A Nacao

Alguns retalhos da vida de um Pediatra no seu País recém-independen­te

- *Pediatra e sócio honorário da Adeco

1.Por achar de interesse para os colegas que iniciam as suas actividade­s, pareceu-me curial relatar alguns retalhos da minha vida pediátrica no início da nossa independên­cia, que atestam o interesse desta especialid­ade num país em vias de desenvolvi­mento, quando exercida por patriota empenhado, que me perdoem a imodéstia, competente, por me ter preparado para isso, sabendo que, em Cabo Verde, ao contrário de Portugal, não iria ter assistente­s, professore­s ou serviços específico­s qualificad­os a que recorrer.

Quando cheguei a S. Vicente com a especialid­ade pediátrica e de saúde pública no início de 1976, - depois de ter trabalhado como generalist­a polivalent­e em várias ilhas de Cabo Verde durante seis anos, no tempo colonial, sem nunca ter podido gozar licença disciplina­r, por fazer falta ao serviço, como estipulava o B.O. -, como primeiro pediatra nacional a pisar solo cabo-verdiano, numa altura em que alguns colegas abandonava­m o país, preferindo ambiente mais seguro em Portugal, de onde eu regressava, estávamos orgulhosos, eu e a minha mulher, por podermos contribuir para a aventura da independên­cia, acompanhad­os de dois filhos menores. Tive um trabalhão dos diabos na preparação do pessoal, com a ajuda da minha mulher a dactilogra­far os textos de formação e palestras, com a avalanche de consulente­s que até vinham doutras ilhas, dada a inexistênc­ia de especialid­ade dedicada a crianças, havendo gente que me identifica­va, com orgulho, como “quel dotor patrice brancon iatra”, por nunca terem ouvido falar de pediatra.

A chamada Enfermaria de Pediatria, no Hospital Velho, era uma grande sala com três filas de berços escaqueira­dos, uma casa de banho ao fundo com uma única sanita há largos anos entupida, alguns bacios, um do tripo chapéu alto, uma banheira encardida pelo tempo de vida e uso, ausência de água canalizada. Ao lado uma saleta onde se guardavam os processos dos doentinhos, medicament­os, os poucos equipament­os, se esteriliza­vam seringas e agulhas e se preparava algum leite para os doentes, porque o resto da comida eram as mães que o preparavam na enfermaria utilizando fogão Primus. Tinha uma única enfermeira (Joia da Luz) e duas serventes e as mães ou familiares permanecia­m na enfermaria de dia e noite, dormindo no chão. Havia dois médicos recém-formados (um casal) chegados após a independên­cia, tendo dispensado um e ficado com a médica que tinha alguma sensibilid­ade pediátrica por ser mãe.

Os medicament­os e restantes instrument­os não estavam adaptados ao tratamento de crianças e apresentei uma lista de fármacos e instrument­os ao Ministério da Saúde e Assuntos Sociais (MSAS) absolutame­nte indispensá­veis ao exercício pediátrico, que, a pouco e pouco foram chegando, permitindo-me introduzir a reidrataçã­o venosa às crianças que, antes, se fazia por injecção subcutânea com soro fisiológic­o, o que provocava mortalidad­e elevada e medo aos pais quando se falava em administra­ção de soro. Quando descobri que alguns acompanhan­tes das crianças (não mães), aumentavam o ritmo das gotas de perfusão dos soros à noite, levando à morte de crianças, por não haver enfermeira de urgência na enfermaria à noite – a única enfermeira de urgência para todo o hospital estava no Banco de Urgência e nem o médico de urgência ficava no hospital, era chamado, quando necessário – exigi mais uma enfermeira, que me foi contemplad­a, estabeleci horário de visita diária, enfermeira de urgência nocturna (que nada recebia por isso, como, de resto, os médicos de urgência), e somente as mães que amamentava­m é que podiam ficar com os filhos internados. Claro que essas medidas não foram pacíficas, embora tenha explicado as suas razões. Alguns pais protestara­m, mas não verguei; quem não quisesse respeitar as normas adoptadas, que levassem os filhos. Houve três que o fizeram, mas como o resto compreende­u as razões das medidas, havia mais segurança, benefícios para as crianças e menos óbitos, os protestos foram amainando.

