Tensão EUA-Chi­na tem efei­to in­cer­to no re­al

Valor Econômico - - FINANÇAS - Alex Ri­bei­ro

A gan­gor­ra da co­ta­ção da mo­e­da ame­ri­ca­na on­tem ilus­tra as re­per­cus­sões con­tra­di­tó­ri­as, pa­ra o Brasil, do pos­sí­vel acir­ra­men­to da guer­ra co­mer­ci­al en­tre Chi­na e Es­ta­dos Uni­dos. O dó­lar ba­teu na má­xi­ma de R$ 3,94 de­pois da notícia da pri­são de uma exe­cu­ti­va da Hu­awei, mas fe­chou em R$ 3,87, pra­ti­ca­men­te es­tá­vel em re­la­ção ao dia an­te­ri­or

O eco­no­mis­ta Lí­vio Ri­bei­ro, es­pe­ci­a­lis­ta em câm­bio da Fun­da­ção Ge­tú­lio Var­gas (FGV), afir­ma que o con­fli­to tem re­per­cus­sões em di­re­ções di­fe­ren­tes so­bre os quatro prin­ci­pais de­ter­mi­nan­tes da taxa de câm­bio no Brasil: pre­ços das com­mo­di­ti­es, co­ta­ção in­ter­na­ci­o­nal do dó­lar, aver­são a ris­co e juros dos Es­ta­dos Uni­dos.

“O efei­to lí­qui­do de to­dos es­ses fa­to­res so­bre a taxa de câm­bio no Brasil é, no mo­men­to, in­cer­to”, afir­ma Ri­bei­ro, que é vin­cu­la­do ao Ins­ti­tu­to Bra­si­lei­ro de Eco­no­mia (Ibre) da FGV.

Pe­lo la­do da Chi­na, o con­tá­gio mais di­re­to no Brasil é por meio dos pre­ços das com­mo­di­ti­es, afe­tan­do os com­ple­xos de mi­né­rio de fer­ro, so­ja e pe­tró­leo, que res­pon­dem por 40% da pau­ta de ex­por­ta­ções. Mas as in­cer­te­zas afe­tam tam­bém os pre­ços de pro­du­tos im­por­ta­dos pe­lo Brasil, co­mo in­su­mos e bens in­dus­tri­ais. “O efei­to lí­qui­do nos ter­mos de tro­ca é um pou­co menor do que po­de­ria se su­por olhan­do ape­nas os pre­ços das com­mo­di­ti­es”, diz.

A Chi­na vem di­ri­gin­do su­as re­ta­li­a­ções aos Es­ta­dos Uni­dos for­te­men­te à so­ja ame­ri­ca­na, o que pro­vo­ca a que­da das co­ta­ções des­se pro­du­to na bol­sa de Chi­ca­go. A so­ja do Brasil es­tá sen­do ne­go­ci­a­da com prê­mio em re­la­ção a Chi­ca­go, mas tam­bém so­fre com a que­da nas co­ta­ções ame­ri­ca­nas, que não dei­xam de ser a prin­ci­pal re­fe­rên­cia in­ter­na­ci­o­nal. Além dis­so, a de­sa­ce­le­ra­ção da Chi­na ten­de a re­du­zir a de­man­da pe­la so­ja bra­si­lei­ra.

No ca­so do mi­né­rio de fer­ro, Ri­bei­ro con­si­de­ra que os im­pac­tos ten­dem a ser ate­nu­a­dos ao lon­go do tem­po, já que a Chi­na vem con­cen­tran­do os seus es­tí­mu­los a sua eco­no­mia no setor de in­fra­es­tru­tu­ra. “Mais pa­ra fren­te, as pers­pec­ti­vas pa­ra o mi­né­rio de fer­ro não são tão ruins.”

A de­sa­ce­le­ra­ção da eco­no­mia dos Es­ta­dos Uni­dos, por ou­tro la­do, tem re­for­ça­do as apos­tas dos mer­ca­dos de que o Fe­de­ral Re­ser­ve (Fed, o banco central ame­ri­ca­no) po­de­rá su­bir me­nos os seus juros bá­si­cos no ano que vem. A que­da nos juros de mer­ca­do é, ho­je, a prin­ci­pal for­ça que atua na con­tra­mão na des­va­lo­ri­za­ção da taxa de câm­bio no Brasil.

Do la­do ne­ga­ti­vo, po­rém, a guer­ra co­mer­ci­al en­tre Es­ta­dos Uni­dos e Chi­na au­men­ta a aver­são a ris­co nos mer­ca­dos, o que ten­de a pres­si­o­nar a taxa de câm­bio no Brasil. Mas a di­nâ­mi­ca da co­ta­ção do dó­lar no Brasil, afir­ma Ri­bei­ro, tem si­do for­te­men­te in­flu­en­ci­a­da pe­la evo­lu­ção da co­ta­ção do dó­lar no res­to do mun­do.

A de­sa­ce­le­ra­ção da eco­no­mia ame­ri­ca­na e o rit­mo de al­ta mais su­a­ve de juros pe­lo Fed, em te­se, fa­vo­re­ce­ri­am um en­fra­que­ci­men­to do dó­lar. Mas, pon­de­ra Ri­bei­ro, as con­di­ções econô­mi­cas e mo­ne­tá­ri­as no res­to do mun­do tam­bém são de­ter­mi­nan­tes im­por­tan­tes. Eco­no­mi­as da Europa e a Chi­na es­tão apre­sen­tan­do de­sa­ce­le­ra­ção. A mai­or aver­são a ris­co afe­ta eco­no­mi­as emer­gen­tes, co­mo Ar­gen­ti­na, Tur­quia e Áfri­ca do Sul. Além dis­so, qu­an­do os pre­ços de com­mo­di­ti­es ca­em, o dó­lar cos­tu­ma se for­ta­le­cer no mun­do to­do.

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