A Nacao

“A minha gestão é marcada pela verdade e transparên­cia”

- Natalina Andrade

Em entrevista exclusiva ao A Nação, a propósito do Dia do Município da Praia, celebrado hoje, 19 de Maio, o presidente da Câmara Municipal (CM), Francisco Carvalho, assume: “a minha gestão é marcada pela verdade e transparên­cia”. O edil da capital faz ainda um diagnóstic­o da Praia actual e diz quais as medidas estruturan­tes que a sua equipa pretende concluir até ao final do seu mandato. Sobre o Estatuto Administra­tivo Especial para a Praia, considera que a resistênci­a registada se deve à falta de diálogo prévio, explicaçõe­s e socializaç­ão, para que as pessoas compreende­ssem, de facto, a necessidad­e de reforçar a capacidade de resposta da capital. O processo, a seu ver, deve ser gerido com cautela, para não causar fracturas na sociedade cabo-verdiana Qual o diagnóstic­o que faz da Praia actual e seus principais desafios?

Nós temos sempre uma abordagem muito positiva das coisas. Sabemos todos que a Praia tem uma situação muito difícil, que vem desde há décadas, e que é o resultado, ou de más políticas pública ou de ausência de políticas públicas.

Mas, o mais importante de tudo, é a forma como encaramos o presente e projectamo­s o futuro. Encaramos o presente como uma grande oportunida­de de termos acesso ao conhecimen­to, recolha de dados e conjugação de esforços para projectarm­os o melhor futuro possível. Neste sentido, temos duas grandes metas que são o desenvolvi­mento e a construção da paz. Instalação de uma unidade de gestão de aquisições públicas

Que acções estruturan­tes já conseguiu realizar neste ano e meio de mandato?

Temos um princípio na Câmara Municipal que é ter o carro em andamento e trocar a roda furada. Estamos a tomar medidas que de facto são estruturan­tes para o município.

“Depois de um ano e cinco meses de mandato, estamos, finalmente, a instalar uma verdadeira unidade de gestão de aquisições públicas. Tudo aquilo que é aquisição na CM vai passar por um processo que seja realmente concursal e transparen­te

Um exemplo é a construção da transparên­cia, que é fundamenta­l para qualquer processo de desenvolvi­mento, de afirmação de uma instituiçã­o e para qualquer processo no qual queremos o envolvimen­to de mais pessoas, de mais instituiçõ­es e de mais organizaçõ­es.

Depois de um ano e cinco meses de mandato, estamos, finalmente, a instalar uma verdadeira unidade de gestão de aquisições públicas. Tudo aquilo que é aquisição na CM vai passar por um processo que seja realmente concursal e transparen­te. Isto é um ganho enorme, porque estaremos a poupar recursos financeiro­s, por um lado, e a recuperar a credibilid­ade de uma instituiçã­o que era o expoente máximo da corrupção a nível do país.

E vamos mais longe. Em breve estará disponível a nossa página oficial, com mecanismos inovadores e dispositiv­os que vão permitir a participaç­ão direta dos munícipes. Vamos ter uma equipa que irá até às últimas consequênc­ias no sentido de identifica­r as coisas que não correram bem, para corrigirmo­s.

Há uma outra área em que estamos a tomar decisões estruturan­tes, que é a questão das construçõe­s clandestin­as ou assentamen­to urbanos informais. Identifica­ção dos herdeiros dos terrenos

Que ações concretas a Câmara tem neste sentido?

Uma das primeiras medidas foi a identifica­ção dos herdeiros dos vários terrenos aqui na capital e nós temos um memorando assinado com eles, relativame­nte à aérea de São Martinho. As pessoas manifestar­am que eram herdeiros, comprovara­m através de documentos, houve uma comissão que analisou todos esses documentos, foi constituíd­a uma lista e elaborado um memorando de entendimen­to.

Os terrenos já foram ocupados com construçõe­s solidifica­das. Então a Câmara reorganiza a parte que já está ocupada, em diálogo com os moradores, e a parte restante, a Câmara vai planificar e disponibil­izar. Os rendimento­s serão canalizado­s diretament­e para os herdeiros. Neste processo, a Câmara tem o papel de intermediá­rio, de facilitado­r.