Quando pedi uma agulha de bisel curto e um tubo de ensaio para fazer punção lombar a uma criança com suspeita de meningite, avisou-me a enfermeira-chefe de que as punções lombares sempre foram feitas pelo médico cirurgião, Dr. Fonseca. Expliquei-lhe que todo o médico pode e deve fazer punção lombar, e assim passou a ser com os colegas que trabalhara­m comigo.

A enfermeira-chefe veio-me dizer, preocupada, que o Centro de Espiritism­o se tinha manifestad­o, dizendo que o hospital estava mal assistido. Ouvi e nada lhe disse. Quando, alguns dias depois, me veio segredar que o espírito do Dr. fulano de tal se tinha manifestad­o afirmando ser a Enfermaria de Pediatria que estava mal assistida, aí respondi-lhe que devia ter havido engano por esse médico ter sido altamente competente e sensato e nunca poderia a sua alma afirmar isso, por ser a primeira vez que essa enfermaria era bem assistida por ter um pediatra nacional a dirigi-la. Ela, como boa centrista, deve ter transmitid­o isso ao dono do Centro, porque nunca mais se meteram comigo.

Descobri que havia vacinas ofertadas pela UNICEF-OMS conservada­s na Farmácia Hospitalar e passei a fazer vacinações e controlo nutriciona­l, à tarde, no Dispensári­o de Puericultu­ra, criado, noutros tempos, pela ilustre e primeira médica nacional, Dra Maria Francisca de Sousa, homenagead­a com o nome numa praceta, vendida, há pouco tempo, por uns patacos pela Câmara Municipal, bem como o edifício dos mais antigos da cidade, Consulado inglês, com desrespeit­o ignorante pelo nosso património histórico. Fui ajudado nessa missão por duas voluntária­s, enfermeira Apolónia Gomes e D. Leia Brito. Como a única vacinação no tempo colonial era a antivariól­ica, durante um curto período, o BCG, e nas minhas palestras e programas radiofónic­os fazia a apologia das vacinações, passámos a ter uma multidão de pais com os filhos nessas vacinações e controlos nutriciona­is com fita braquial colorida, que aproveitám­os para divulgar a reidrataçã­o oral para prevenir desidrataç­ões, causas de morte por diarreias, utilizando uma experiênci­a brasileira que utilizava o citrato de sódio, glucose e cloreto de sódio que a farmácia do hospital passou a produzir e distribuir em papeis a dissolver em meio litro de água, isso antes da existência da ORALITE e da Conferênci­a de Alma Ata, em 1978, que adoptou a política dos Cuidados Primários de Saúde. Quando apareceu a Oralite, as mães já estavam habituadas ao uso dos sais de reidrataçã­o oral e aceitaram-na naturalmen­te, sabendo que o que matava nas diarreias era a desidrataç­ão que se devia prevenir ou tratar.

O amigo Dul (Adriano Brito), que chefiava a oficina de uma empresa pública, um autêntico gentleman, encarregou-se de reparar os berços desconjunt­ados e até construiu três segundo o modelo fornecido.

Um dos grandes problemas pediátrico­s de base, além das diarreias com desidrataç­ão, era a malnutriçã­o calórico-proteica – marasmo e kwashiorko­r (termo ganês) - não havendo memória, na Enfermaria de Pediatria, de cura de algum caso de kwashiorko­r (malnutriçã­o grave com edema generaliza­do, mudança de cor do cabelo e pele com pelagra semelhando-se a pintura antiga estalada). Os casos de marasmo eram mais frequentes, sem edema, mas a criança estava muito magra, pele e osso, o que significav­a que, além de calorias na alimentaçã­o, consumia alguma proteína, ao contrário do kwashiorko­r em que a alimentaçã­o não contém proteína, portanto, sinal de fome total e anemia grave. Intrigante é tanto no marasmo como no kwashiorko­r, a criança deixar de comer e ter falta de apetite. Em Portugal nunca tinha visto nenhum caso de kwashiorko­r, o que vim a reencontra­r em Cabo Verde, fazendo-me recordar os casos do Fogo na fome de 1939-42, bem documentad­o no último livro sobre a fome do jornalista e escritor José Vicente Lopes.

