SEN­TI­DO DA VI­DA E DEPENDÊNCIAS (PAR­TE II)

A Verdade - - MARCO DE CANAVESES - BRU­NO MI­GUEL LI­GEI­RO RI­BEI­RO

Ocon­su­mo de ál­co­ol é tão an­ti­go co­mo a pró­pria Hu­ma­ni­da­de. Da­dos úl­ti­mos do Ser­vi­ço de In­ter­ven­ção nos Com­por­ta­men­tos Adi­ti­vos e nas Dependências, de 2016, da po­pu­la­ção por­tu­gue­sa com ida­des en­tre 15 e 74 anos apon­tam pa­ra uma pre­va­lên­cia em to­da a vi­da pa­ra con­su­mo de be­bi­das al­coó­li­cas de 85,6%; com pre­va­lên­cia anu­al de 58,6% (68,4% do se­xo mas­cu­li­no e 48,8% do se­xo fe­mi­ni­no). A Or­ga­ni­za­ção Mun­di­al da Saú­de con­si­de­ra con­su­mo de ris­co pa­ra a mu­lher e pa­ra o ho­mem aci­ma de uma ou du­as be­bi­das por dia, res­pe­ti­va­men­te, ou aci­ma de 20-40 g ou 40-60 g de ál­co­ol pu­ro por dia, res­pe­ti­va­men­te.

Os fa­to­res res­pon­sá­veis pe­lo con­su­mo abu­si­vo de ál­co­ol po­dem ser in­di­vi­du­ais (per­tur­ba­ção psi­quiá­tri­ca ou “per­so­na­li­da­de al­coó­li­ca”), so­ci­ais (mo­de­la­ção pa­ren­tal, vul­ne­ra­bi­li­da­de ge­né­ti­ca, ins­ta­bi­li­da­de fa­mi­li­ar, gru­po so­ci­al ou pro­fis­si­o­nal), na­ci­o­nais e cul­tu­rais (so­ci­e­da­de e pro­ble­mas so­ci­ais co­mo a po­bre­za, pros­cri­ção so­ci­al, dis­po­ni­bi­li­da­de de subs­tân­ci­as adi­ti­vas e os es­ti­los de con­su­mo).

As com­pli­ca­ções do con­su­mo cró­ni­co de ál­co­ol po­dem ser mé­di­cas: le­sões he­pá­ti­cas co­mo a he­pa­ti­te e a cir­ro­se, car­di­o­vas­cu­la­res co­mo a car­di­o­mi­o­pa­tia e a hi­per­ten­são, gas­trin­tes­ti­nais co­mo a úl­ce­ra pép­ti­ca, va­ri­zes eso­fá­gi­cas e pan­cre­a­ti­te, ne­o­pla­si­as do fí­ga­do ou esó­fa­go e ain­da ane­mia ou he­mo­cro­ma­to­se. A quar­ta mai­or cau­sa de mor­te é a mor­ta­li­da­de as­so­ci­a­da ao con­su­mo de ál­co­ol.

Ade­mais po­dem sur­gir qua­dros psi­quiá­tri­cos e neu­ro­ló­gi­cos: epi­lep­sia, neu­ro­pa­tia, de­li­rium tre­mens, sín­dro­me de Wer­nic­ke, sín­dro­me de Kor­sa­kov, trau­ma­tis­mo cra­ni­a­no (por que­das), alu­ci­no­se al­coó­li­ca, ciú­me pa­to­ló­gi­co, de­mên­cia al­coó­li­ca, per­tur­ba­ções de­pres­si­vas e da an­si­e­da­de, dis­fun­ções se­xu­ais e sui­cí­dio.

O tra­ta­men­to da sín­dro­me de de­pen­dên­cia al­coó­li­ca pas­sa pe­la abs­ti­nên­cia ou re­du­ção dos con­su­mos, pre­ven­ção de re­caí­das, di­mi­nui­ção da mor­bi­li­da­de as­so­ci­a­da e su­as se­que­las e me­lho­ria do fun­ci­o­na­men­to psi­co­ló­gi­co e so­ci­al. Nas si­tu­a­ções mais gra­ves po­de ser ne­ces­sá­rio uma de­sin­to­xi­ca­ção ou de­sa­bi­tu­a­ção (nu­ma uni­da­de es­pe­ci­a­li­za­da co­mo são as Uni­da­des de De­sa­bi­tu­a­ção ou Co­mu­ni­da­des Te­ra­pêu­ti­cas). Além do uso de fár­ma­cos, de­vem ser in­te­gra­dos o uso de psi­co­te­ra­pi­as bem co­mo a re­a­bi­li­ta­ção e rein­ser­ção psi­cos­so­ci­al.

O con­su­mo abu­si­vo de ál­co­ol é um pro­ble­ma de to­da a so­ci­e­da­de, com vá­ri­os si­nais de aler­ta: o ál­co­ol es­tá en­vol­vi­do em cer­ca de 50% dos cri­mes vi­o­len­tos (ho­mi­cí­di­os e agres­sões se­xu­ais), 50% dos aci­den­tes de vi­a­ção, 20 a 30% dos aci­den­tes de tra­ba­lho, 40% e 10% dos in­ter­na­men­tos de ho­mens e mu­lhe­res, res­pe­ti­va­men­te, em hos­pi­tais ge­rais; 30% dos in­ter­na­men­tos psi­quiá­tri­cos e 37% dos com­por­ta­men­tos sui­ci­dá­ri­os.

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