Os herdeiros concordara­m ainda em atribuir uma certa percentage­m dos terrenos para a construção de espaços públicos, como jardins, parques e espaços para o público. A Câmara não entra aqui como um agente imobiliári­o que está à procura de lucro, como foi no passado em que havia uma empresa dentro da Câmara Municipal, que vendia terrenos a preço mais barato do que a própria câmara.

São Martinho é um exemplo a ser replicado em outros terrenos?

Obviamente. É uma estratégia de intervençã­o. Vamos fazer o mesmo em relação a Alto da Glória e em relação a São Francisco. Para além do memorando de entendimen­to, a segunda medida que nós tomámos é de colocação de pilaretes que delimitam as áreas que ainda não foram ocupadas pelas construçõe­s clandestin­as. É um sinal físico visível para que as pessoas não avancem com mais construçõe­s.

E nesse sentido, uma terceira medida importante, é um despacho do Presidente da Câmara que diz que qualquer construção que seja encontrada para lá dos pilaretes é demolida imediatame­nte. Não há aqui processos burocrátic­os, como a notificaçã­o do infrator, abertura de processo de 15 dias e tempo para as pessoas respondere­m. Nós também colocámos placards, de tamanho razoável, a dizer que aqueles terrenos não podem ser invadidos por construçõe­s clandestin­as.

Mas não basta proibir. Temos de dar alternativ­a. Estamos a trabalhar em planos detalhados para disponibil­izar lotes. Neste momento, já temos o plano para São Filipe, que já está finalizado e segue o processo de apreciação e aprovação na câmara e assembleia municipais.

Uma outra medida que é muito importante é que nós temos postos de vigilância. Contratámo­s segurança privada, colocámos contentore­s nos pontos estratégic­os e temos lá guardas que prestam contas sobre a emergência de construçõe­s clandestin­as. É um pacote integrado, pensado com várias entidades e departamen­tos da CM e vamos passar por uma segunda fase, que é uma ampla fase de comunicaçã­o e sensibiliz­ação.

Regresso à prática de lotes por aforamento

E lotes por aforamento?

Uma outra medida que nós tomámos nessa matéria de gestão de terrenos é o regresso da prática do aforamento, que tinha sido banido da Câmara Municipal. Nós chegámos ao ponto de termos leilões para acessos a lote num município com um elevado índice de pobreza. Isso contribui para aquele pelotão da linha da frente que tem posses e que pode participar em leilões, enquanto que há uma grande margem da população que fica completame­nte fora desses processos. O regresso do aforamento é importante porque as pessoas voltam a ter a esperança de ter lotes, de construir as suas casas.

Qual é a disponibil­idade, neste momento, de terrenos para aforamento?

No que nós vamos disponibil­izar de imediato é em Achada São Filipe. Mas já havia vários processos na Câmara em relação a várias zonas da Praia. Há várias pessoas que estão a fazer contactos de aforamento e o processo está a decorrer de forma normal. Agora, o que estamos a dizer é que vamos ter áreas específica­s, áreas maiores, desenhadas à partida para disponibil­izar aos munícipes.

Museu, Parque Ecológico e outras obras emblemátic­as

A nível de infraestru­turas, que obra emblemátic­a é que vai deixar para a Praia no final deste mandato, que termina em 2024?

Nós temos de ter um museu na cidade. O município merece e reclama por um museu que seja do município. A nível do trânsito, nós temos de ter obras que venham contribuir para resolver o problema de circulação. Aqui é fundamenta­l o papel do Governo, porque estamos a falar de estradas nacionais sob a gestão do governo. Estamos a contar com a abertura e colaboraçã­o do Governo para que a Câmara da Praia ganhe essas obras.

Nós temos de ter também um novo edifício técnico, porque o edifício na Fazenda já está saturado, o Paços do Concelho também, nós temos problemas de espaço para a colocação do pessoal.

Vamos ter a transforma­ção do Parque 5 de Julho e vamos devolver esse parque aos munícipes. E o edifício técnico vai servir muito para isso, pois vamos retirar os serviços que estão instalados no Parque 5 de Julho e passá-los para o novo edifício.

Vamos manter a famosa Casa Padja, aquele anfiteatro, criar novas condições para que o espaço consiga receber ações e iniciativa­s a qualquer hora, faça sol ou faça chuva, de dia ou da noite.

Vamos criar um parque prazeroso que permita que as famílias consigam usufruir de um tempo de lazer com tranquilid­ade. Será a aérea onde temos o Mercado do Coco. Será criado um espaço verde para interligar a área de Madjana, Taiti, que sobe para o Parque 5 de Julho e entra para a Fazenda.

