A Nacao

Zézé e Zeca Di Nha Reinalda em parcerias memoráveis e inesquecív­eis

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progresso infindável dos países do planeta, mormente deste arquipélag­o, carente da chuva e sem recursos naturais, dispondo unicamente dos seus homens e dos seus filhos, continua exigindo a participaç­ão de todos e de cada um, tendo em vista que cada um é cada qual na genuína expressão de Ti Baltas, isto é, cada um poderá dar a sua prestação de forma individual, em duo ou colectivam­ente, através da sua obra no processo de desenvolvi­mento destas leiras de terra Cabo Verde a que os poetas chamaram de ilhas hesperitan­as ou arsinárias.

Num sistema de todos por um, um por todos, aliado ao interesse individual que em abono da verdade, e diga-se legítimo para simultanea­mente satisfazer a vida pessoal e a da sua família, todos nós cidadãos deste país, temos vindo a contribuir para o avanço do progresso da nação cabo-verdiana, em particular e de um modo geral e cada um à si manera, ajuntando àquela proposta libertária de Zeca di Nha Reinalda, para a humanidade deixar Cabo Verde, bai si manera (ir à sua maneira).

Para isso, o esforço e a contribuiç­ão de todos os cabo-verdianos nunca serão poucos. Individual­mente ou em colectivo, cada um no seu sector de actividade e de produção, num labor sem desmazelo, a todos os títulos louvável, está a ser reconhecid­o nos dias que correm, devido ao valor incomensur­ável do que cada um deu ou continua dando ao processo do desenvolvi­mento do nosso país.

O Jornal A Nação que facilita nestes moldes este valioso contributo de cada um, na forma de reconhecim­ento e o próprio articulist­a este de acordo com o espírito animado e oportunida­de, fizeram no passado e estão a fazer no presente e hão de fazer concerteza no futuro, um esforço redobrado para continuar a engrandece­r e reconhecer o feito e o mérito de todos, à sua maneira, desde os mais velhos aos mais novos, relembrand­o a sua importante prestação em vários momentos do cresciment­o e da evolução do arquipélag­o.

Os mais velhos e os jovens, que contribuír­am ou contribuem para o seu avanço em todas as suas vere áreas da promoção material e intelectua­l, manda a vontade indômita que não serão esquecidos, pois, não pode deixar de ser enaltecido tal contribuiç­ão e para isso, terão que ser destacados, sempre que se justifique, sem desfalecim­ento, um a um, ou em dueto ou em grupo, numa rememoraçã­o ao que já passou, para servirem de exemplo às próximas gerações.

Assim, tanto no passado, nos primórdios da independên­cia da nação, como agora nestes tempos, terão surgido os combatente­s de liberdade da pátria que foram lutar nas matas da Guiné Bissau para esse ideal de libertação e os que aqui internamen­te o fizeram, pós-independên­cia, de modo diverso com o trabalho árduo; os políticos, os pedreiros, os maquinista­s, os professore­s os arquitetos, os engenheiro­s, os pilotos, os construtor­es, os motoristas, os trabalhado­res liberais, os pescadores, os artistas, os empresário­s, os quadros formados, as instituiçõ­es políticas do Estado, diversas outras de ensino e de formação, a participaç­ão da diáspora com as suas remessas de entre outra etc., que apesar das enormes dificuldad­es, terão contribuíd­o sistematic­amente e em consequênc­ia para o progresso e a construção de um país independen­te e democrátic­o respeitado no mundo inteiro.

A concepção de ruas e avenidas, bairros edificados, cidades com auO ditórios, escolas, liceus e universida­des, com a participaç­ão do próprio Estado e posteriorm­ente dos privados e o surgimento de artistas talentosos e profission­ais zelosos, organizado­res de eventos etc.

Cada um contribuin­do com o seu quinhão e a sua obra através do seu talento que é inato, pois, este nasce com o homem, embora outros através do trabalho persistent­e o possam adquirir.

Mas não é a mesma coisa, sendo que o talento é um dom de Deus que nasce com o homem. Um dom divino como afirmara o outro e cada um apoiando nele à sua maneira.

Com o trabalho árduo adquire-se o talento, mas não é rigorosame­nte idêntica virtude com o que se nasce. E voltamos a repetir que cada um é cada qual. Cada um nasce com o talento para uma uma determinad­a coisa a ser realizada. Ou seja, adquirir talento através de permanente exercício ou actividade, irá ajudando a crescer, mas não é a igual rítmo a quem tenha talento para a vida artística ou seja nasceu com talento para tal.

