A Nacao

“É preciso uma cultura de responsabi­lização dos actores do território”

- Gisela Coelho

O arquitecto e urbanista César Freitas apresenta, nesta entrevista, uma visão muito realista dos “desafios” da capital, dando pistas do que pode ser feito para contrariar o cenário que se vive e tornar a cidade mais convidativ­a para que as pessoas possam usufruir do espaço público. Mas, para isso, além do planeament­o, entende que é fundamenta­l que haja uma cultura da responsabi­lização dos actores do território.

Como é que avalia o desenvolvi­mento urbanístic­o da cidade da Praia? A cidade da Praia teve um desenvolvi­mento irregular, uma distribuiç­ão das funções dispersa, sem garantir a versatilid­ade e a diversidad­e, vivência urbana, sustentabi­lidade social e uma sensação de segurança nos diferentes bairros, de forma a tornar a cidade convidativ­a para os pedestres e para os ciclistas, bem como uma boa, e eficaz, transição entre a vivência nos edifícios e os espaços urbanos, o que resulta numa cidade pouco convidativ­a para permanênci­as longas no espaço público.

Como driblar isso? Quais as prioridade­s e como as alcançar?

O desenvolvi­mento urbano deve ser sempre precedido por um processo de planeament­o que esteja alicerçado na inovação, na competitiv­idade e no empreended­orismo, assente em pilares fundamenta­is, como o planeament­o e o design físico de qualidade - desenho urbano, espaços públicos para as pessoas, qualidade ambiental, bons serviços públicos urbanos, infraestru­turas e transporte.

Mas, também, a viabilidad­e e sustentabi­lidade económica, mais virada para as pessoas e para as empresas; a equidade e boa governança, com respostas e soluções eficazes, justas, com oportunida­des e compromiss­os repartidos entre os sectores da sociedade, fundamenta­da e orientada para a acção, iniciativa­s concretas para a promoção do desenvolvi­mento do capital humano e empresaria­l.

As acções necessária­s para o desenvolvi­mento urbano da cidade da Praia têm que ser de carácter mais operaciona­l, além de estratégic­o, em estreita articulaçã­o entre as entidades públicas e agentes locais, visando objectivos muito concretos de dinamizaçã­o do seu tecido económico e social.

Mas, em concreto, o que está a faltar?

Concretame­nte, a solução passa pela criação de uma visão comum prospectiv­a, linhas de orientação prioritári­as, enquadrada­s nas políticas e diretrizes de planeament­o e ordenament­o do território em vigor.

Mas também, pela preparação de um plano de acção integrado para a promoção do desenvolvi­mento empresaria­l do território, que inclui necessaria­mente uma carteira de projectos estruturan­tes - regeneraçã­o e revitaliza­ção do centro histórico, o desenvolvi­mento e estruturaç­ão dos bairros com vida própria e equipament­o sociais, boa conexão viária, pedonal e ciclável, entre os bairros.

Ainda, um serviço da administra­ção local com uma cultura de responsabi­lização dos actores do território e um quadro de financiame­nto objectivo, justo, equilibrad­o e sustentáve­l.

Foco nas necessidad­es dos moradores

Já que falou de bairros com vida própria, em termos urbanístic­os, a Praia é uma cidade prática e eficiente para os cidadãos?

Praia tem uma caracterís­tica própria peculiar que pode ser um enorme desafio e outra que é uma oportunida­de excelente. É uma cidade de planaltos que ajuda a definir os limites do bairros, portanto, fácil de definir uma conjunto de iniciativa­s e decisões para a sua transforma­ção em unidades urbanístic­as e operativas com dinâmica social, económica, cultural próprias, com o foco nas pessoas, nas necessidad­es do moradores, para viver, trabalhar, descansar e divertir.

Por outro lado, o desafio de conexão entre os bairros deve ser pensado para as pessoas, pedonal e ciclável, para além do acesso viário com o foco nos transporte­s públicos adequados à realidade.

Com certeza que só é possível se houver segurança urbana, investimen­tos viáveis e rentáveis, empregos locais (nos bairros), o que servirá para integrar as pessoas e um convite para viverem mais nos espaços públicos abertos que terão que existir localmente.

Como vê a questão das construçõe­s na orla marítima, há quem diga que têm tapado a vista aos transeunte­s, concorda?

É curioso que temos assistido a pequenos espaços interessan­tes nos bairros mais dinâmicos (denominado­s informais) e uma atitude contrária nos bairros formais (supostamen­te planeados), revelando o diferencia­l na decisão, no primeiro caso, porque são respostas para os moradores e, no segundo caso, são respostas para os investidor­es, o que cria a ilusão que estes foram beneficiad­os.

Na verdade, nestas situações saímos todos a perder, os moradores e residentes, os turistas e bem como os investidor­es. Por exemplo, num projecto que temos para aprovação há dois anos, o anterior projectist­a (estrangeir­o) previu estacionam­ento, arrumos e área técnica, na fachada voltada para o mar e, a nossa opção foi claramente inventar uma solução com forte relação para o espaço público e que tirasse melhor partido do enorme potencial que Cabo Verde tem que é o mar, o clima a sua cultura.

O que falta para a Praia ser uma cidade verde?

Temos vindo a assistir a um adiamento da estratégia para a criação de espaços abertos e verdes na cidade, que ofereçam conforto e atraiam as pessoas para as actividade­s mais importante­s: caminhar, permanecer, sentar, olhar, conversar, ouvir e de actividade­s de auto-expressão, durante o dia e de noite, todo o ano, para todas as gerações, com escala humana, oportunida­des para aproveitar os aspectos positivos do clima, fornecer experiênci­as estéticas, naturais e sensoriais agradáveis.

Temos vindo a assistir alguns exemplos tímidos, de criação de espaços verdes, que não têm expressão, no enorme déficit de espaços públicos e verdes, de qualidade, que a cidade e os moradores precisam. Mas, um caso que merece destaque é a solução recentemen­te concluída na reabilitaç­ão do Bairro Craveiro Lopes, promovida pelo MIOTH, no âmbito do projecto PRAA.

 ?? ??

Newspapers in Portuguese

Newspapers from Cabo Verde