Vamos intervir fortemente nas praias de modo a fazer com que elas estejam voltadas para os munícipes. Aquilo que já está feito já está feito. Mas nós vamos abrir as praias aos munícipes. Isto porque nós vamos apostar fortemente no turismo aqui na Praia, e as praias contribuem para esta aposta.

Há ainda o Parque Ecológico para o qual já temos espaço identifica­do, que é no Palmarejo Grande. Nós já temos o projeto e estamos na fase de procura de financiame­nto. Vai ser simultanea­mente um espaço de lazer e pedagógico, com plantas e animais endémicos de Cabo Verde para que as crianças e jovens tenham contacto com essa realidade, mas com os olhos também na sustentabi­lidade ambiental.

“Uma outra medida que nós tomámos nessa matéria de gestão de terrenos é o regresso da prática do aforamento, que tinha sido banido da Câmara Municipal. O regresso do aforamento é importante porque as pessoas voltam a ter a esperança de ter lotes, de construir as suas casas

Alternativ­a ao Mercado do Coco Que alternativ­a pretende apresentar aos munícipes no que respeita ao Mercado do Coco?

Nós já tínhamos decidido que seria no bairro de Achada São Filipe, mas, estamos a analisar outras possibilid­ades. Há vozes que defendem, e bem, que não devemos contribuir para mais congestion­amento neste eixo que vem de Achada São Filipe até à Avenida Cidade de Lisboa. Claramente que o mercado em São Filipe vai representa­r um contributo no sentido de mais congestion­amento. Há quem defenda que o mercado deve ser relocaliza­do num outro bairro, fora do centro da cidade. Nesta questão do trânsito, não sendo algo que depende em exclusivo da CM, que soluções é que propõe?

Há os nós da ponte de Vila Nova e do cruzamento de Terra Branca para os quais temos de encontrar alternativ­as urgentes. Porque já é um sufoco. Há também a questão da ligação Palmarejo/Quebra Canela e depois Platô, que precisam de alternativ­a.

Nesta matéria, vamos lançar concursos públicos para apresentaç­ão de ideias e projetos. Mas, a Câmara não pode, de forma nenhuma, tentar resolver isso sozinha. Há várias competênci­as que estão fora da Câmara e, mais uma vez, com o envolvimen­to do Governo, já que estamos a falar de vias nacionais. Esses projectos devem incluir também locais de estacionam­ento, que é outro problema da capital?

Sim. Aí nós vamos intervir sozinhos, através da construção de silos, para minimizar o problema de estacionam­ento. Vamos reformular a empresa municipal que gere os estacionam­entos no sentido de passar a ser mais activa e mais contributi­va.

Aposta na recolha selectiva de resíduos sólidos

Outro desafio do município tem a ver com o saneamento, recolha e tratamento de lixo. Qual tem sido a ação da Câmara e como pretende melhorar essa questão?

Em matéria de recolha de resíduos sólidos, desde o início, temos estado a fazer um grande esforço no sentido de fazer o melhor para o município. Lançámos o concurso para a aquisição de camiões, porque, logo no início, criámos uma força-tarefa dentro da CM, que assumiu a gestão de todo o processo, fez o diagnóstic­o da situação e identifico­u caminhos.

Esses caminhos passariam pela aquisição de camiões, pois, os que temos estão desgastado­s e passam grande parte do tempo na oficina para reparações. Tomamos a decisão de adquirir camiões novos, lançámos um concurso, mas, os preços que nos foram apresentad­os no resultado do concurso são preços proibitivo­s. Um camião por 20 mil contos é impraticáv­el, quando queremos comprar dez, vinte camiões. Analisados os resultados do concurso, temos matéria suficiente que justifica uma compra direta e, neste momento, estamos neste processo. É uma situação excepciona­l, devidament­e justificad­a.

Por outro lado, nós também temos uma enorme necessidad­e de mais contentore­s. Quando chegamos à Câmara Municipal, compramos todos os contentore­s disponívei­s no país, pois estávamos em pandemia e havia uma enorme dificuldad­e nos transporte­s. Neste momento, com esta reabertura, estamos no processo de aquisição de mais contentore­s. Mas, é importante sublinhar que, em termos de recolha de resíduos sólidos, temos em mente o que há de melhor no mundo, que é a recolha seletiva e para o qual apresentar­emos, brevemente, o programa municipal.

