros da Bol­sa Mer­can­til de Chi­ca­go, a pro­ba­bi­li­da­de de o Fed man­ter os juros es­tá­veis no en­con­tro de po­lí­ti­ca mo­ne­tá­ria des­te mês es­tá per­to de 30%, em tor­no de má­xi­mas des­de se­tem­bro. A chan­ce de os juros fi­ca­rem es­tá­veis en­tre 2% e 2,25% ao ano até o fim de 2019 foi de 1,4% um mês atrás pa­ra 9,3% on­tem, de­pois de su­pe­rar 10% no pi­co do dia. A pro­ba­bi­li­da­de de que o Fed su­ba os juros ape­nas uma vez en­tre ho­je e o fim do ano que vem pra­ti­ca­men­te em­pa­tou com as chan­ces de pe­lo me­nos du­as al­tas.

Na vi­são de Rangel, do ING, é jus­ta­men­te a pos­si­bi­li­da­de de o Fed en­cer­rar o ci­clo de al­tas de juros no ano que vem que po­de­rá ofe­re­cer al­gum alí­vio aos mer­ca­dos, a des­pei­to dos pro­ble­mas de or­dem co­mer­ci­al. “Te­mos vis­to es­te ano os pre­ços ex­tra­po­lan­do pa­ra am­bos os la­dos. De­pois des­ta se­ma­na ruim, não se­ria es­tra­nho o mer­ca­do re­cu­pe­rar uma boa par­te des­sas per­das.” Ele res­sal­va que fal­ta um “ca­ta­li­sa­dor” mais cla­ro pa­ra se di­zer que o atu­al ci­clo econô­mi­co es­tá per­to do fim. “Nos­sas pre­mis­sas pa­ra a eco­no­mia e os mer­ca­dos não mu­dam por cau­sa des­ses di­as ruins das úl­ti­mas se­ma­nas.”

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