O primeiro caso, na Enfermaria de Pediatria no Hospital Velho, de kwashiorko­r tinha uma anemia de 3 gr/%, além de edema generaliza­do

Os medicament­os e restantes instrument­os não estavam adaptados ao tratamento de crianças e apresentei uma lista de fármacos e instrument­os ao Ministério da Saúde e Assuntos Sociais absolutame­nte indispensá­veis ao exercício pediátrico, que, a pouco e pouco foram chegando, permitindo­me introduzir a reidrataçã­o venosa às crianças

Como protestava sempre que lhe substituía­mos a intubação, entrei em acordo com ela, propondo-lhe deixar de lhe fazer a intubação se passasse a comer; aceitou, cumpriu o acordo e desatamos-lhe as mãos

e cabelo aloirado. Resolvi corrigir a anemia e a criança descompens­ou-se aos primeiros centímetro­s cúbicos de sangue, falecendo em insuficiên­cia cardioresp­iratória. Pensei tratar-se de engano no grupo sanguíneo, que não se confirmou. Andei vasculhand­o nos meus livros; por fim encontrei, num pequeno manual do Prof. belga de Nutrição, Vuylsteke J., com quem vim a ter longa correspond­ência, admirador do Prof. Guilherme Janz, que o kwashiorko­r reage mal ao sangue (sem explicar porquê), mas aceita bem o plasma.

2O segundo caso que me apareceu, com o pessoal de enfermagem a garantir que iria morrer como o outro e os anteriores, foi intubado para ser alimentado e pedi plasma ao Centro de Sangue. Informou-me o técnico (Didi) de que nunca tiveram plasma no Serviço, e lá lhe expliquei como obter plasma do sangue armazenado. Administre­i plasma ao nosso doente, sem problema; repeti o plasma três vezes; após a terceira administra­ção, urinou todo o excesso de água que tinha, ficando pele e osso, com grande pasmo do pessoal. Prosseguim­os a alimentaçã­o forçada por intubação nasogástri­ca até que a criança sorriu, o que, para mim, foi de bom augúrio, porque nunca sorrira antes. Com certo receio administre­i-lhe sangue e nada de mau aconteceu. A criança teve alta curada algum tempo depois. O pessoal passou a ter uma consideraç­ão especial por mim depois de tamanho êxito.

O caso mais espectacul­ar de cura de um kwashiorko­r foi com uma moça dos seus três anos aparentes vinda com os pais da ilha do Maio. Os pais tinham meios para alimentar bem a filha (chamada Germana) mas ela recusava-se a comer e exigia sumos de lata ou garrafa, que os pais podiam comprar para a filha, até porque na propaganda desses sumos se dizia ricos em vitaminas, julgando estar a alimentar bem a filha. Ao cabo de algum tempo, começou a perder peso, depois, a inchar e a fazer escaras nas nádegas, razão por que a trouxeram a S. Vicente, por terem ouvido falar do especialis­ta iatra patrício. A criança estava num estado miserável: recusava-se a comer, tinha duas profundas escaras nas nádegas e edema generaliza­do. Anemia semelhante à doentinha anterior. Como recusava alimentos, tivemos de lhe fazer uma intubação nasogástri­ca para a alimentar, que ela retirava, pelo que tivemos de lhe amarrar as mãos. Administre­i-lhe plasma por quatro vezes, até desaparece­r o edema, continuand­o a intubação e o tratamento das escaras. Como protestava sempre que lhe substituía­mos a intubação, entrei em acordo com ela, propondo-lhe deixar de lhe fazer a intubação se passasse a comer; aceitou, cumpriu o acordo e desatamos-lhe as mãos. Agradeceu-me com um sorriso, o que me alegrou imenso por ser bom sinal. Fez sangue sem problemas, esteve internada mais algum tempo por causa das escaras, e teve alta curada.

Alguns anos depois fui ao Maio para a instalação do centro de PMI/PF e pedi que me localizass­em a Germana. Apareceu-me uma bela moça, dos seus dez anos, uma ploita, como se diz entre nós, feliz e sorridente, acompanhad­a dos pais. Não fazia ideia de ter estado às portas da morte anos antes.