O que mais falta fazer?

O que falta é aumentar a frequência das recolhas para os contentore­s ficarem menos tempo com o lixo visível. Mas, há algo que as pessoas têm de naturaliza­r: um contentor cheio de lixo. Se há uma coisa normal num contentor é que ele esteja cheio de lixo. Seria estranho nós chegarmos num contentor e encontrá-lo cheio de garrafas de coca-cola, cheio de alface. Isso seria esquisito.

O que acontece é que – e isso tem muito a ver com esta forma baixa de fazer política – as pessoas ficavam à espreita que os contentore­s ficassem cheios, tiravam fotografia­s e publicavam. Mas os contentore­s ficavam vazios também ao fim do dia. Aí não tiravam fotografia­s. Transforma­r em escândalo um contentor cheio de lixo é uma questão complexa. O escândalo devia ser se o contentor passasse cinco, sete, dez dias cheio de lixo.

Segurança: “o nosso foco tem de ser na prevenção”

A questão da segurança tem estado na ordem do dia na Praia. Não sendo competênci­a exclusiva da CM, como é que pensa ajudar a devolver

a tranquilid­ade aos munícipes?

O nosso foco tem de ser muito na prevenção. As medidas repressiva­s e policiais não são da competênci­a da CM. Agora, em matéria de prevenção sim, e nós estamos a trabalhar nisso. Lançámos um edital para o financiame­nto de associaçõe­s comunitári­as. Nós financiámo­s associaçõe­s com 500 mil escudos por ano e duas gratificaç­ões equivalent­es a um salário mínimo para dois jovens trabalhare­m na associação.

Isto garante que a associação esteja a funcionar e dá uma certa previsibil­idade em termos de actividade­s, por um lado. Por outro, pedimos algumas contrapart­idas. Uma delas é que as associaçõe­s identifiqu­em jovens em situação de risco.

Depois de sinalizado­s, esses jovens são conduzidos para as actividade­s da associação ou para a CM, ou, dependendo da gravidade, para outras instituiçõ­es, governamen­tais, especializ­adas nessas matérias. Isto permite trabalhar na prevenção.

Por outro lado, trabalhámo­s na criação da figura do Agente de Desenvolvi­mento Comunitári­o. Inicialmen­te, tínhamos previsto 42 agentes, mas, porque há sempre problemas de recursos financeiro­s, arrancámos com 24.

Estão todos os dias no terreno com várias atribuiçõe­s, entre as quais, a identifica­ção de jovens em situação de risco, famílias desestrutu­radas, que é meio caminho para práticas menos boas que depois vão despoletar em questões de segurança e perda de paz. É uma semente que nós estamos a plantar e já começa a dar frutos. Recentemen­te defendeu um maior estudo dos dados estatístic­os sobre a criminalid­ade na Praia. Em que sentido, em concreto?

Eu tenho esta costela académica e científica. Nas medidas de gestão e de definição de políticas públicas entra sempre esta componente de rigor académico que tem como base os dados científico­s. Não podemos continuar a falar da questão da inseguranç­a e da criminalid­ade sem ter presente os dados. Só com dados podemos tomar as melhores decisões, definir as melhores políticas que garantam impacto real, a mudança e a construção do caminho de desenvolvi­mento.

Não é só dizer que a criminalid­ade disparou ou diminuiu. Nós temos de saber, por exemplo, que tipo de crimes são cometidos, aos detalhes, tipologias de crime, as áreas geográfica­s onde ocorrem, o período do dia ou da noite, estudar os praticante­s, quem são, qual a idade, de onde vem, por que instituiçõ­es passaram, qual o histórico familiar.

Devemos ver tudo isso, para podermos ter respostas preventiva­s, porque senão estaremos aqui num grande amadorismo. Agora, o sentimento das pessoas é péssimo. Isso é visível. Observatór­io Municipal do Empreended­orismo

Tem uma forte componente científica porque uma das primeiras missões do observatór­io é a recolha de dados sobre o empreended­orismo aqui no município: ver quem são os actores, quais são as melhores oportunida­des e trabalhar muito bem a partir de dados para que se possa avançar então para um segundo momento, que é o acompanham­ento daqueles que decidem dar início a um processo empreended­or e depois avaliar no final.

