Nú­cle­os su­ge­rem IPCA em al­ta, mas com­por­ta­do em 2019

Evo­lu­ção len­ta no pre­ço de ser­vi­ços tam­bém vai aju­dar a man­ter in­fla­ção mais per­to do pi­so da me­ta

Valor Econômico - - BRASIL - Thais Car­ran­ça e Bruno Vil­las Bôas

A in­fla­ção ten­de a ace­le­rar em 2019, com re­a­jus­tes nos pre­ços de ser­vi­ços pu­xa­dos pe­la gra­du­al me­lho­ra do em­pre­go e mai­or es­pa­ço pa­ra as em­pre­sas re­pas­sa­rem cus­tos aos con­su­mi­do­res, re­cu­pe­ran­do mar­gens. Ain­da as­sim, os pre­ços de ser­vi­ços e a mé­dia dos nú­cle­os da in­fla­ção — me­di­das acom­pa­nha­das de per­to pe­lo Ban­co Cen­tral pa­ra de­fi­ni­ção da po­lí­ti­ca mo­ne­tá­ria — con­ti­nu­a­rão em ní­vel tran­qui­lo e abai­xo do pa­drão his­tó­ri­co.

Pa­ra Fa­bio Ro­mão, eco­no­mis­ta da LCA Consultores, a ele­va­da oci­o­si­da­de da eco­no­mia ex­pli­ca os pre­ços com­por­ta­dos, ape­sar dos cho­ques pro­vo­ca­dos pe­la gre­ve dos ca­mi­nho­nei­ros e pe­la desvalorização cam­bi­al. Pro­va dis­so é que a mé­dia dos nú­cle­os da in­fla­ção — que re­ti­ram itens mais vo­lá­teis pa­ra me­lhor cap­tar a ten­dên­cia de pre­ços — de­sa­ce­le­ra­ram de 3,15% em 2017 pa­ra 2,77% em 2018, no ín­di­ce acu­mu­la­do de 12 me­ses.

A ex­pec­ta­ti­va da LCA é de que a mé­dia dos nú­cle­os che­gue ao fim de 2019 em 3,59%, ace­le­ran­do em re­la­ção aos anos an­te­ri­o­res, mas ain­da mui­to com­por­ta­da. Co­mo ba­se de com­pa­ra­ção, de de­zem­bro de 2003 a de­zem­bro de 2018, a me­di­a­na do in­di­ca­dor é de 6,1%.

“O nú­cleo da in­fla­ção re­fle­te me­lhor o es­ta­do da de­man­da doméstica, ex­cluin­do ou re­du­zin­do o pe­so de itens que ge­ram al­guns cho­ques de pre­ços (po­si­ti­vos ou ne­ga­ti­vos) re­la­ci­o­na­dos à in­ter­rup­ção de for­ne­ci­men­to no mer­ca­do in­ter­no, ques­tões sa­zo­nais ou até mes­mo al­guns cho­ques nos pre­ços glo­bais de com­mo­di­ti­es es­pe­cí­fi­cas que são re­pas­sa­dos pa­ra os pre­ços no mer­ca­do lo­cal”, ex­pli­ca o Ban­co MUFG Bra­sil, so­bre a re­le­vân­cia da mé­tri­ca.

Já a in­fla­ção de ser­vi­ços en­cer­rou 2018 em 3,34%, no me­nor pa­ta­mar des­de 2000. Se­gun­do Fer­nan­do Gon­çal­ves, ge­ren­te de Ín­di­ce de Pre­ços do IBGE, a pró­pria inér­cia in­fla­ci­o­ná­ria jo­gou a fa­vor. “O fa­to de a in­fla­ção de 2017 ter si­do de 2,95% faz com que os re­a­jus­tes pra­ti­ca­dos em 2018 te­nham si­do me­no­res do que no ano an­te­ri­or”, dis­se Gon­çal­ves.

Pa­ra Ro­mão, a in­fla­ção de ser­vi­ços de­ve ir a 4,3% em 2019, pu­xa­da pe­la me­lho­ra da eco­no­mia, com re­du­ção do de­sem­pre­go e au­men­to do tra­ba­lho com car­tei­ra, o que afe­ta os cus­tos do se­tor com sa­lá­ri­os e tam­bém a de­man­da das fa­mí­li­as. Ain­da as­sim, o ní­vel é bas­tan­te tran­qui­lo, con­si­de­ran­do que de 2011 a 2015 a in­fla­ção de ser­vi­ços fi­cou aci­ma dos 8% ao ano.