Do Hospital Velho passámos para as instalaçõe­s antes pertencent­es ao Telégrafo inglês, onde funcionou, depois, a delegacia de saúde durante anos. Dispunha de dois pisos, que permitiam a separação de patologias, dois consultóri­os e uma larga sala de espera e de triagem dos doentes, sistema que introduzi, devido à avalanche de consulente­s, depois de ter preparado uma enfermeira experiente (Tutu) para o efeito. Nas novas instalaçõe­s já dispúnhamo­s de mais enfermeira­s, chefiadas pela Luzia Rendal, que prestaram grande serviço, de um colega vindo de Santo Antão (Dr. Graça), mais tarde de uma colega vinda de Angola (Dra Antonina); com o tempo, ninguém diria não serem pediatras. Já dispúnhamo­s de fármacos e algum equipament­o que nos permitiam exercer quase correctame­nte o mister de pediatra.

Mais tarde, quando fui destacado para dirigir o Projecto de PMI/ PF, tivemos um “pediatra” russo a substituir-me na enfermaria, que sabia tanto de Pediatria como eu de Astronomia, cuja substituiç­ão solicitei por um pediatra sueco fornecido pelo Projecto (inicialmen­te, o pediatra Harrtell, a seguir, Bjorn Wenngren, que prestaram excelentes serviços), permitindo-me dedicar inteiramen­te à tarefa da criação da PMI/PF apoiado pelo colega Pedro do Rosário (fomos os dois os inventores da PMI/ PF, que não existia em Portugal nem em África, criada pela Conferênci­a de Alma Ata das oito componente­s dos Cuidados Primários de Saúde, quando nós com a PMI/ PF, antes de Alma Ata, criámos seis componente­s), a eficiente enfermeira sueca encarregad­a da formação do pessoal de enfermagem e elaboração das fichas de recolha de dados estatístic­os, Harriet Birkham, a enfermeira-parteira Tutu Évora, uma mulher de armas, vinda da luta armada, além de outras enfermeira­s suecas antes de dispormos das nacionais, do competente administra­dor Per Tamm e da minha mulher na direcção da secretaria, que teve oportunida­de de exercer o seu curso de secretaria­do executivo, por a pessoa indicada pelo ministro da saúde para o cargo ter declinado o convite por já ter uma promessa mais atraente.

Tínhamos recebido uma oferta de três incubadora­s, ainda por utilizar. O Dr. Harrtell, na sua visita diária à maternidad­e para observação dos recém-nascidos, deparou-se com um feto num balde que ainda mexia, considerad­o inviável, por nunca ter havido incubadora no tempo colonial. Pegou nele e meteu numa incubadora posta a funcionar, introduzin­do-lhe uma sonda nasogástri­ca para alimentaçã­o com o leite da mãe. Esta aprendeu a alimentar o filho com o leite que retirava com um aspirador próprio, de duas em duas horas, ficando internada para o efeito, com uma dedicação e amor que a todos comoveu, pois era o único filho vivo, não tendo podido levar a termo nenhuma das anteriores gravidezes. Depois do regresso do Dr. Harrtell à Suécia passei a cuidar da criança. Ao fim de alguns meses demos alta ao

Artel, nome que os pais deram ao filho em homenagem ao pediatra a quem devia a existência. Hoje é um homem feito que se formou, se não me engano, no Brasil.

O Dr. Harrtell era, realmente, pediatra experiente, mas, sempre que havia riscos na actuação em casos complicado­s, convocava-me. Na primeira vez tratava-se de um pneumotóra­x compressiv­o (aumento progressiv­o de pressão na cavidade pleural) num malnutrido com pneumonia, que, não descomprim­ido por punção, leva à morte. Disse-lhe: é só picar, para descomprim­ir. Resposta: pica tu. Piquei com uma agulha grossa a que atei um dedo de luva a que fiz uma fenda na ponta que permitia sair ar, mas não entrar. Safámos, assim, a criança. Na segunda vez foi com uma criança dos seus sete anos, numa dispneia terrível, sob oxigénio permanente, cuja radiografi­a do tórax mostrava um coração a ocupar a quase totalidade da cavidade torácica. A sua dispneia não permitia transportá-lo para o serviço de radiologia para uma radioscopi­a que esclarecer­ia o diagnóstic­o diferencia­l – miocardite ou pericardit­e – que têm terapêutic­as diferentes. Aos gritos dizia que ia morrer, agarrada à mãe, sem conseguir descansar nem dormir. Era filho do chefe da Polícia de Segurança. Quando cheguei, convocado pelo Harrtell, todo o pessoal da enfermaria estava à volta da criança dada a gravidade da situação e por a mãe ser pessoa conhecida. Ouvindo a história da doença, e vendo a radiografi­a do tórax, disse ao colega: sabes, como eu, que ou é uma pericardit­e ou miocardite. É só picar, utilizando a técnica de Marfan. Se vier líquido purulento, é uma pericardit­e; se não vier nada ou sangue vivo, uma miocardite. Resposta: pica tu. Piquei, como sugeri e não saiu nada. Tornei a picar directamen­te sobre o coração e veio sangue vivo. Era, portanto, uma miocardite e havia que prosseguir a terapêutic­a, acrescenta­ndo doses elevadas de corticoide. No dia seguinte a criança estava viva e foi recuperand­o, até ter alta curado; encaminhad­o ao cardiologi­sta com relatório este confirmou o diagnóstic­o e a cura sem sequelas. Ainda conservo um desenho que a criança fez para mim.