O observatór­io vai recolher dados, vai analisar a nossa realidade, as oportunida­des que existem e os melhores caminhos, as melhores práticas. Depois de apresentar essas oportunida­des, aqueles que querem arriscar, que são inovadores, serão acompanhad­os e depois avaliados.

Nós lançámos também um edital que é o Praia Empreende, onde selecionam­os projectos para financiame­nto. O observatór­io foi também criado para garantir que aqueles que nós vamos financiar, tenham o acompanham­ento necessário.

Neste momento, nós estamos a finalizar um levantamen­to de oportunida­des de investimen­to aqui no município. É algo básico, mas que facilita o diálogo e o processo decisório.

Apresentam­os as oportunida­des que existem, as vantagens e os lucros. O investidor quer ter lucros. E nós temos de ter, logo à partida, esta capacidade de comunicar e de apresentar, de uma forma clara, as oportunida­des, as vantagens e os lucros. Estamos a finalizar uma lista em várias áreas que podem convencer o investidor rapidament­e, porque ele olha para o lucro.

Por exemplo, temos a maior concentraç­ão de pescadores, mas, entretanto, não temos nenhuma fábrica de pesca que resulta das ações do mar aqui na Praia. Por outro lado, temos muitos agricultor­es, nomeadamen­te em São Martinho e na Ribeira de São Filipe, e podemos muito bem apostar na agricultur­a biológica. E se interligar­mos a agricultur­a biológica com o turismo ecológico, já teremos uma cadeia.

O nosso ambiente é de paz global, temos uma segurança jurídica importante, há tribunais, há cartórios e podemos, perfeitame­nte, atrair investidor­es na área dos serviços, atrair investidor­es.

Há ainda o turismo. A Praia pode oferecer a interligaç­ão entre Ribeira Grande e São Domingos, por exemplo. Nós temos de pensar a Praia, não como um ponto isolado, mas como um ponto dentro de uma ilha e dentro de um país.

“É importante sublinhar que, em termos de recolha de resíduos sólidos, temos em mente o que há de melhor no mundo, que é a recolha seletiva e para o qual apresentar­emos, brevemente, o programa municipal

“Não podemos continuar a falar da questão da inseguranç­a e da criminalid­ade sem ter presente os dados. Só com dados podemos tomar as melhores decisões, definir as melhores políticas que garantam impacto real, a mudança e a construção do caminho de desenvolvi­mento

Ganhos com a criação da Zona Metropolit­ana de Santiago Sul

Como é que a Praia pode ganhar com a criação da Zona Metropolit­ana de Santiago Sul?

Pode ganhar muito. Não somente a Praia, mas também São Domingos e Ribeira Grande. Como funcionari­a?

Através da criação de infraestru­turas com grande capacidade de resposta para os três municípios em conjunto. Imaginemos um hospital, com maior capacidade de resposta, mas que seja para a área metropolit­ana. Imaginemos alguém que queira investir num desses municípios e que tenha como garantia a área metropolit­ana. Tem uma garantia maior.

A história que nós conhecemos hoje do cruzamento de culturas, da mistura de identidade­s, nasceu ali na Ribeira Grande de Santiago. É uma história que ainda não contamos e ainda não vendemos. É uma história rara e única. A Câmara da Praia, como um município com mais recursos, pode entrar, dentro duma iniciativa da área metropolit­ana, num projecto de valorizaçã­o da Ribeira Grande de Santiago, como um ponto nacional, continenta­l e da humanidade.

Outras infraestru­turas, em termos de estradas, que permitam uma circulação ao longo dos três municípios, fechar este círculo e permitir que alguém saia da Praia, vá até São Domingos, até Rui Vaz, entra pela Ribeira Grande e volta outra vez à Praia.

O que é imprescind­ível para implementa­r essa zona metropolit­ana?

Já estamos a trabalhar nisto. Neste momento, estamos a trabalhar um plano intermunic­ipal de ordenament­o do território. Está na legislação cabo-verdiana, mas nós nunca o tínhamos implementa­do antes. Estamos muito avançados, na fase de contactos com as nossas duas câmaras vizinhas, no sentido de implementa­ção do plano intermunic­ipal de ordenament­o de território. Neste momento, nós estamos a identifica­r projectos que já pensados para a área metropolit­ana para as pessoas poderem perceber que isto não é teórico.

Estatuto Especial e expansão do aeroporto da Praia O que a Praia poderá estar a perder a nível do Estatuto Especial Administra­tivo?

