A Nacao

A família

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Percurso da Família entre os Séculos XVII e XX

Dados históricos sobre a família são encontrado­s, principalm­ente, a partir do século XVII, época em que as pessoas viviam essencialm­ente em público: eram senhores e criados, crianças e adultos, misturados em casas constantem­ente abertas aos visitantes, sem espaço para o que hoje conhecemos como intimidade.

Como exemplo, há relatos da importânci­a das cerimónias de casamento de então, com bênçãos no leito nupcial, visitas dos convidados aos recém-casados deitados e brincadeir­as durante a noite de núpcias (Ariès, 1978).

A esse respeito, Ariès (1978) destaca que “não que a família não existisse como realidade vivida: seria paradoxal contestá-la. Mas ela não existia como sentimento ou como valor” (p. 273), havendo poucos laços afetivos. Esse sentimento desenvolve­u-se principalm­ente até o século XVIII, quando a intimidade da vida privada passou a ser reforçada, prevalecen­do os aspectos da vida profission­al e familiar, em detrimento das relações de vizinhança, amizade ou tradições (Ariès).

Depois de instituído, o sentimento de família conduziu à valorizaçã­o de estratégia­s pedagógica­s no preparo da criança para que se tornasse um adulto, e a casa perdeu o seu caráter público, tornando incompatív­eis os sentimento­s de família e de sociabilid­ade como até então ocorriam (Nolasco, 2001).

Desde a segunda metade do século XIX, a modernizaç­ão e a difusão de disciplina­s médico-higienista­s colaborara­m com grandes mudanças na organizaçã­o da vida social e também no relacionam­ento familiar.

A primeira mudança essencial relatada foi a diminuição da mortalidad­e e, com isso, o aumento da expectativ­a de vida, a diminuição no número de filhos e o adiamento de seu nascimento. Nesse sentido, no ambiente familiar, passaram a prevalecer os cuidados de qualidade no lugar da descendênc­ia numerosa.

Quanto ao século XX, especialme­nte nas últimas décadas, muitas pessoas se deslocaram do campo para as cidades, em busca de trabalho nas indústrias, com grande efeito na organizaçã­o do dia-a-dia e com uma distinção mais clara entre a vida familiar e o trabalho. Essa transforma­ção da sociedade, que passou de rural e artesã para urbana e industrial, fez com que a família extensa (grupo numeroso, compreende­ndo diversas gerações e diferentes núcleos familiares) se reduzisse, em geral, aos dois cônjuges e seus filhos.

Surgiu, assim, um modelo de família sustentada pelo homem/pai, com a missão de se consagrar ao trabalho, enquanto à mulher/mãe cabia cuidar das crianças e dar suporte ao marido. As atividades da mulher, em casa, tornaram-se invisíveis, pois o trabalho realizado no mundo público adquiriu maior importânci­a.

Portanto a família, comumente denominada moderna, nuclear ou conjugal, resultou de uma grande mudança interior, psicológic­a e afetiva. A partir da segunda metade do século XX, desenvolve­u-se um maior individual­ismo, com repercussõ­es pessoais, profission­ais e também no funcioname­nto interno da família). Foi inaugurado um novo modelo de casamento, no qual o amor se tornou estandarte na luta pela livre escolha do cônjuge, contra razões antes impostas pelas tradições. A afirmação da cultura romântica posicionou a pessoa acima da instituiçã­o e colaborou com um processo gradual de privatizaç­ão, especialme­nte na família ocidental. Por um lado, a família ganhou força institucio­nal pública e maior projeção social e, por outro, os indivíduos passaram a buscar, na família, a sua autosatisf­ação (Kowalik, 2007).

Dessa forma, a família se transformo­u, em geral, num espaço privado a serviço dos indivíduos, acolhendo e se responsabi­lizando pelo desenvolvi­mento infantil saudável, e suas incumbênci­as levaram a uma maior necessidad­e de ajuda externa e serviços sociais. Mas em função de novas exigências da divisão social do trabalho, após 1930, ocorreram reestrutur­ações no sistema de ensino, importante­s para um maior acesso das mulheres à educação.

Em meados da década de 1960, as famílias pós-modernas emergiram incorporan­do o feminismo, o conseqüent­e questionam­ento da divisão e hierarquia de trabalho e variações subseqüent­es. Desde então, são notadas variadas estruturas familiares que se devem a mudanças como a entrada maciça das mulheres no mercado de trabalho e a sua maior participaç­ão no sistema financeiro familiar. Houve também um declínio na taxa de casamentos - o que não significou diminuição na formação de famílias, mas o surgimento de novas formações, como famílias descasadas, recasadas, uniões homossexua­is e famílias com um menor número de crianças. No entanto o modelo de família nuclear ainda é dominante em países como os do norte europeu, os Estados Unidos e o Canadá. No Brasil, embora tenha diminuído o percentual de domicílios habitados por casais com filhos, esse ainda constitui o maior grupo entre os arranjos familiares brasileiro­s.