O de­sem­pre­go ain­da ele­va­do, a ca­pa­ci­da­de oci­o­sa da in­dús­tria e uma de­pre­ci­a­ção mais mo­de­ra­da do câm­bio de­vem con­tri­buir pa­ra es­se ce­ná­rio be­nig­no. A LCA pro­je­ta a ta­xa de de­sem­pre­go mé­dia de 2019 em 11,6%, an­te 12,2% em 2018. Já o câm­bio mé­dio foi de R$ 3,19 em 2017 a R$ 3,65 em 2018 e é pro­je­ta­do em R$ 3,86 em 2019. As­sim, a de­pre­ci­a­ção cam­bi­al cai­ria de 14,6% no ano pas­sa­do pa­ra 5,6% nes­te ano.

Ou­tra ten­dên­cia pa­ra 2019 é que a dis­tân­cia en­tre pre­ços li­vres e ad­mi­nis­tra­dos (co­mo com­bus­tí­veis e ener­gia) de­ve con­ti­nu­ar a di­mi­nuir. Em 2017, os pre­ços mo­ni­to­ra­dos su­bi­ram 8%, an­te al­ta de 1,3% dos li­vres. No ano pas­sa­do, os ad­mi­nis­tra­dos mo­de­ra­ram a al­ta pa­ra 6,2%, en­quan­to os li­vres ace­le­ra­ram pa­ra 2,9%. Pa­ra es­te ano, a es­ti­ma­ti­va da LCA é de uma al­ta de 5,5% pa­ra pre­ços mo­ni­to­ra­dos, con­tra avan­ço de 3,6% dos li­vres.

Fa­bio Ra­mos, eco­no­mis­ta do UBS, vê es­pa­ço pa­ra re­cu­pe­ra­ção de mar­gens pe­las em­pre­sas es­te ano. “Em du­rá­veis e se­mi­du­rá­veis, que in­clu­em ele­trô­ni­cos, mó­veis, ves­tuá­rio e uti­li­da­des do­més­ti­cas, as em­pre­sas pas­sam a ter al­gu­ma mar­gem pa­ra re­a­jus­tar pre­ços”, con­si­de­ra, pro­je­tan­do uma ace­le­ra­ção des­sa in­fla­ção pa­ra al­go en­tre 2% e 3%.

A LCA cal­cu­la o IPCA ao fim de 2019 em 4,1%, ain­da abai­xo da me­ta, que nes­te ano cai a 4,25%. Já o MUFG vê a in­fla­ção ali­nha­da com o al­vo, e o UBS, li­gei­ra­men­te aci­ma, em 4,5%. Ape­sar das di­fe­ren­ças, as três ca­sas apos­tam em uma ta­xa bá­si­ca de ju­ros es­tá­vel ao lon­go do pri­mei­ro se­mes­tre, po­den­do ser ele­va­da na se­gun­da me­ta­de do ano, já de olho nas pres­sões in­fla­ci­o­ná­ri­as de 2020.

Pa­ra es­te ano, o con­sen­so é de que o qua­dro in­fla­ci­o­ná­rio se­gue fa­vo­rá­vel. “A in­fla­ção ao con­su­mi­dor de­ve­rá con­ti­nu­ar se be­ne­fi­ci­an­do da oci­o­si­da­de ain­da pre­sen­te na eco­no­mia bem co­mo da ex­pec­ta­ti­va de sa­fra vo­lu­mo­sa de grãos, que se­gui­rá con­ten­do os pre­ços de ali­men­tos”, ava­li­am os eco­no­mis­tas do Bra­des­co.

Pa­ra ja­nei­ro, as es­ti­ma­ti­vas pre­li­mi­na­res pa­ra o IPCA vão de 0,36% a 0,42%, nu­ma ace­le­ra­ção em re­la­ção ao avan­ço de 0,15% de de­zem­bro. “A mai­or con­tri­bui­ção de al­ta no mês vi­rá do gru­po ali­men­ta­ção e be­bi­das”, pre­vê El­son Te­les, do Itaú. “Por sua vez, o gru­po trans­por­tes, após dois me­ses con­se­cu­ti­vos de qu­e­das, de­ve apre­sen­tar pe­que­na al­ta, pres­si­o­na­do por au­men­tos nas ta­ri­fas de trans­por­te pú­bli­co.”

Na sex­ta, o Ins­ti­tu­to Bra­si­lei­ro de Ge­o­gra­fia e Es­ta­tís­ti­ca (IBGE) in­for­mou que o Ín­di­ce Na­ci­o­nal de Pre­ços ao Con­su­mi­dor Am­plo (IPCA) fe­chou 2018 com al­ta de 3,75%, aci­ma dos 2,95% re­gis­tra­dos em 2017. Ape­sar da ace­le­ra­ção, o in­di­ca­dor fi­cou pe­lo se­gun­do ano se­gui­do abai­xo do cen­tro da me­ta (4,5%).

SIL­VIA COSTANTI/VA­LOR

Fá­bio Ro­mão: oci­o­si­da­de ex­pli­ca os pre­ços com­por­ta­dos, ape­sar dos cho­ques da gre­ve dos ca­mi­nho­nei­ros e do câm­bio

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