Na­tal

A Verdade - - ESPECIAL NATAL -

Sei que não es­tás ador­me­ci­do! Os di­as vão cain­do co­mo fo­lhas no ou­to­no, de­com­pon­do-se e fer­ti­li­zan­do-nos a memória.

Ho­je es­tá uma noi­te de ba­ter os den­tes, tal o frio deste de­zem­bro. Não es­ti­ves­te aqui pa­ra me dei­xar o aque­ce­dor li­ga­do. Há se­te di­as que não es­tás e um raio de sol sem con­vic­ção ilu­mi­na a po­ei­ra que, in­de­ci­sa na luz, aca­ba por re­pou­sar em mim, co­mo um man­to dis­cre­to. Há tan­to pa­ra ver. Dei­xa o olhar ver. Olha co­mi­go. Sei que não es­tás ador­me­ci­do! Pe­que­ni­no no meio de tan­ta cul­tu­ra; os teus li­vros sa­bem mui­to, mas não fa­lam co­mi­go. Fa­la co­mi­go. Com a ca­ma não con­si­go fa­lar. É de ferro e o ferro é frio; não fa­la da vi­da com ale­gria. Sin­to mui­to a tua fal­ta, ago­ra mais do que nun­ca, por­que lá fo­ra o amor trans­voa o ar. As ru­as es­tão chei­as de gen­te; às ve­zes in­ve­jo-lhes a con­ver­sa. Os pais têm os fi­lhos a lem­bra­rem-lhes o Pai Na­tal, o das pren­das… Os na­mo­ra­dos so­nha­do­res e os so­li­tá­ri­os, me­ti­dos em aga­sa­lhos gas­tos, olham as mon­tras com olhos gran­des. Tu­do cheio de lu­zes. Nas vi­tri­nas, as lam­pa­da­zi­nhas de cor ilu­mi­nam pre­sé­pi­os e um sor­ti­do de ten­ta­ções fais­can­tes. Pa­ra ar­ras­tar o tem­po mais de­pres­sa, pa­ra que não du­re tan­to, so­nho. Eu acre­di­to no so­nho. Lá fo­ra a fo­lia, as lu­zes, a ale­gria, o bo­lo-rei. Lá fo­ra o si­lên­cio, o es­cu­ro, a tris­te­za, o ar­roz. Lá fo­ra, ou­tro mun­do que a noi­te reú­ne ao mes­mo tem­po que as es­tre­las. Es­con­di­dos na som­bra, jun­tam-se a dor­mir sem ou­tro la­ço co­mum além da mi­sé­ria. Nem al­mo­fa­da, nem con­fi­an­ça al­gu­ma ex­pe­ri­men­tou es­ta fa­mí­lia de pa­ren­tes da noi­te. Dei­tam-se jun­ti­nhos, ves­ti­dos, e dor­mem de ca­be­ça apoi­a­da so­bre o far­do das su­as ri­que­zas: res­tos de co­mi­da em­bru­lha­da em jor­nais, sa­pa­tos ro­tos, sem pi­nhei­ro, nem lu­zes de Na­tal, nem bo­lo-rei. Por que se­rá que se fa­la sem­pre de­les no Na­tal! Sei que não es­tás ador­me­ci­do! Sa­bes, Deus po­de con­ce­der-nos dá­di­vas, mas o mé­ri­to de ser ca­paz de as re­ce­ber e par­ti­lhar tem de ser nos­so.

Sin­to-me fe­liz por ti, por­que te que­ro bem e te sei cons­ci­en­te do Na­tal. Co­mo é bom di­zer is­to. O meu en­con­tro con­ti­go te­ve as su­as can­ções e as su­as his­tó­ri­as. São elas que me em­ba­lam es­tas ho­ras de de­sen­con­tro. Sei que não es­tás ador­me­ci­do! Co­nhe­ço o ín­ti­mo sus­pi­ro das tu­as pre­o­cu­pa­ções, tem­pe­ra­do com as ale­gri­as do dia-a-dia. Eu cres­ci ao teu la­do co­mo um dia lon­go com sol. Tu es­ta­vas. Co­mo é lon­ga a sau­da­de pa­ra mim!...O teu regresso se­rá Na­tal pa­ra mim. Tu nas­ce­rás uma vez mais pa­ra mim. Se­rás a mi­nha pren­da e as­sim a mi­nha ale­gria.

Sei que não es­tás ador­me­ci­do!

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