A Nacao

Caldo de cachupa para idosos

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Na cidade da Praia, a idosa Dona Zilda, nascida em 1947, diz que julgava ter superado a fome, quando lutou para não morrer naquele ano, de triste memória, para quem viveu e sobreviveu o período mais negro da história de Cabo Verde.

“Ainda me lembro de histórias tristes contadas pela minha mãe, e o sacrifício que ela teve de fazer para sobreviver­mos. Trabalhei como cozinheira quase toda a minha vida e nunca pensei que podia, um dia, faltar comida na minha casa”, conta a septuagená­ria que actualment­e, para sobreviver, conta com a ajuda alimentar dos vizinhos.

“São três senhoras de bom coração que um dia, estávamos a conversar, contei o que andava a passar. Tiveram pena de mim e resolveram, cada uma delas, dar-me uma das refeições, todos os dias. Graças a isso, hoje, posso dizer que já não passo fome”, contou ao A NAÇÃO.

Dona Zilda diz que, para além das condições financeira­s, a idade e os problemas de saúde já não lhe permitem levar panela ao lume. “Tenho muita dor nos joelhos e não consigo baixar-me para debruçar-me sobre a panela. A minha idade já não dá para ir às compras e não me vejo com botija de gás à cabeça, e nem tenho dinheiro para encher ou pagar os rapazes, assim como vejo outros a fazerem. Só me resta consolar com o que me dão e, graças a Deus, as três senhoras não falham comigo”, explicou a idosa, natural de Ribeira Grande de Santiago que ergueu a sua casa no Bairro Craveiro Lopes desde 1975, ano da independên­cia de Cabo Verde.

Também em São Vicente, A NAÇÃO falou com a Dona Joana, 62 anos, que se diz aposentada, mas sem ajudas do Estado. A morar sozinha, resolveu juntar-se aos beneficiár­ios da sopa no restaurant­e Ponto de Encontro, no centro da cidade onde esta reportagem a encontrou.

“Sou diabética e por isso tenho que alimentar-me bem. Mas não tenho como. Quando soube desta ‘sopa’, vim fazer parte e tenho almoço garantido, todos os dias”, contou a idosa que, para além desta “quentinha”, tem presença assídua no Centro de Solidaried­ade de Monte Sossego, onde há, diariament­e, a distribuiç­ão de sopa.

“Eles fazem cachupa para vender e depois, para não desperdiça­rem, sabendo de gente como nós que precisa, fazem ofertas de caldo de cachupa. Este simples gesto é uma grande oferta para gente como eu, para muitos, é a única refeição diária”, desabafa Dona Joana. RM e LL

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