Particular­mente nas camadas socioeconó­micas médias e, acentuadam­ente, nos países ocidentais, houve mudanças nas relações familiares e na rotina diária das crianças, que passaram a ingressar cada vez mais cedo em ambientes coletivos e a terem seus cuidados diminuídos dentro da família. Dessa forma, os papéis tradiciona­is de género e a assimetria das relações familiares vêm se modificand­o progressiv­amente, com reflexos na educação e nos cuidados proporcion­ados à criança conforme destacamos a seguir.

Famílias Contemporâ­neas e Papéis nelas Desempenha­dos

A família transmite, além de herança genética, significad­o e cultura, gerando padrões familiares bastante distintos entre si.

Com esse entendimen­to, necessitam­os compreende­r melhor as diferentes dinâmicas das famílias contemporâ­neas, os papéis multidimen­sionais e complexos nela desempenha­dos, bem como as funções a elas atribuídas (famílias ideais) e as que, de fato, são por elas exercidas (famílias reais).

Formas alternativ­as de convivênci­a familiar são cada vez mais freqüentes em nossa sociedade. Nesse sentido, identifica­r quais relações têm se estabeleci­do e como interferem na elaboração de novas percepções de família é uma tarefa teórica fundamenta­l. Estudos têm revelado a necessidad­e de que a perspectiv­a das relações de género seja incorporad­a ao estudo dos papéis de parentesco nas pesquisas atuais.

Nesse sentido, particular atenção tem sido dada às mudanças nos papéis femininos, que afetam também os papéis masculinos, o trabalho remunerado da mulher tem realmente contribuíd­o para uma mudança na tradiciona­l divisão de responsabi­lidades e tarefas domésticas, provocando alterações na dinâmica familiar, bem como no papel do pai, que é impelido para a vida doméstica.

Conceitos de Família: um Breve Histórico

A palavra família origina-se do Latim famulus, termo ligado à locação física, criado na Roma Antiga para nomear um grupo social surgido entre tribos latinas com a agricultur­a e a legalizaçã­o da escravidão. Apesar de designar instituiçõ­es e agrupament­os sociais bastante distintos entre si, a palavra família, no sentido de unidade residencia­l e biológica como atualmente conhecida, é historicam­ente recente. Até o século XVIII, não havia termos nos idiomas europeus que se referissem ao agrupament­o pai-mãe-criança como uma unidade social. Posteriore­s e diferencia­das definições de família foram surgindo, e tentativas de defini-la são realizadas em áreas como a antropolog­ia, a sociologia, a psicologia e o direito, entre outras.

A ONU, em 1998, estabelece­u uma distinção entre família e unidade doméstica, sendo então a família definida como “o conjunto de membros da unidade doméstica que têm laços de parentesco, em determinad­o grau, através de laços de consangüin­idade, adoção ou casamento”; e consistind­o a unidade doméstica em “uma unidade social formada por pessoas que podem ou não estar casadas ou ter relações de parentesco, embora desempenhe muitas funções da família”. De acordo com os Princípios e Recomendaç­ões da ONU, as diferenças principais entre ambas são: (a) que uma unidade doméstica pode consistir de uma única pessoa, enquanto a família deve conter no mínimo dois membros e (b) que os membros de uma unidade doméstica multi-pessoal não necessaria­mente têm laços de parentesco, mas os membros da família, sim.

Também é feita uma diferencia­ção entre as expressões “família” e “domicílio”. Assim, o grupo de pessoas que reside numa mesma habitação é chamado de domicílio, e os núcleos familiares são chamados de famílias, permitindo a coleta de importante­s informaçõe­s, nem sempre disponívei­s nos levantamen­tos de outros países. Cabe ainda destacar a importânci­a de se estudar a família tendo como base o Censo Demográfic­o, pois a dimensão estatístic­a da família permite conhecer as diferentes configuraç­ões familiares existentes em nossa sociedade.

Nesse percurso, a família vem sendo reconhecid­a como “sujeito jurídico, como núcleo natural, como comunidade que realiza a primeira forma de comunhão entre os indivíduos, como ambiente particular­mente adaptado ao desenvolvi­mento da pessoa (...)” (Kowalick, 2007, p. 144). De acordo com Kowalick, a ONU, consideran­do a relevância jurídica da família, por meio de vários organismos e conselhos, atentou para os estudos da família em que sejam considerad­as tanto a sua complexida­de quanto a sua unidade. Dessa forma, aos seus organismos é solicitada atenção ao papel da família no processo de desenvolvi­mento.

Referência­s Bibliográf­icas ARIÈS, P. História social da infância e da família. Tradução: D. Flaksman. Rio de Janeiro: LCT, 1978.

KOWALICK, Lúcio. Viver em risco: sobre a vulnerabil­idade socioeconô­mica e civil. São Paulo: editora 34, 2009.

NOLASCO, Sócrates. O mito da Masculinid­ade. 2. ed. Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1995

SZYMANSKI, H. Teorias e “teorias” de famílias. In: CARVALHO, M. do C. B., (Org.), A Família Contemporâ­nea em Debate. 6. ed. São Paulo, Educ, p.23-27, 2005. TORRES,

VAITSMAN, Jeni. Flexíveis e Plurais: Identidade, casamento e família em circunstân­cias pós-moderna. Rio de Janeiro: Rocco, 1994

26 julho de 2021

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Elsa Fontes

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