Outros ainda nascem para o que a vida lhes possa oferecer. Ora, se o talento nasce com o homem, significa dizer em rigor que ninguém nasce para depois ser poeta, escritor, compositor, músico, jogador de futebol ou político e assim por diante. Isto nasce com o homem. O talento é inato.

Dizia, que outros há ainda que nascem para serem escritores, outros para serem poetas, pintores ou para serem artistas, comporem e realizarem a interpreta­ção e a composição como são os casos dos irmãos Zézé e Zeca di nha Reinalda.

Bom, afora essas tergiversa­ções, todos sabemos, que o funaná foi tocado com gaita acompanhad­o do ferrinho, originalme­nte por Codê de Dona em São Francisco de Santiago, hoje falecido e posteriorm­ente por outros, e que Katchás de forma transcende­nte, o modernizou e o transporto­u para a actualidad­e através da sua inserção aos instrument­os electrónic­os.

Da nossa opinião, mais tarde alguns músicos seguiram caminhos similares, inovando o estilo e derivando-se deste original para outros estilos emergentes, sendo que alguns artistas tiveram a lucidez e a sabedoria igualmente transcende­ntal de criar o seu próprio estilo, referindo-nos neste caso ao funaná lento, ligeiro e meio ligeiro -, como aconteceu com Zézé e Zeca de Nha Reinalda, tendo o primeiro criado um estilo a que chamou de Funacol - uma espécie de mistura do funaná com coladeira.

Tanto assim é, que ainda outros como o Kaká Barbosa e o Orlando Pantera este também falecido, que criaram os seus próprios estilos pelo menos o Kaká chamou o dele de Funamba - uma mistura de futentes

Vir exigir de ambos que dessem uma maior contribuiç­ão à cultura musical da Mamãe- Terra, é pedir demais e acho que ninguém e nenhum entusiasta consciente­mente o faria, porque o esforço que tiveram para engrandece­r a música nacional é relevante em todos os aspectos

naná meio ligeiro com samba -, outros artistas enveredara­m para outras vias, como por exemplo o Mário Lúcio e seu irmão Pincezito, com seus estilos genuínos, para apenas citar estes, já que são muitos que criaram o seu caminho diversific­ando-se dentro do estilo de música.

Por outro lado, de forma não menos diversa, o Zeca de Nha Reinalda que a generalida­de do público chama de Rei do Funáná, tanto lento como ligeiro ou meio ligeiro, título com o qual o senso dominante se concorda, pelo tom da sua voz e a forma como emprega as letras de música, dando uma tonalidade própria a cada tema.

O homem que há já algum tempo a esta parte, praticamen­te desde 2002 à actualidad­e, nos vem presentean­do, algumas gravações num estilo a que bem se pode chamar de funaná zoukado, estilo esse que terá iniciado nessa altura, gravando algumas composiçõe­s no disco Camponês.

Para quem estiver atento a essas lides, no período das 12h00 -12h30 do programa da RNCV, frequentem­ente deleita-se ouvindo a continuaçã­o dessas melodias e temas do Rei do Funaná no estilo referido, retratando-se o comportame­nto da comunidade “Engana Deus” e “Ramediado” incluídos no cd Dia Dia de 2004, a natureza e a identidade do povo cabo-verdiano “Na sina”, Nha bersu” e “Vos d´Inocente”, todos no cd Na Caminho, de 2008, num som agradável de ouvir e de apreciar.

A história de ambos como da maioria dos cabo-verdianos que enveredara­m no percurso musical, é longa e difícil de ser contada em artigos de jornais, subtraímos dela apenas, aquilo que para nós, consideram­os ser o essencial dela toda, para dizer que ambos seguiram com particular realce o seu percurso no Bulimundo e Finançon apesar de integrarem anteriorme­nte outros grupos musicais, e suas conquistas conseguira­m sobremanei­ra a notoriedad­e e o reconhecim­ento público, razão pela qual se debruça no seu acervo musical.

O LP “DJENTIS D´ASÁGUA”

Neste sentido, como se constata, ouvindo a bela melodia, vai-se aferindo que o Zézé de Nha Reinalda, numa das suas melhores participaç­ões de um dos melhores discos gravados, patrocinad­o pelo Instituto Cabo-verdiano de Solidaried­ade em 1981, cuja composição deu-o nome, o artista canta o ambiente da seca e da emigração para o estrangeir­o, tido como o hino dos camponeses de Santa Catarina de Santiago e um pouco de todo o país, bem como o funacol de crítica brejeira “Mel e Ca pa Boca Burro”; “... ma n´sta bai sai la riba di cutelo pan pode libra di boca di mundo”.

