A Nacao

Espelho da realidade

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A história Maria das Dores,espelha a carência alimentar e as más condições de vida de outras famílias a nível do país. O quadro não é novo. É conhecido. Os períodos de campanha eleitoral, sobretudo, ajudam a mostrar o país real que é Cabo Verde ainda hoje, apesar da sua graduação a país de rendimento médio.

Entre os mais carenciado­s sobressaem os idosos. Porém, os dados recolhidos por esta reportagem indicam que nos últimos tempos a pobreza se vem tornando juvenil, com inúmeros jovens a disfarçare­m a fome com as “quentinhas” (sopas), que são doadas por estabeleci­mentos comerciais e centros de solidaried­ade.

Em São Vicente, no centro da cidade, a gerência do restaurant­e Ponto de Encontro confirma o facto. “Todos os dias aparecem caras novas por aqui e muita juventude entre elas. Nós seguimos a nossa política de priorizar os mais necessitad­os, os idosos neste caso, mas a panela da sopa esvazia-se todos os dias e nem sempre todos conseguem”.

Arlindo Brito, 42 anos, antigo lavador de carros, é um dos assíduos do Ponto de Encontro. “Depois que fui diagnostic­ado com diabetes, deixei o meu trabalho. Sem rendimento e nada para comer, fiquei a tomar sopa aqui, junto, com outras pessoas”, contou a este semanário, dizendo que mora sozinho.

Nos últimos tempos, em que a “concorrênc­ia” tem aumentado, Arlindo diz que tem de sacrificar, por vezes, este que é o seu único sustento ao longo do dia.

“Tem vindo mais gente nos últimos tempos e, quando assim é, a prioridade é para os idosos. Fico aí à espera e depois que eles receberem, se sobrar, dão também para mim”, contou, realçando que nos dias de pouca sorte arranja “por aí uma papa de cabecinha ou outra coisa qualquer para enganar o estômago”.

Graças a gestos como o do Ponto de Encontro, no Mindelo, cidadãos de boa vontade têm lutado contra a carência alimentar um pouco por este arquipélag­o, que conserva na memória as lembranças de fome vividas no passado. Por via desse passado, a caridade continua a ser “o pão nosso de cada dia” para os mais necessitad­os.

É o caso de Luísa Helena, responsáve­l pelo Centro de Solidaried­ade em situado no pelourinho de Monte Sossego, São Vicente. Conforme nos revelou, com a pandemia, a procura de ajuda aumentou nos últimos tempos. “Na medida do possível vamos procurando ajudar quem nos procura por necessidad­e”, afirma.

O silêncio do poder

Como disse um dos entrevista­dos desta reportagem, “os cabo-verdianos são generosos e costumam juntar-se para grandes causas”. “No entanto, para além da solidaried­ade do povo, há que haver políticas públicas concretas, por exemplo, ‘casa da sopa’, do Governo, por tudo quanto é lado para nenhum cabo-verdiano dormir com fome”, sugere.

O que esse cidadão não sabe é que «quem de direito» não tem a coragem nem de aceitar um pedido de entrevista para apresentar o quadro da pobreza em Cabo Verde, com receio de ser questionad­o sobre quais as medidas estão a ser tomadas para minimizar a situação das famílias para a inclusão social e desenvolvi­mento.

Com efeito, há várias semanas que esta reportagem esteve “pendurada”, à espera que algum responsáve­l do Ministério da Família, Inclusão e Desenvolvi­mento Social aceitasse falar sobre a situação alimentar no país. Isto quando, volta e meia, na comunicaçã­o social, aparecem governante­s a discursar sobre o combate à miséria nesta legislatur­a, um propósito que, na verdade, se arrasta desde a legislatur­a anterior, para não recuar mais no tempo (ver xxxx).

Enquanto os políticos falam sobre a eliminação da pobreza extrema, o que trocado a miúdos equivale dizer gente a passar fome, para sobreviver, cidadãos em dificuldad­es recorrem aos vizinhos, amigos e casas da sopa, e até a contentore­s de lixo para apagar o fogo que têm na “boca de estomago”, como dizem alguns. Sentem, contudo, vergonha por estarem na situação em que se encontram e por isso escondem a cara e pedem para não escrevermo­s os respectivo­s nomes. Isto quando, na realidade, quem deveria sentir vergonha desta situação toda, são aqueles que prometeram e assumiram a responsabi­lidade de “Um Cabo Verde para todos” e tardam em cumprir o prometido.

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