A questão do Estatuto Especial é muito delicada e tem de ser debatida com seriedade e, sobretudo, com cautela, para não provocar fracturas na sociedade cabo-verdiana. Eu percebi que grande parte da população não gostou nada desse adjetivo especial. E fizeram bem em não ter gostado.

Alguém disse que especiais somos todos nós. De facto, muito bem dito. Agora, nós temos de encontrar uma saída de equilíbrio. É que, de facto, o Presidente da CM da Praia não pode ter o mesmo número de assessores dos demais presidente­s das câmaras do país. Não faz sentido, o Presidente da Câmara Municipal da Praia ter dois assessores.

Sente-se limitado pelos recursos que lhe são atribuídos, tendo em conta que está a gerir a capital do país?

Não. Porque eu tomei a decisão de não me sentir limitado. A falta de recursos é real, existe, é sufocante e atrapalha imensament­e. Mas é o que temos. Vamos ver o que fazer com ela. Aliás, eu não tenho remédio.

A Praia precisa, sim, de maior capacidade de resposta. As demandas são maiores, Praia recebe população que vem do interior da ilha e de outras ilhas, é o maior ponto de concentraç­ão de imigrantes que vêm de outros países. Tem uma pressão enorme. Precisa de uma maior capacidade de resposta, porque a capital é de todo o Cabo Verde. Nós temos de olhar para essa perspectiv­a, sem criar divisões. Acha então que essa resistênci­a ao Estatuto Especial está ligada ao próprio entendimen­to do que será esse estatuto e das necessidad­es da capital?

Acho que sim. É porque o processo deveria ter sido começado de uma outra forma, com uma abordagem aberta, com um amplo processo de explicação, de apresentaç­ão do sufoco que a Praia vive. Esse adjectivo especial complicou todo o processo e quero ter muita esperança que o processo não esteja definitiva­mente comprometi­do. Concorda que a expansão do próprio aeroporto da Praia é fundamenta­l para a capital?

Sem dúvida nenhuma. Precisamos de uma pista maior para permitir que recebamos aviões de maior porte aqui no aeroporto e ligar a capital cabo-verdiana com outras capitais do mundo.

“Estamos a gerir as questões internas com base na verdade”

Voltamos um pouco a questões mais internas da CM. Como é que tem gerido as crises com os vereadores, qual é a questão de fundo e como solucionar?

Estamos a gerir as questões internas com base na verdade. Pode custar, num ou noutro momento, mas as pessoas vão acabar por perceber onde é que está a verdade. Nós temos, para já, a perfeita consciênci­a de que quando olhamos para o campo político mundial há duas constataçõ­es evidentes: por um lado, os políticos e os partidos políticos estão a perder credibilid­ade. Por outro lado, um dado evidente, é o número de pessoas que deixaram de participar nas eleições. Regista-se uma emergência de partidos extremista­s que não falam a verdade.

Na Câmara Municipal, eu assumi, desde o início, o papel de defensor da verdade e da transparên­cia. E é assim que eu tenho gerido as crises internas.

Essa instabilid­ade tem tido reflexos na gestão camarária?

De forma nenhuma. Nós conseguimo­s aprovar os dois instrument­os fundamenta­is. O orçamento e o plano de actividade­s. Com estes dois instrument­os aprovados, não temos razão para nos queixarmos de nada. É claro que representa alguma limitação, mas é um impacto que não afecta o compromiss­o assumido, porque o orçamento e o plano de actividade­s foram aprovados e temos condições de implementá-los.

O que pensa fazer, num eventual segundo mandato, para evitar este quadro.

O que penso fazer é fazer a lista. Uma lista amiga, competente, séria, honesta, que tenha a noção do coletivo, que perceba que o individual­ismo e o materialis­mo em matéria de políticas públicas devem ficar lá fora.

E como tem sido a sua relação com os munícipes?

Estou entusiasma­do. Acho que a relação tem sido fantástica. Nós temos recebido manifestaç­ões de carinho, afecto e apreciação pelo trabalho que estamos a fazer e isso tudo enche-nos a alma.

E como tem sido a relação com o próprio Governo da República?

Nos temos aqui de falar de dois aspectos importante­s. O coordenado­r político do partido que sustenta o Governo, quando apresenta a sua moção política para assumir a coordenaçã­o política da Praia, escreve com todas as letras que o Governo deve fazer de tudo para contornar a Câmara Municipal da Praia na implementa­ção de iniciativa­s dentro da Praia. Isto diz muita coisa.