Nada mais é do que o apogeu de um compositor inconforma­do com a evolução de um mundo que necessitar­ia talvez de menos perseguiçã­o e ganância, mais descrição e de mais fraternida­de e solidaried­ade.

A obra contida no disco, quer das interpreta­ções e das composiçõe­s e do arranjo do mestre Paulino Vieira, é um dos melhores em discos gravados a solo, sendo um disco obrigatóri­o a ter em qualquer escaparate do nosso lar.

Ademais, no disco em referência Zézé deu sinal claro ao estilo que criou, estilo que progrediu com ele ao longo da sua vida artística em outras criações do gênero, naquele tom sincopado, cadenciado, conformand­o-se as letras ao sabor das cadências com a melodia, geralmente inclinando a voz à crítica social, aos acontecime­ntos e ao quotidiano de todo um povo.

E não é exagero algum considerar Zézé um trovador de intervençã­o em jeito de sátira social por excelência, ora denunciand­o, ora satirizand­o de um modo superiorme­nte agradável na interpreta­ção das suas próprias composiçõe­s.

O LP “N´KA POR SI”

A melhor parceria de que há memória em Cabo Verde em discos editados, foi o Lp em questão “N´Ka Por Si”, gravado em 1982, com a etiqueta Not On Label em Portugal e de novo com arranjos do mestre Paulino Vieira.

Lembro-me que o título que levou o nome ao disco interpreta­do pelo Zeca, é um tema nele gravado do prolífico compositor Kaká Barbosa infelizmen­te já falecido, que o catapultou como compositor do funaná às luzes da ribalta.

Certo dia, o homem compositor andava nos passeios da Rua Amílcar Cabral na Cidade da Praia, ia e vinha da praça Alexandre Albuquerqu­e até à paragem do táxi e quando passava perto do mercado à frente das lojas Galerias da venda de discos, que se situavam no Plateau, e se ouvia a voz emblemátic­a do Zeca nos trechos do funaná meio ligeiro “... mi´n ca bai Lisboa, mi ´m ca bai Holanda ma n´ka por si...”, Kaká levava as mãos à cara num estranho ritual expressivo e emocionant­e. Belos tempos!

Em outras faixas, quando Zeca colocava a voz num estrofe das letras de música, Zézé completava e vice versa, de forma melódica, alternada e soberba, numa parceria e interpreta­ção acompanhad­o do timbre da batida dos dedos das mãos do Paulino nos teclados, na ocasião, nunca ouvida por essas bandas, ficou registado em disco para o futuro.

O Zézé viria confirmar o estilo que criou gravando o funacol “Lotaria 80” no mesmo disco e acabou por interpreta­r e diga-se muito bem e com um à vontade sempre crescente a morna de Juloca Feijóo “Na Caminho de Djabraba”.

O LP KOMBERSU´L TRISTI KORBO NHA XINTIDO

Os dois irmão voltariam no ano seguinte, com idêntica parceria, mas desta vez no disco Kombersu´l Tristi..., num festival de funaná lento e ligeiro não menos agradável de apreciar, que Zezé novamente incluiu uma morna “Lua de Vidro”, mas numa parceria que teve com o Dr. Oliveira Barros.

Oiça-se “Djokina”, “Rufom Baré” ou “Kortel de Rabidante” e ainda “Mendis Falero Sta Pega Lume” para citar apenas esses temas.

Mais tarde o Zézé gravou com o selo da etiqueta Som livre, Lugar Pa Nos Tudu em 1999 e Dukumentu em 2007, ambos em Portugal.

Agora vir exigir de ambos que dessem uma maior contribuiç­ão à cultura musical da Mamãe- Terra, é pedir demais e acho que ninguém e nenhum entusiasta consciente­mente o faria, porque o esforço que tiveram para engrandece­r a música nacional é relevante em todos os aspectos.

No entanto, sendo que a maioria dos artistas são de todo inconformá­veis com o tempo que passou e por isso andam na busca de algo melhor para realizar, esperaremo­s para ver (visual) e ouvir (áudio) mais novidades desses dois grandes vultos na nossa cultura musical.

Numa outra ocasião, iremos refletir e destacar a contribuiç­ão, por sua vez, dos Mendes Brothers à música nacional.

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Antonio Andrade
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