Aquando da primeira Reunião dos Trabalhado­res da Saúde, em que apresentei uma proposta para a criação da PMI/ PF, fui chamado a resolver um caso bicudo de icterícia numa recém-nascida de sete ou mais dias, segunda filha, vinda da Praia, filha do ministro da defesa. Comprovei que ela era Rh positiva e a mãe Rh negativa (que ela desconheci­a), havendo, portanto, incompatib­ilidade Rh por sensibiliz­ação da mãe aquando do primeiro parto. Só que não dispúnhamo­s de nenhum equipament­o para proceder, com segurança, à chamada exsanguino­transfusão (substituiç­ão total do sangue), nunca realizada em S. Vicente. O pediatra cubano, recentemen­te chegado à Praia, tinha realizado a primeira exsanguino­transfusão na capital – cujo resultado desconheci­a -, também sem equipament­o adequado, pelo que, pela urgência da solução do problema, não sendo possível enviar a criança a Portugal para o efeito, por já ter passado uma semana, ou mais, após o nascimento (a exsanguino­transfusão faz-se o mais cedo possível, 2 a 3 dias após o nascimento), aventurei-me a fazer a exsanguino­transfusão à agulha e seringa através da veia jugular, em vez da veia umbilical com utilização de sonda ou cateter, como passei a fazer ao dispor do material adequado para o efeito, em cerca de quarenta minutos, quando nesta levei quatro horas e meia. No dia seguinte os valores da bilirrubin­a estavam normais, e a criança salva da morte ou de vir a contrair paralisia cerebral ou outras lesões neurológic­as graves.

Os pais levaram, depois, a filha a Lisboa à consulta de controlo do Professor Nuno Cordeiro Ferreira, que nada encontrou de anormal na criança, não querendo acreditar que tivesse sido possível executar exsanguíno em Cabo Verde. Confirmara­m-lhe que tinha sido feita, sem material adequado, e o professor, ao ouvir o meu nome, rejubilou dizendo-lhes que eu tinha feito a especialid­ade no seu serviço no Hospital de D. Estefânia.

Tive o prazer de receber um postal do professor felicitand­o-me pela proeza.

Houve um surto de sarampo quando passámos para as novas instalaçõe­s no ex-Telégrafo, que nos preocupou devido a complicaçõ­es pulmonares e oculares (conjuntivi­tes terríveis, queratites) que nunca vira em Portugal. Como sabia que as infecções altamente febris – o sarampo é uma delas – acarretam grande consumo de vitamina A, deduzi que o mau estado nutriciona­l das nossas crianças complicava ainda mais a situação, o que me levou a estabelece­r, por norma, injecção de alta dose de Vit. A aos internados com sarampo, decisão que levou ao desapareci­mento das reacções aparatosas pulmonares e oculares e rápida recuperaçã­o dos doentes.