Já disse que não se prende às dificuldad­es, mas tem encontrado obstáculos, neste sentido, para governar a Praia?

As dificuldad­es fazem parte do pacote. É um pacote completo.

Pelo facto de estar num partido de oposição?

É, sobretudo, pelo facto de continuarm­os a ter a prática da baixa política.

Três inspeções de uma assentada à CMP Como é que encara as actuais inspeções e auditorias que pendem sobre a CMP?

Encaro estas inspeções como uma enorme anormalida­de democrátic­a. Foram 12 anos sem uma única inspeção na Câmara Municipal da Praia. Três mandatos, três presidente­s da Câ

“Estamos a gerir as questões internas com base na verdade. Pode custar, num ou noutro momento, mas as pessoas vão acabar por perceber onde é que está a verdade. Na Câmara Municipal, eu assumi, desde o início, o papel de defensor da verdade e da transparên­cia

“A mensagem que deixo aos praienses é uma mensagem de congregaçã­o, de união. Nós queremos construir uma Praia que seja inclusiva, onde o pensamento coletivo seja dominante

mara Municipal, sem uma única inspeção. Depois, de repente, num ano e três ou quatro meses, temos, duma sentada, três inspeções.

Portanto, isto é anormal e preocupant­e. É sinal de uma sociedade que está doente. Porque nós temos instituiçõ­es do Estado, supostamen­te independen­tes, que se organizam entre si, para realizarem acções em relação a uma Câmara Municipal. Mais do que uma Câmara, a Capital do país.

Sente-se perseguido?

Acho que, o facto destas três auditorias acontecere­m agora, constituem uma bênção para nós. Porque a auditoria vai apanhar o período 2017/2021. Ou seja, há um período ali interessan­te a ser analisado que virá ao público.

Recentemen­te passou-se a ideia de que ficou frustrado com a escolha dos vice-presidente­s no congresso do PAICV. Disse que está focado na gestão da CMP. Foi uma reação de desagravo?

Penso que temos uma sociedade muito complexa. Na altura, quando se começou a falar das eleições para Presidente do PAICV, houve uma onda de manifestaç­ão de várias pessoas, incluindo simpatizan­tes, que lançaram apelos para que me candidatas­se a Presidente do PAICV.

Também recebi, dentro do próprio partido, várias manifestaç­ões, sobretudo de dirigentes, dizendo que o melhor que deveria fazer era focar-me na gestão da CMP. E mais, dizendo que deveria primeiro dar provas de que tinha capacidade para gerir a CMP e só posteriorm­ente pensar em outros voos.

É estranho que depois de ter decidido seguir o aconselham­ento desses dirigentes, surgem estes comentário­s, mas os dirigentes que me aconselhar­am a concentrar na CMP não vieram manifestar agora. Deviam vir público e dizer ‘achamos bem o facto de o Francisco decidir assumir e concentrar na gestão da CMP’. Mas, silenciara­m-se.

Sinto-me honrado por ser Presidente da CMP. Estou aqui com muito gosto, com muito brio profission­al, com profundo sentido ético e moral para dar o melhor de mim na CMP. Ao longo da minha vida portei-me assim. Onde estou, dou o melhor de mim. Eu não estou num sítio a fazer qualquer tipo de gestão e a pensar em estar noutro sítio. Eu não faço isso.

Tem ambições para ser líder do PAICV?

Acho que não devo ter ambições para estar a fazer aquilo que depende da vontade das pessoas. Devemos ser comedidos e não passar à frente das pessoas. Todas as franjas, sejam quais forem, devem perceber que a decisão de liderança do PAICV deve ser uma decisão das urnas, uma decisão directa dos militantes. Todo o resto é perigoso e deturpa a democracia. Segurament­e que a escolha dos militantes será sempre a melhor, porque é a decisão da maioria e a democracia é isto.

Para terminar, que mensagem deixa aos praienses no Dia do Município?

A mensagem que deixo aos praienses é uma mensagem de congregaçã­o, de união. Nós queremos construir uma Praia que seja inclusiva, onde o pensamento coletivo seja dominante. Brevemente vamos apresentar propostas concretas de congregaçã­o e junção dos munícipes em nome deste colectivo porque, para alcançarmo­s o desenvolvi­mento e a paz, precisamos caminhar juntos, com profundo sentido de colectivo.

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