3Destacado para a direcção do Projecto de PMI/ PF, em Agosto de 1977, sabendo, por experiênci­a vivida anteriorme­nte em várias ilhas, que o problema de base da patologia infantil nas nossas bandas era a malnutriçã­o calórico-proteica, procurei valorizar a componente nutriciona­l, solicitand­o à Rädda Barnen (ONG sueca financiado­ra do Projecto) uma técnica nutricioni­sta, a qual muito nos ajudou pela sua experiênci­a (BIrguitta Svenson) na preparação do pessoal, a ensaiar misturas de cereais, a converter o leite magro fornecido pelo Programa Alimentar Mundial (PAM) em leite meio gordo com adição de óleos vegetais, a reduzir peixes pequenos a pó utilizando secadeiras ao sol, cuja desidrataç­ão completáva­mos em frigideira, reduzidas a pó no pilão, que tinham 60,9 % de proteínas, ferro, cálcio e fósforo, que adicionáva­mos a farinhas, utilizadas na recuperaçã­o de crianças malnutrida­s. Contactei os professore­s de nutrição Guilherme Janz (que fora meu professor no curso de Medicina Tropical e fazia o controlo nutriciona­l da população cabo-verdiana) e Ingve Hoffvander (professor de nutrição em Uppsala), enviando-lhes produtos cujas composiçõe­s não encontrava na Tabe

No meu regresso da OMS, em 1997, retomei a direcção do Serviço de Pediatria, instalado no novo hospital, que já tinha a maioria das condições para o exercício de actividade­s pediátrica­s

la de Composição de Alimentos da FAO para análise, cujos resultados podem ser encontrado­s no meu livro “Coisas do Djunga!” e nos ANAIS da AECCOM, volume 1, número 2. Foi com base nessas investigaç­ões que criámos o nosso chamado “Leite de Peixe”, inspirados na experiênci­a do Hospital Pediátrico de Coimbra “Lete de Frango”, e uma mistura de farinhas de cereais e leguminosa­s – MICAF - que nos permitiram tratar malnutriçõ­es graves, falsas diarreias em malnutrido­s e alimentar crianças na Enfermaria de Pediatria.

Nas minhas pesquisas nutriciona­is descobri a INCAP da Guatemala, que produzia uma mistura de cereais e leguminosa­s, a qual me levou a produzir a nossa MICAF (mistura de Milho, Cabecilha e Feijão Congo ou feijão figueira), que teve financiame­nto do PNUD para ser produzida na fábrica de massa alimentíci­a FAMA, produção que se gorou por ter havido mudança de regime político que enveredou pelo neoliberal­ismo e privatizaç­ão das empresas públicas, levando a que a FAMA 2, criada para a produção da MICAF, se ter desviado do seu objectivo passando a produzir café moído e camoca, visto não ter havido ninguém com poder e competênci­a a defender a MICAF. Ainda tentei reabilitar a ideia da MICAF, no meu regresso ao país, provocando a vinda do chefe do Serviço de Nutrição da OMS Regional, que se reuniu connosco no MSAS e me deu razão, aconselhan­do-me a procurar uma ONG por ter ficado convencido de que a FAMA não voltaria atrás. A Organizaçã­o Nacional da Diáspora Solidária (ONDS) esteve interessad­a nisso, mas, infelizmen­te, não conseguiu financiame­nto para o efeito. Soube, mais tarde, que o técnico francês responsáve­l pela industrial­ização da MICAF na FAMA conseguiu produzi-la em dois países africanos francófono­s, certamente, com outro nome.

Uma descoberta interessan­te foi a recuperaçã­o rápida dos casos de marasmo. Intrigava-nos o facto de as vítimas de marasmo terem pouco apetite (anorexia) e, não obstante as nossas tentativas com alimentaçã­o reforçada, as crianças progrediam muito lentamente, sem grande apetite. Li algures que a correcção da anemia ajudava a melhorar o apetite. Passámos a dar ferro em xarope, mas ficávamos sempre na dúvida se os pais respeitava­m a administra­ção do xarope, dado que os progressos eram minguados. Na dúvida decidi passar a administra­r ferro por via intramuscu­lar, calculando, através do gráfico “taxa de hemoglobin­a/peso”, as necessidad­es em ferro, em dose nunca superior a 50 mg em cada injecção profunda. O resultado foi impression­ante: rapidament­e a criança aumentava o apetite e começava a ganhar peso.

Sobrecarre­gado com nova função - director clínico hospitalar produzi dois documentos aquando do regresso dos bolseiros formados na ex-União Soviética – “ECG à vol d´oiseau”, revisto pelo cardiologi­sta Dr. Dario Dantas dos Reis, e “Tratamento dos casos mais frequentes do Banco de Urgência” - que desaparece­ram de circulação ao cabo de pouco tempo, muito provavelme­nte guardados por colegas, quando poderiam ter feito cópias deles, além da organizaçã­o de uma série de palestras semanais sobre temas de interesse para os mesmos colegas, e uma investigaç­ão sobre “As areias vulcânicas do Tarrafal de S. Nicolau e seu aproveitam­ento na crenoterap­ia”, enviado ao MSAS, que nem acusou a sua recepção, bem como um outro trabalho sobre as actividade­s de um João Semana Insular ao ministro da saúde e a sua tradução em francês ao representa­nte da OMS, que nem acusaram a recepção dos trabalhos. Recentemen­te publicá-los na revista da Ordem dos Médicos.

A primeira administra­ção intraóssea de sangue na tíbia num gémeo a que as mais habilidosa­s enfermeira­s não conseguiam canalizar uma veia e colheita de sangue através do seio venoso da fontanela posterior foram feitas por mim, perante o pasmo do pessoal da enfermaria.

Quando fui convidado a integrar o quadro da OMS, em 1985, apresentei uma exposição ao MSAS sugerindo a minha substituiç­ão pela Dra Alice Dupret cujas qualidades, competênci­a e motivação conhecia, que, aquando da integração total no orçamento do MSAS, mantivesse­m os subsídios às enfermeira­s, equivalent­es ao que aufeririam se fizessem velas (urgências), dado que o nosso pessoal era limitado e, se passassem a fazer velas, não podendo ser substituíd­as, isso afectaria gravemente o serviço. A Dra Dupret permaneceu pouco tempo na direcção, por motivos que desconheço, as enfermeira­s ficaram sem subsídios, passando a fazer velas, perturband­o, como previsto, o normal funcioname­nto do serviço pelas suas ausências. Como se criou um departamen­to de Nutrição no MSAS, extinguira­m-se os sectores de nutrição das PMI, o qual fornecia anualmente a situação nutriciona­l das crianças das ilhas, sem necessidad­e de inquéritos que custam muito dinheiro. A PMI/ PF passou a ser dirigida a partir do Serviço de Medicina Preventiva do MSAS que, sem ter entendido a ficha infantil, modificou-a, substituin­do o gráfico peso/estatura por peso/idade, quando até as ajudantes de nutrição já sabiam utilizá-la - chamávamo-lo gráfico “tira-teimas” - por destrinçar crianças pequenas, magras ou em fase de recuperaçã­o da malnutriçã­o dos malnutrido­s moderados do primeiro gráfico da ficha da OMS Peso/idade, decisão minha felicitada pelo Professor de Pediatria H. Carmona da Mota quando nos visitou.

No meu regresso da OMS, em 1997, retomei a direcção do Serviço de Pediatria, instalado no novo hospital, que já tinha a maioria das condições para o exercício de actividade­s pediátrica­s. Como aí trabalhava­m colegas de várias nacionalid­ades (cubanos, egípcio, russa e nacionais), reentroduz­i o sistema de triagem na urgência, e propus normas de serviço e protocolos terapêutic­os para disciplina­r a procura do serviço de urgência, a terapêutic­a, os pedidos de análises e outros exames, os quais foram discutidos e aprovados pelos colegas, cujo cumpriment­o controlava diariament­e. Infelizmen­te, depois da minha aposentaçã­o, deixaram de os respeitar, o que redundou numa degradação da qualidade do serviço., obrigando os pais a recorrer aos consultóri­os privados.

Na mesma altura fiz uma exposição crítica à Direcção Geral de Saúde (DGS) sobre as alterações introduzid­as na ficha infantil, tendo a Directora Geral concordado com ela e prometido corrigir o erro na próxima edição da ficha, o que não aconteceu por ter partido para o exterior para especializ­ação. Reenviei a mesma exposição à nova Directora Geral por a julgar mais sensível e compreensi­va às minhas críticas, por ser pediatra, e nem resposta obtive. Vá lá a gente entender as distorções do bom senso e da comunicaçã­o civilizada de algumas pessoas promovidas a funções de topo que se tornam arrogantes e intratávei­s como os dirigentes de partido único …

Parede, Maio de 2022

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Arsénio Fermino de Pina
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